Família Comboniana
- Se queres a paz, respeita a natureza
- II Sínodo para África
- Vida em abundância
- As nações caminharão à Sua Luz
- Caridade na verdade
Se queres a paz, respeita a natureza
A Natureza é um bem comum, um dom oferecido por Deus a todos os habitantes do mundo, não só actuais, mas também futuros. Este facto já justifica que os cristãos se preocupem com a defesa do meio-ambiente que os rodeia.
A acção desestabilizadora do ambiente, por parte do homem, sempre existiu. Só que a moderna tecnologia, a crescente industrialização e a ânsia por tirar o máximo proveito dos recursos naturais, nestas últimas décadas, fez precipitar perigosamente a saúde do nosso planeta. A este facto não são alheios os desastres climáticos que, um pouco por todo o lado, nos assustam e nos fazem sentir que a natureza se está a revoltar e a acusar-nos do mal que lhe fazemos.
Nos nossos esquemas ético-morais, não estamos muito habituados a considerar um mal moral a falta de respeito pela ordem natural. Dificilmente algum cristão pedirá perdão a Deus por ‘pecados ecológicos'. Quem acharia estar a ofender a Deus por o escape do seu carro emitir demasiados gases de estufa, por as suas matas não estarem limpas e aumentarem os incêndios, por as suas oficinas, pocilgas e actividades várias estarem a contaminar os rios, ou por os seus pesticidas usados na agricultura estarem a envenenar as águas subterrâneas? Estas coisas não nos preocupavam. Mas agora, com as outras acções poluidoras maiores, percebemos melhor os seus efeitos devastadores.
As nossas crianças, de facto, estão mais sensibilizadas para pequenos gestos, como evitar espalhar plásticos, pilhas, óleos queimados, detergentes ou lixo em qualquer lugar. Têm consciência de que devem poupar os bens cuja produção implica desgaste irreversível da Natureza.
Quem tem fé vê na Natureza o livro aberto de Deus e, nas coisas criadas, o reflexo do Criador. Além de falta de civismo e de cidadania, quem tem fé considera o atropelo ecológico uma ofensa a Deus, como falta de respeito pela ordem que Ele infundiu na Criação.
A Natureza não é apenas ‘matérias primas' de que podemos dispor a nosso bel-prazer. É obra-prima do Criador, ordenada por leis intrínsecas e coerentes, que exigem o devido respeito e uma utilização sábia, que não obedeça simplesmente à satisfação de caprichos egoístas, privados ou de grupo.
Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa pede aos cristãos para se empenharem na defesa do ambiente. Na sua última encíclica, ‘Caritas in Veritate', desde o nº 48 até 51, já tinha tratado esta questão. Para o Papa é fundamental que a comunidade internacional e os governos enviem sinais certos aos seus cidadãos, de forma a travar os danos ecológicos. Aos cristãos, assim como a todos os cidadãos em geral, compete o dever de pressionar os governos a legislar em conformidade.
Os missionários são testemunhas, não só de muitos atropelos ao equilíbrio ecológico, realizados por empresas sem escrúpulos no terceiro mundo, mas também de muitas catástrofes provocadas por esses atropelos, que se abatem em cima de povos já, de por si, pobres e indefesos. Por isso sentem que o tema proposto pelo Papa também é parte da sua missão.
II Sínodo para África
Mais de 220 bispos africanos, reunidos em Roma de 4 a 25 de Outubro, para o II Sínodo sobre África entregaram ao papa propostas para uma Igreja mais activa na justiça, paz e reconciliação do continente.
Na missa inaugural do II Sínodo dos Bispos para a África no dia 4 de Outubro, na basílica de S. Pedro, em Roma, o Papa Bento XVI deixou, quanto a mim, uma mensagem desinquietadora na homilia que proferiu. O papa apresentou o continente africano como um «imenso pulmão espiritual para toda a humanidade», mas que pode vir a sofrer de duas doenças, o «materialismo prático» e o relativismo, por um lado; e por outro, o «fundamentalismo religioso».
Com origem no Ocidente, o «materialismo prático» rejeita Deus no dia-a-dia das pessoas e relativiza os valores. A troco da pouca ajuda económica que vai dando a África, o Ocidente impõe a sua ideologia cultural, social e política, naquilo que os bispos africanos denunciam de «neocolonialismo ideológico». Neste momento, África está invadida de instituições patrocinadas pela Europa e Estados Unidos que promovem o aborto. Num continente de pessoas profundamente religiosas e amantes da vida, estas ideologias estrangeiras são deveras estranhas e contraproducentes à cultura e sociedade dos povos africanos.
CONTRIBUTO DA IGREJA
O outro «vírus» sublinhado pelo pontífice é o «fundamentalismo religioso», que, segundo ele, é fomentado por interesses económicos e políticos, que tendem a desestabilizar as relações entre as pessoas, criando situações de conflito entre as várias crenças religiosas. O objectivo é sempre criar caos para poder usufruir das riquezas naturais do continente.
Este II Sínodo dos Bispos Africanos acontece 15 anos depois do I Sínodo realizado em 1994 também em Roma. De lá para cá fizeram-se muitos progressos na Igreja e na sociedade, com o fim de muitos conflitos e com a Igreja a assumir um papel mais profético e a contribuir para a paz. Contudo, não devemos estar demasiado optimistas, como alerta um bispo africano, porque ainda há muito trabalho pela frente.
Com o tema «a Igreja ao serviço da reconciliação, paz e justiça», este segundo sínodo pretende dar uma nova pujança à Igreja em África no seu contributo para a reconciliação entre as etnias e raças do continente. Há ainda muitas feridas por sarar na convivência entre os povos, e muitos problemas por solucionar, como a pobreza, a fome, a sida, conflitos étnicos, alterações climáticas, refugiados, etc. A Igreja está numa posição privilegiada, pela sua proximidade com as populações e pelo seu empenho a favor do perdão, da paz e da justiça, para prestar uma valiosa contribuição para uma África mais justa, fraterna e desenvolvida.
PROPOSTAS
No final do sínodo, os bispos africanos elaboraram uma lista de 57 propostas, que entregaram ao papa, a partir das quais ele irá escrever um documento que deverá orientar a Igreja na África nos próximos anos. Entre as propostas destacam-se o diálogo inter-religioso, em especial com o Islão, a degradação do meio ambiente, a necessidade de democracia em África e a atenção à emigração. A paz e a reconciliação, que foram o tema geral do sínodo, percorrem as diversas propostas do sínodo. Os participantes no sínodo pedem um tratado internacional sobre o tráfico de armas e apelam ao perdão da divida externa. Propõem também que os recursos naturais do continente sejam geridos a nível local, sem a exploração das multinacionais.
Pe. António Carlos
Vida em abundância
Olhando para a frente, já entrevemos o Menino de Belém que se fez em tudo semelhante a nós, menos no pecado (Heb 4, 15). Em tudo semelhante a cada homem, mulher e criança de qualquer «língua, povo e nação», porque, ao encarnar, o Verbo eterno do Pai assumiu toda a Humanidade, desde Adão até ao último que será chamado a partilhar esta nobre aventura da vida, quando Jesus entregar tudo nas mãos do Pai.
A história da Humanidade é um complexo desenvolvimento desse primeiro Adão: Babel quer explicar as grandes divisões do homem em línguas e nações. Deus criou a terra, e os homens dividiram-na de modo a que quem nasce de um lado do rio é amigo e o que nasce do outro lado do rio é inimigo. O Menino de Belém veio precisamente para acabar com essas divisões: no Seu corpo, matou a inimizade e fez dos homens todos um só corpo, a Igreja (Ef 2, 15-16).
REZAR PELOS DEFUNTOS
Em Novembro, rezamos pelos nossos defuntos que «morreram em Cristo» (1Ts 4,16-17). Mas devemos sublinhar que a Igreja reza «por todos aqueles que morreram na esperança da ressurreição» e, logo acrescenta, «e também por todos aqueles que na vossa misericórdia partiram já deste mundo», esperando ou não a ressurreição (Oração Eucarística).
Como nos diz o Apóstolo, Cristo morreu para ser o Senhor dos mortos e dos vivos (Romanos 14, 9). Nós acreditamos que não foi dado aos homens outro Nome pelo qual se possam salvar (Act 4, 10.12). Nós professamos Cristo único mediador entre Deus e os homens. Único salvador da Humanidade: ontem, hoje e sempre (cf. 1Tm 2, 5-6). Todos os que se salvam salvam-se em Cristo, independentemente do caminho religioso em que se encontraram durante a vida. Se nós nascêssemos num país islâmico, teríamos todas as probabilidades de ser muçulmanos.
ALEGRIA DE EVANGELIZAR
Hoje a Igreja afirma que todos os que procuram a Deus de coração sincero podem salvar-se. Isto, porém, não nos dispensa da nossa tarefa missionária. Paulo VI já no-lo disse há muito e de maneira inequívoca: Não seria inútil que cada cristão e cada evangelizador examinassem em profundidade, através da oração, este pensamento: os homens podem salvar-se por outros caminhos, graças à misericórdia de Deus, mesmo se nós não lhes anunciarmos o Evangelho; porém, poderemos nós salvar-nos se por negligência, por medo, por vergonha, ou por ideias falsas omitirmos anunciá-lo? Porque isso significaria ser infiéis ao chamamento de Deus que, através dos ministros do Evangelho, quer fazer germinar a semente; e de nós depende que essa semente se converta em árvore e produza fruto. Conservemos, portanto, o fervor espiritual. Conservemos a doce e confortadora alegria de evangelizar, inclusivamente quando é preciso semear entre lágrimas (Evangelii Nuntiandi, 80).
A missão continua a ser a tarefa mais urgente dos cristãos. É questão da nossa própria salvação e da salvação da Humanidade, porque Ele veio para que todos tenham vida em abundância.
Pe. Inácio Babo de Macedo
As nações caminharão à Sua Luz
No dia 18 de Outubro celebrou-se o DIA MUNDIAL DAS MISSÕES. O Santo Padre na sua habitual mensagem, que intitulou "AS NACÕES CAMINHARÃO À SUA LUZ", recorda-nos que "o objectivo da missão da Igreja é iluminar com a luz do Evangelho todos os povos em seu caminhar, na história, rumo a Deus". O Dia Mundial das Missões, bem como todo o mês de Outubro, deveria levar todo o cristão a reavivar a consciência do mandato missionário de Cristo, de fazer discípulos todos os povos.
A missão da Igreja, que é continuação do serviço de Cristo no mundo, é "contagiar de esperança" todos os povos e tem, como meta, a transformação do mundo, "com a proclamação do amor". Para isso é necessário que cada cristão renove o compromisso de anunciar o Evangelho, fermento de liberdade, progresso, fraternidade, união e paz, tendo presente as vastas e profundas mudanças da sociedade actual (Ad Gentes, 8).
Durante o ano que passou, pudemos meditar e contemplar o exemplo, o trabalho e os escritos de S. Paulo, juntamente com S. Daniel Comboni. Estes dois apóstolos, animados pela mesma paixão, ultrapassaram todos os obstáculos que aparentemente impediam a sua actividade evangelizadora. Apaixonados por Cristo, procuraram contagiar com a mesma esperança os povos que contactaram.
Também neste ano, ANO SACERDOTAL, nos é proposto outro grande apóstolo, S. João Maria Vianey, o Santo Cura d'Ars. Ele nos recorda que todo o sacerdote e, poderíamos também dizer, todo o cristão/apóstolo é o amor do Coração de Jesus que contagia toda a humanidade.
O dia dedicado às missões é também ocasião para recordarmos as testemunhas e os anunciadores do Reino de Deus que se encontram em situações de perseguição, que vão desde as torturas, a prisão e a morte, como acontece na China, no Iraque, na Índia, etc. até às mais variadas formas de descriminação social, não só em países muçulmanos, mas mesmo em países ditos tradicionalmente cristãos.
Recorda-nos ainda o Santo Padre que a missão ad gentes é tarefa de todas as igrejas, seja as igrejas antigas, como as de recente tradição. Aqui gostaria de recordar o último Dia Mundial das Missões que passei na R.D. do Congo. Visitei uma capela, onde depois passei a noite e, no Domingo, celebrei noutra capela. Convidei as pessoas a participar, seja na oração pelas Missões, seja na ajuda económica. Esta não ultrapassou os 300 francos congoleses (1/2 euro), um saco de mandioca e uma galinha. Contudo vivi aquele dia mundial, onde não participaram mais de 50 pessoas nas 2 capelas (e nem todas elas eram ainda baptizadas!), como um momento forte de evangelização, colaboração e comunhão com todas as Igrejas do Mundo. Vivi-o com entusiasmo, como se estivesse a celebrar numa igreja repleta de gente, aqui, numa das nossas paróquias.
O Santo Padre termina a sua mensagem, recordando que a Evangelização é obra do Espírito Santo. Sendo Ele o Protagonista da Missão, peçamos-lhe que aumente na Igreja a paixão pela missão: proclamar o Reino de Deus.
Padre José Arieira
Caridade na verdade
Na sua última encíclica, «Caridade na Verdade», Bento XVI afirma que o desenvolvimento não é só económico e propõe a solidariedade com os países pobres como uma solução para a actual crise.
A terceira encíclica do actual pontífice, e primeira dedicada a questões sociais, trata do «desenvolvimento humano integral». A sua abordagem é baseada na doutrina social da Igreja, nomeadamente no documento do Papa Paulo VI Populorum Progressio de 1967, e nos desafios da actual conjuntura social e económica global, marcada pela recessão e globalização.
Partindo da relação entre verdade e caridade, sobre a qual assenta o verdadeiro desenvolvimento, Bento XVI retira dois princípios orientadores de toda a acção social: o bem comum e a justiça. Afirma que o progresso não pode ser só humano, tendo de se abrir à dimensão transcendente da pessoa.
A encíclica aponta a «falta de fraternidade entre os homens e entre os povos» como causa do subdesenvolvimento dos países, e não o crescimento demográfico ou falta de recursos materiais. Está assim em cause o actual modelo de desenvolvimento. Este, apesar de gerar mais riqueza, acabou por criar novas formas de pobreza e aumentar as desigualdades. Por isso, sugere o pontífice, há necessidade de «uma revisão global do desenvolvimento» e de uma «nova síntese humanista».
O mercado não deve considerar os pobres como um «fardo» mas sim um «recurso» e não se dever tornar «o lugar da prepotência do forte sobre o débil». Aos governantes o papa recorda que «o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa na sua integridade», a qual deve ser o guia «nas intervenções em prol do desenvolvimento».
MUDANÇA DE MENTALIDADE
No documento, o papa critica os organismos internacionais que gastam avultadas somas de dinheiro em burocracia, usando os pobres «para manter de pé dispendiosas organizações burocráticas». Já sobre o ambiente, a encíclica denuncia o «açambarcamento dos recursos» por parte dos Estados e grupos de poder, o que impede «o desenvolvimento dos países pobres». No fundo - exorta o papa - «é necessária uma real mudança de mentalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida».
A religião cristã pode contribuir para o desenvolvimento, «se Deus encontrar lugar também na esfera pública». Sobre as ajudas internacionais, Bento XVI diz que estas devem ser concedidas com a participação da sociedade civil e não apenas dos governos. Assim sendo, exorta os Estados ricos a «destinarem mais quotas do PIB para o desenvolvimento».
A seguir o papa aborda o fenómeno das migrações. «Todo o migrante - acrescenta - é uma pessoa humana» que possui direitos inalienáveis que hão-se ser respeitados por todos em qualquer situação. O papa não quer que os trabalhadores estrangeiros sejam tratados como mercadoria.
O papa defende a reforma da ONU e do sistema financeiro internacional, advogando a necessidade de uma verdadeira autoridade política mundial.









