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Artigos de Formação

Mensagem do Papa para a Quaresma de 2010:

 

 

 

"A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo"

 

"A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo" (cfr Rom 3, 21-22 )

 

Queridos irmãos e irmãs, todos os anos, por ocasião da Quaresma, a Igreja convida-nos a uma revisão sincera da nossa vida á luz dos ensinamentos evangélicos . Este ano desejaria propor-vos algumas reflexões sobre o tema vasto da justiça, partindo da afirmação Paulina: A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo (cfr Rom 3,21 - 22 ).

 

 

Justiça: "dare cuique suum"

Detenho-me em primeiro lugar sobre o significado da palavra "justiça" que na linguagem comum implica "dar a cada um o que é seu - dare cuique suum", segundo a conhecida expressão de Ulpiano, jurista romana do século III. Porém, na realidade, tal definição clássica não precisa em que é que consiste aquele "suo" que se deve assegurar a cada um. Aquilo de que o homem mais precisa não lhe pode ser garantido por lei. Para gozar de uma existência em plenitude, precisa de algo mais íntimo que lhe pode ser concedido somente gratuitamente: poderíamos dizer que o homem vive daquele amor que só Deus lhe pode comunicar, tendo-o criado á sua imagem e semelhança. São certamente úteis e necessários os bens materiais - no fim de contas o próprio Jesus se preocupou com a cura dos doentes, em matar a fome das multidões que o seguiam e certamente condena a indiferença que também hoje condena centenas de milhões de seres humanos á morte por falta de alimentos, de água e de medicamentos - , mas a justiça distributiva não restitui ao ser humano todo o "suo" que lhe é devido. Como e mais do que o pão ele de facto precisa de Deus. Nora Santo Agostinho: se " a justiça é a virtude que distribui a cada um o que é seu...não é justiça do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus" (De civitate Dei, XIX, 21).

 

 

De onde vem a injustiça?

O evangelista Marcos refere as seguintes palavras de Jesus, que se inserem no debate de então acerca do que é puro e impuro: "Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa tornar impuro. Mas o que sai do homem, isso é que o torna impuro. Porque é do interior do coração dos homens, que saem os maus pensamentos" (Mc 7,14-15.20-21). Para além da questão imediata relativo ao alimento, podemos entrever nas reacções dos fariseus uma tentação permanente do homem: individuar a origem do mal numa causa exterior. Muitas das ideologias modernas, a bem ver, têm este pressuposto: visto que a injustiça vem "de fora", para que reine a justiça é suficiente remover as causas externas que impedem a sua actuação: Esta maneira de pensar - admoesta Jesus - é ingénua e míope. A injustiça, fruto do mal, não tem raízes exclusivamente externas; tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa conivência com o mal. Reconhece-o com amargura o Salmista:"Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-se no pecado" (Sl. 51,7). Sim, o homem torna-se frágil por um impulso profundo, que o mortifica na capacidade de entrar em comunhão com o outro. Aberto por natureza ao fluxo livre da partilha, adverte dentro de si uma força de gravidade estranha que o leva a dobrar-se sobre si mesmo, a afirmar-se acima e contra os outros: é o egoísmo, consequência do pecado original. Adão e Eva, seduzidos pela mentira de Satanás, pegando no fruto misterioso contra a vontade divina, substituíram á lógica de confiar no Amor aquela da suspeita e da competição; á lógica do receber, da espera confiante do Outro, aquela ansiosa do agarrar, do fazer sozinho (cfr Gn 3,1-6) experimentando como resultado uma sensação de inquietação e de incerteza.

Como pode o homem libertar-se deste impulso egoísta e abrir-se ao amor?

 

 

Justiça e Sedaqah

No coração da sabedoria de Israel encontramos um laço profundo entre fé em Deus que "levanta do pó o indigente (Sl. 113,7) e justiça em relação ao próximo. A própria palavra com a qual em hebraico se indica a virtude da justiça, sedaqah, exprime-o bem.

De facto sedaqah significa, dum lado a aceitação plena da vontade do Deus de Israel; do outro, equidade em relação ao próximo (cfr Ex 29,12-17), de maneira especial ao pobre, ao estrangeiro, ao órfão e á viúva ( cfr Dt 10,18-19). Mas os dois significados estão ligados, porque o dar ao pobre, para o israelita nada mais é senão a retribuição que se deve a Deus, que teve piedade da miséria do seu povo. Não é por acaso que o dom das tábuas da Lei a Moisés, no monte Sinai, se verifica depois da passagem do Mar Vermelho. Isto é, a escuta da Lei , pressupõe a fé no Deus que foi o primeiro a ouvir o lamento do seu povo e desceu para o libertar do poder do Egipto (cfr Ex s,8). Deus está atento ao grito do pobre e em resposta pede para ser ouvido: pede justiça para o pobre ( cfr.Ecli 4,4-5.8-9), o estrangeiro ( cfr Ex 22,20), o escravo ( cfr Dt 15,12-18). Para entrar na justiça é portanto necessário sair daquela ilusão de auto - suficiência, daquele estado profundo de fecho, que á a própria origem da injustiça. Por outras palavras, é necessário um "êxodo" mais profundo do que aquele que Deus efectuou com Moisés, uma libertação do coração, que a palavra da Lei, sozinha, é impotente a realizar. Existe portanto para o homem esperança de justiça?

 

 

Cristo, justiça de Deus

O anúncio cristão responde positivamente á sede de justiça do homem, como afirma o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos: " Mas agora, é sem a lei que está manifestada a justiça de Deus... mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os crentes. De facto não há distinção, porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio da redenção que se realiza em Jesus Cristo, que Deus apresentou como vitima de propiciação pelo Seu próprio sangue, mediante a fé" (3,21-25)

Qual é portanto a justiça de Cristo? É antes de mais a justiça que vem da graça, onde não é o homem que repara, que cura si mesmo e os outros. O facto de que a "expiação" se verifique no "sangue" de Jesus significa que não são os sacrifícios do homem a libertá-lo do peso das suas culpas, mas o gesto do amor de Deus que se abre até ao extremo, até fazer passar em si " a maldição" que toca ao homem, para lhe transmitir em troca a "bênção" que toca a Deus (cfr Gal 3,13-14). Mas isto levanta imediatamente uma objecção:

Que justiça existe lá onde o justo morre pelo culpado e o culpado recebe em troca a bênção que toca ao justo? Desta maneira cada um não recebe o contrário do que é "seu"? Na realidade, aqui manifesta-se a justiça divina, profundamente diferente da justiça humana. Deus pagou por nós no seu Filho o preço do resgate, um preço verdadeiramente exorbitante. Perante a justiça da Cruz o homem pode revoltar-se, porque ele põe em evidência que o homem não é um ser autárquico, mas precisa de um Outro para ser plenamente si mesmo. Converter-se a Cristo, acreditar no Evangelho, no fundo significa precisamente isto: sair da ilusão da auto-suficiência para descobrir e aceitar a própria indigência - indigência dos outros e de Deus, exigência do seu perdão e da sua amizade.

Compreende-se então como a fé não é um facto natural, cómodo, obvio: é necessário humildade para aceitar que se precisa que um Outro me liberte do "meu", para me dar gratuitamente o "seu". Isto acontece particularmente nos sacramentos da Penitencia e da Eucaristia. Graças á acção de Cristo, nós podemos entrar na justiça " maior", que é aquela do amor ( cfr Rom 13,8-10), a justiça de quem se sente em todo o caso sempre mais devedor do que credor, porque recebeu mais do que aquilo que poderia esperar. Precisamente fortalecido por esta experiência, o cristão é levado a contribuir para a formação de sociedades justas, onde todos recebem o necessário para viver segundo a própria dignidade de homem e onde a justiça é vivificada pelo amor. Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma culmina no Triduo Pascal, no qual também este ano celebraremos a justiça divina, que é plenitude de caridade, de dom, de salvação. Que este tempo penitencial seja para cada cristão tempo de autentica conversão e de conhecimento intenso do mistério de Cristo, que veio para realizar a justiça. Com estes sentimentos, a todos concedo de coração, a Bênção Apostólica.

 

São Paulo e São Comboni

 

Estes dois apóstolos têm em comum terem sido chamados para anunciar o Evangelho aos que moravam longe e não conheciam as Escrituras.

 

«Paulo, chamado a ser apóstolo de Cristo Jesus, por vontade de Deus...» (1Cor. 1,1; 1Tm. 1,1); «Paulo, servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, escolhido para o Evangelho de Deus...» (Rm. 1, 1). É assim que Paulo se apresenta nas suas cartas.

Ele tem uma certeza: foi conquistado por Cristo (Fl. 3,12), em Damasco, para levar a Boa-Nova às nações que não conheciam a Palavra de Deus (Act. 9, 15-16). Por Cristo e pela Missão d'Ele recebida está disposto a todo o tipo de sacrifícios: «Fadigas, prisões, açoites, numerosas viagens, duros trabalhos, vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez... (cf. 2Cor. 11, 23-33). A força para abraçar todos esses sacrifícios está na certeza de ter sido perdoado e chamado por Cristo: «Dou graças Àquele que me deu força, Cristo Jesus, Nosso Senhor, que me julgou digno de confiança, tomando-me para o seu serviço, a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e insolente...» (1Tm. 1, 12-13).

 

Comboni: chamado para os africanos

Daniel Comboni assina algumas das suas cartas como «Servo dos Negros». Cresceu com ele a certeza de que Deus o chamava para a África. Aos 15 anos, a leitura da História dos Mártires do Japão suscita nele o desejo de levar o Evangelho a povos longínquos. Ao ouvir os missionários que vinham da África, e ao contactar, em Verona, com alguns jovens africanos ex-escravos, fica tocado pelo sofrimento da África Negra. Aos 17 anos, faz juramento sagrado de entregar toda a sua vida pelos Africanos, os mais pobres e abandonados de então. Padre novo, com 26 anos, parte como missionário para a África (1857): «Depois de me ter aconselhado com Deus e com os homens, concluí que a ideia das Missões é a minha verdadeira vocação.»

Como Paulo, após o encontro com Jesus, Comboni nunca mais hesitou perante quaisquer exigências e sofrimentos da sua vocação missionária. Com efeito, passados vinte e quatro anos, em tempos muito dolorosos do seu ministério, afirma: «O que me guardou a coragem de me manter firme no meu posto até à morte, foi a certeza da minha vocação.»

 

Missão ad gentes e compromisso pessoal

Paulo sabe ter sido escolhido por graça para ser Apóstolo para as populações que não pertenciam à fé de Israel: «Eu, Paulo, prisioneiro de Cristo, por amor de vós, os gentios... A mim..., foi-me dada esta graça: anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo» (Ef 3, 1.8). Daniel Comboni reconhece-se como Apóstolo dos Africanos: «A evangelização da África Central é meu sangue e minha vida... a minha única paixão... hei-de morrer com o nome da África nos lábios.»

Possa o Ano Paulino despertar em nós a paixão de Paulo e de Comboni por dar Cristo à gente, aqui e ao longe. Compete a cada um, especialmente com a ajuda do seu Grupo Missionário, procurar, encontrar e levar em frente a sua vocação: como quer o Senhor que eu viva o meu Baptismo e a Confirmação, num verdadeiro compromisso de enviado de Jesus, como filho(a) da Igreja, em direcção aos outros (cf. Rm. 1, 1-7)

P.e IVO DO VALE

Por uma Igreja mais missionária

Dom António Couto defende a necessidade de um maior compromisso missionário, olhando para além do trabalho pastoral na infância e adolescência.

 

Anunciar o Evangelho porquê e para quê? Num mundo cada vez mais plural, são muitas as novas fronteiras da Missão, que desafiam modelos tradicionais de pensamento e acção, por parte da Igreja.

D. António Couto, presidente da Comissão Episcopal das Missões, defende, em entrevista publicada na edição especial do semanário Agência ECCLESIA, a necessidade de um maior compromisso missionário de todos os católicos e advoga mudanças na forma de encarar a acção pastoral das comunidades.

 

 

Diálogo e anúncio são caminhos diversos na relação com os não-cristãos ou podem estar em sintonia?

É claro que estão em sintonia, completando- se mutuamente. Bastará ler com atenção a Instrução «Diálogo e anúncio: reflexões e referências sobre o anúncio do Evangelho e o diálogo inter-religioso», de 19 de Maio de 1991, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e da Congregação para a Evangelização dos Povos. O Diálogo é um caminho que se deve cultivar sempre. Aproxima as pessoas, cria laços de amizade, faz-nos ver que todos temos coisas belas e ricas a transmitir e a receber. Também o amor aos irmãos nos fará muitas vezes entrar pela via do diálogo. O anúncio leva-nos a dizer claramente Cristo, a nossa riqueza fundamental.

Encontramos, por vezes, belas surpresas. Refiro o caso do velho missionário americano Bob McCahill, dos Padres de Maryknoll. Trabalha no Bangladesh há mais de 30 anos, e, como o próprio confessa, nunca anunciou publicamente o Evangelho. O Bangladesh é um país de extrema pobreza e com uma população maioritariamente muçulmana. Bob McCahill faz a sua oração da manhã e celebra a Eucaristia sozinho, na sua barraca, e depois pega na bicicleta e vai ao encontro das pessoas: fala com todos, mas presta particular atenção aos doentes. Muda de terra de três em três anos. No primeiro ano, as pessoas olham este americano com alguma desconfiança. No segundo ano, já o olham com simpatia. No terceiro ano, cria-se um clima de grande simpatia e perguntam-lhe a razão de querer viver no meio deles. É então que ele fala de Jesus Cristo.

 

 

Faz sentido quantificar/qualificar o trabalho missionário pelo número de conversões?

Faz sentido ver o trabalho missionário pela intensidade da nossa dedicação e testemunho. De resto, diz o Evangelho, desmentindo a estatística, que se deve procurar e encontrar com afinco a ovelha perdida. É uma só, mas conta tanto como milhões. A estatística, todavia, pode servir para sabermos melhor os terrenos que pisamos.

Em 1965, o Concílio calculava em dois mil milhões (2.000.000.000) o número de não-cristãos (AG, n.º 10). Vinte e cinco anos depois, em 1990, João Paulo II refere que este número quase duplicou (RM, n.º 3). É sempre útil consultar os números referidos no "International Bulletin of Missionary Research", que calculava para esse ano de 1990 três mil quatrocentos e quarenta e nove milhões e oitenta e quatro mil (3.449.084.000) não-cristãos, e para o ano 2000 o número de quatro mil e sessenta e nove milhões e seiscentos e setenta e dois mil (4.069.672.000) não-cristãos. Em 2006 esse número subia para quatro mil e trezentos e setenta e três milhões e setenta e seis mil (4.373.076.000) não-cristãos.

As estimativas apontam para 2025 uma população mundial de 7.851.455.000, com 2.630.559.000 cristãos (1.334.338.000 católicos), e 5.220.896.000 não-cristãos. Isto, sim, deve deixar-nos interrogados e levar-nos a tomar uma consciência mais viva do testemunho cristão que damos.

 

 

Que lugar tem o anúncio da Verdade num mundo cada vez mais plural e multifacetado?

A velha questão de Pilatos - «O que é a verdade?» - é mesmo uma questão velha, mal formulada e ultrapassada. Por isso, Jesus não respondeu. Nós não perguntamos «O que é a verdade?», mas «Quem é a verdade?». A verdade não é uma coisa ou uma ideia, mas uma pessoa que ama até ao fim. Esta verdade pessoal, é óbvio que devemos cultivá-la e testemunhá-la sempre, sejam quais forem as coordenadas geográficas, religiosas ou culturais em que vivamos. Seja o mundo plural ou singular. Amar o outro, diferente de mim, até ao fi m, é a verdade. E é verdadeiramente esta a atitude que conta. Não se trata, vê-se bem, de querer impor qualquer coisa seja a quem for.

 

 

As novas formas de Missão são uma forma «light» do compromisso para toda a vida de outros tempos?

Pode fazer-se turismo toda a vida ou apenas algum tempo. A Missão é dedicação total, com toda a intensidade, seja por toda a vida ou apenas por um dia. A Missão verdadeiramente vivida nunca é «light»; se é «light», não é missão. Compreendo que a pergunta tenha a ver com os jovens que, generosamente, querem dedicar algum tempo da sua vida ao serviço dos seus irmãos diferentes e mais pobres. Quem o faz por amor, um dia que seja, terá encontrado a alegria do Reino de Deus. Basta um simples copo de água com amor, diz bem o Evangelho. É óbvio que o mundo está a mudar e a missão também.

Haverá sempre missionários ad vitam (para toda a vida, ndr). A missão temporária é do nosso tempo e vai aumentar. Lembremo-nos que há um século atrás só os homens (padres e religiosos) iam em missão. Hoje, 80 % do pessoal missionário são mulheres! A medida será sempre a medida do amor! Seja muita ou pouca gente, muito ou pouco tempo!

 

 

É preciso investir mais no anúncio aos que já ouviram falar de Jesus e não o acharam relevante?

É preciso investir sempre tudo para todos. Para os que ouviram e para os que não ouviram. Os que ouviram, se não o acharam relevante, é porque não ouviram. Ou talvez porque nós não soubemos transmitir. Os judeus piedosos ainda hoje dizem: «se amanhã os meus filhos não seguirem a nossa religião, a culpa não é deles; a culpa é nossa, porque não soubemos transmitir-lhes toda a beleza do judaísmo». O mesmo podemos dizer do cristianismo. O mal não está sempre nos outros. Também está em nós. É, portanto, necessário amar este mundo e as pessoas e anunciar-lhes ou testemunhar-lhes Cristo, que não é uma ideia ou uma causa morta, mas uma pessoa viva no meio de nós. Não há primeiro anúncio e segundo ou terceiro anúncio. O anúncio, para ser verdadeiro e se é verdadeiro, é sempre primeiro! Começa por fazer estragos em nós! O segundo ou terceiro é requentado: não empenha quem o faz nem quem o recebe!

 

 

Como classifica a situação missionária da Igreja em Portugal?

É inegável que os Institutos Missionários continuam a escrever páginas selectas de vigor missionário, arrastando atrás de si muitos jovens e cooperadores. No que diz respeito às nossas dioceses e paróquias, a situação parece-me bastante sossegada, no mau sentido, como quem diz que isso não é connosco. É imperioso e absolutamente urgente que a Igreja portuguesa se empenhe, no seu todo, numa vastíssima campanha de verdadeira formação de evangelizadores, para que se possa, logo que possível mas de forma sistemática, levar o Evangelho a todas as camadas da população portuguesa (crianças, jovens, adultos e idosos) e pelo mundo fora.

Não podemos mais ficar tranquilamente dentro das igrejas, sacristias e salões paroquiais, de braços cruzados, à espera que as pessoas venham ter connosco. Somos nós que devemos ir ao encontro das pessoas. E o paradigma é o anúncio ad gentes, e não uma pastoral de manutenção. Rasgar horizontes significa não ficar a olhar apenas para o umbigo, mas abrir-se ao diferente. Aprender outra vez a viver e a anunciar o Evangelho. Sei lá, vejo que as nossas paróquias assentam quase todas as baterias nas crianças, para as quais se orienta uma parte substancial dos esforços pastorais. A comparação pode ajudar. É como se, em Portugal, 90% dos médicos fossem pediatras. Restavam 10 % para a população adulta! Vê-se bem que temos de mudar bastantes coisas.

 

 

O que se pode esperar do Congresso Missionário recentemente realizado?

Esperar? Por quem ou por quê? É claro que são precisas directrizes. Vamos prepará-las. Mas eu acredito e sei que a aragem do Espírito anda por aí. O assunto diz respeito a todos os baptizados, que não precisam de pedir licenças para evangelizar. Sobretudo os fiéis leigos, cuja acção pode e vai chegar a todos os recantos onde nasce e cresce a vida: na família, no bairro, na escola, na fábrica, no hospital... É importante sensibilizar os sacerdotes. Mas eu concordo com D. Francesco Lambiasi, bispo de Rimini, na Itália, que disse (eu ouvi) e escreveu (eu li): «A evangelização, ou a fazem os leigos ou não se faz». Eles estão e chegam melhor ao coração do mundo. Antevejo uma grande seara em movimento.

Vários olhares, uma mesma paixão

Roma: Missionários Combonianos em Capítulo

 

A fase dos trabalhos capitulares, que podemos chamar do ver, acabou hoje, Sexta-feira 17 de Setembro. Esta fase foi preenchida pela apresentação na aula capitular das relações do Superior Geral e do seu Conselho, das relações dos secretariados gerais e dos demais serviços da Direcção Geral do Instituto, das relações continentais e das relações das províncias feitas pelos superiores provinciais e delegados. Como já aconteceu no último capítulo e pelo que diz respeito às duas últimas séries de relações, a parte de leão foi para a apresentação das relações continentais, sendo deixado a cada província um tempo mínimo para apresentação de alguma questão particular, de algum «grito do coração» como alguém as definiu. O facto revela que cada vez mais estamos a ter um olhar continental sobre o instituto.

 

O primeiro olhar sobre o instituto foi-nos oferecido pelas relações do Conselho e Cúria Geral. A relação do Superior Geral, Pe Teresino Serra, como era já do conhecimento público, foi uma relação sobretudo exortativa que evocou o melhor do instituto e do seu carisma missionário e fez apelo aos capitulares para viverem este capítulo como momento de discernimento particular, extraordinário pelas questões que estão em jogo. As questões mais problemáticas, apreendidas desde o governo e a coordenação central, foram deixadas para as relações dos secretários gerais e demais colaboradores. Estas porém, em boa parte, procuraram mostrar sobretudo o trabalho feito e o caminho andado pelo instituto nas várias dimensões da sua missão, deixando de lado os problemas encontrados na coordenação central do instituto.

 

No âmbito da evangelização, foi apresentado e discutido o percurso feito no processo da Ratio Missionis. A condução do processo pelo secretariado geral foi questionada por alguns, mas apareceu evidente que também o empenho das províncias no processo foi muito variado. No âmbito da formação de base, foi recordado o iter das medidas tomadas durante os últimos seis anos (continentalidade dos escolasticados, serviço missionário dos escolásticos, por exemplo) e referidos os números e problemas dos candidatos em formação, com particular relevo para o alto índice de abandono dos candidatos em votos temporários e nos primeiros anos de votos perpétuos. No âmbito da formação permanente, o olhar da relação do coordenador foi sobretudo para as questões a decidir no futuro imediato: que estrutura dar ao Ano Comboniano de Formação Permanente (uma sede única em Roma?), como acompanhar e ajudar os confrades em dificuldade (criação nos continentes de comunidades de acompanhamento?), como programar bem as especializações, como ir ao encontro da situação dos confrades da terceira idade...A animação missionária e a economia também passaram pela sala capitular, esta última teve aliás a honra de abrir o período das relações da Cúria Geral, um detalhe fugaz a apontar a importância do tema, com assuntos candentes como o do Fundo Comum. A situação económica do instituto, porém, é saudável; as províncias estão bem, aparte aquelas que sofreram com as percas causadas pela crise. Naturalmente, também aqui «o segredo é a alma do negócio» mas a crise e os problemas da administração deixam-nos com o aviso do Senhor: «Se não sabeis administrar bem os bens materiais que perecem, quem vos confiará os eternos que não perecem?»

 

A concluir as relações dos serviços, o destaque foi para o Studium Combonianum que sublinhou os elementos novos na investigação sobre as fontes e a necessidade de passar essa redescoberta do fundador e dos inícios do instituto para as bases; e para a Postulação que deixou aos capitulares o desafio de se focalizarem nas pessoas e no dom que elas são para o Instituto, nas suas qualidades exímias e nos seus limites, nos seus êxitos e fracassos (a postulação cuida actualmente os processos das causas de beatificação de três combonianos excelentes - o P.e Sartori, o Pe Ambrosoli e Mons. Roveggio - e encaminha os vários pedidos de secularização e redução ao estado laical).

 

As relações continentais - um olhar contextualizado sobre a situação do instituto nos vários continentes - começaram com as províncias africanas de língua inglesa e Moçambique, um bloco significativo de dez províncias, onde trabalham actualmente um total de 528 combonianos, que correspondem a 30 por cento dos membros do instituto. A média da idade deste grupo cresce, está já nos 56.30 anos, mas dispõem de um sinal de grande esperança: os membros radicais destas províncias somam 187 e os membros em formação de base representam 30 por cento dos membros em formação em todo o instituto. A relação continental deste grupo, que inclui províncias históricas como o Sudão e o Uganda, sublinhou o caminho de colaboração andado pelas províncias e os desafios que a evolução destas sociedades africanas colocam ao instituto e à sua missão: nesta perspectiva foram elencados o avanço do Islão, a situação dos povos pastoralistas, a crescente urbanização, o aumento dos refugiados e migrantes, a formação dos jovens e dos líderes.

 

O olhar sobre a África comboniana ficou completo com a apresentação das relações das quatro províncias de língua francesa, um grupo de províncias com um bom dinamismo e um bom ritmo de colaboração. Trabalham e fazem claque por estas províncias 172 corações combonianos, com uma média etária de 52 anos. Aparecem com um futuro prometedor porque têm 35 por cento (51 escolássticos e 3 irmãos no CIF) dos jovens em formação no instituto; além disso, os confrades africanos originários destas províncias são 131, o que corresponde a 41 por cento do total dos combonianos africanos, que são 318. O pessoal que trabalha nestas províncias é em boa parte africano: o Togo-Ghana-Benin, por exemplo, chega à média de 47 por cento de membros africanos. No seu dia a dia, os membros destas províncias enfrentam grandes desafios, que provêm das complexas situações sócio políticas que se vivem no Chade, República Centroafricana e RD do Congo. A olhar para o futuro, os combonianos destas províncias apostam na fidelidade ao carisma, numa presença nos novos areópagos (media), em conservar um equilíbrio entre presença nos meios rurais e nos meios urbanos, em caminhar em direcção a pastorais mais especializadas e na procura de uma maior integração entre as varias dimensões do carisma e do serviço missionário.

 

A presença comboniana nas Américas soma 96 comunidades, com um total de 448 combonianos a trabalhar em 12 países marcados por contrastes sociais, crise económica e migrações, um substrato cristão em acelerado processo de transformação afectado pela globalização. A relação continental traçou bem o quadro social e eclesial e indicou as prioridades para a requalificação comboniana em acto: novas aberturas entre indígenas, periferias, animação missionária, promoção da justiça e da paz. No diálogo que se seguiu não foram evitadas as questões críticas do momento: porquê da crise e da diminuição das vocações e quais as dificuldades para agrupar as províncias, por exemplo, do Brasil. Como parte deste grupo, apresentou-se também a Delegação da Ásia, de uma maneira ligeira e atractiva, como convém a uma delegação que se viu emagrecer no pessoal (somam hoje 19 pessoas), mas que trouxe ao capítulo o desafio de enfrentar a evangelização do continente mais populado e menos evangelizado do mundo.

 

O olhar desde a Europa encerrou a fase do ver, o olhar talvez mais problemático sobre o instituto e o seu futuro. As províncias da Europa, que conta 435 combonianos e tem a província mais numerosa (Itália com 256 membros, com 71,1 anos de média de idade) sublinham a falta de vocações, o envelhecimento acelerado (86% por cento acima dos 50 anos) e os limites da nossa presença e acção nas igrejas locais da Europa. Falando do futuro, a relação evidenciou três áreas de consenso: o ad gentes na Europa, a relação com as igrejas locais, o nosso estilo de vida. Na discussão que se seguiu à apresentação da relação, a atenção foi para a falta de internacionalidade das províncias da Europa, a assistência aos anciãos e enfermos sublinhando que o apoio da Direcção Geral não basta e que o problema é de todo o instituto, a relação com as igrejas locais e o agrupamento das províncias, o envolvimento com os imigrantes africanos.

 

Esta fase dos trabalhos capitulares evidenciou alguns limites típicos do ver comboniano. A apresentação das relações não foi uma «feira das vaidades» mas deixou transparecer a tendência a confundir ideal com realidade, a tendência em ver bem os limites e as problemáticas dos outros (igreja e sociedade) e ter dificuldades em ver os nossos. Além disso, evidenciou a pecha que também nos é comum: ter «mais olhos (apostólicos) que barriga», pensar-se salvadores do mundo, abraçar todos os desafios da missão cristã hoje nos vários continentes, sem olhar realisticamente para o que somos, em número, em idade e em qualidade.

 

Pe Manuel Augusto Lopes Ferreira, mccj

Os Institutos missionários na Europa:

 

 

Manter ou rever o modelo de presença?

O modelo da presença dos institutos missionários ad gentes na Europa - modelo que assentava fundamentalmente na promoção e formação das vocações, na animação missionária e na recolha de fundos necessários à actividade missionária - resulta da história da origem dos institutos e do seu subsequente desenvolvimento nas igrejas do continente. Durante décadas, o modelo mostrou-se apropriado, proporcionando crescimento e dando aos institutos recursos humanos e meios materiais indispensáveis à actividade missionária. Uso os verbos no passado, porque hoje, como está à vista de todos, este modelo de presença perdeu essa efectividade e já não garante nem os frutos nem o crescimento do passado. A questão que se coloca é óbvia: manter o modelo ou revê-lo?

 

Modelo inadequado

O modelo tem-se mostrado inadequado pelo lado dos resultados: continua a oferecer aos institutos os meios materiais necessários à missão, mas faltam as vocações e aumenta o isolamento em relação às igrejas locais e à sociedade em geral. Mas também se tem mostrado inadequado pelo lado dos princípios. Hoje as igrejas locais da Europa têm uma consciência de missão global, sentem-se em missão no próprio território e para além dele e não entendem a distinção entre missão ad extra e ad intra, distinção familiar aos institutos missionários. Nos últimos anos as igrejas da Europa desenvolveram uma própria consciência missionária, que se exprime num novo compromisso de evangelização, de «nova evangelização» para sermos mais precisos. Elas têm consciência de serem sujeito da missão cristã, no seu território e para além dele. Desenvolvem programas de animação missionária das suas comunidades e iniciativas de evangelização e partilha de recursos humanos e materiais com outras igrejas. Elaboraram as suas próprias sínteses das várias dimensões da missão que se foram afirmando depois do Vaticano II, desde o testemunho e o anúncio à promoção da justiça e da paz e à defesa da criação.

Este novo contexto veio colocar em questão o modelo de presença dos institutos e a sua função dentro das igrejas locais. Enquanto no passado as igrejas reconheciam uma função própria e um espaço típico aos institutos missionários, que assumiam a missão cristã por delega pontifícia, hoje as igrejas locais sentem-se protagonistas da missão. Este protagonismo obscurece a função e ocupa o espaço dos institutos missionários e manifesta-se no aparecimento de novas comunidades e movimentos, de novos grupos que empunharam a bandeira da missão cristã.

Por outro lado, este obscurecer de função dos institutos missionários em relação às igrejas locais, foi também favorecido pela evolução interna dos próprios institutos que, entretanto, entraram em fase de forte redimensionamento, por causa do envelhecimento rápido dos seus membros, dos abandonos e da diminuição de novas vocações. Com o pessoal a diminuir, os institutos missionários sentem dificuldade em estarem à altura e serem prepositivos de maneira significativa e renovarem as estruturas físicas típicas da sua presença no passado (casas, seminários).

Em conclusão, reduziram-se os espaços de animação missionária e de promoção vocacional e o modelo de presença e acção dos institutos missionários na Europa entrou numa fase de grande passivo de resultados, de vocações e de fecundidade apostólica, e de crescente isolamento em relação às igrejas locais.

 

Medo da revisão

As tentativas de reagir a este cenário têm sido várias. Umas sem questionarem o modelo de presença, outras pondo-o em questão nalguns aspectos. Estas tentativas de revisão têm encontrado resistências, mais entre os membros dos institutos do que talvez entre os responsáveis das igrejas locais.

Se tivéssemos que enumerar as resistências, talvez tivéssemos que começar pelo receio que alguns sectores mostram e que se poderia formular desta maneira: «não estamos preparados para a evangelização nas igrejas da Europa. Temos uma experiência de evangelização na África e na América, uma experiência forte e rica, mas também com limites que nos deixam numa posição débil para um empenho de evangelização na Europa». Há, naturalmente, alguma verdade neste tipo de afirmações. Mas a resposta é simples: se não se está preparados, é necessário preparar-se para a evangelização, na Europa como noutros continentes. A revisão do modelo de presença dos institutos na Europa, numa linha de evangelização, implica naturalmente um programa de preparação das pessoas e discernimento sobre recursos humanos e materiais.

Uma segunda linha de objecções vem da percepção de que, se os institutos missionários se empenham em tarefas de evangelização na Europa esse empenho roubará pessoas à missão ad gentes. Esta objecção tem também algum sentido, sobretudo em tempo de escassez de vocações e pessoal, como é o nosso. Mas não esconde a sua lógica selectiva, no sentido que não se consideram roubadas à missão as pessoas que se dedicam à promoção de vocações, à formação e à animação missionária. Porque, então, se deveriam considerar roubadas à missão as pessoas que assumem empenhos de evangelização na Europa? Num tempo de escassez de pessoal, o que se impõe é um bom discernimento sobre a maneira melhor de investir os recursos humanos e estabelecer prioridades tanto para a missão como para a vida interna dos institutos. Num contexto de missão global como é o nosso não faz sentido ver as pessoas que trabalham na Europa como roubadas à missão.

Uma terceira objecção vem de uma consideração psicológica e prática: se nos empenhamos na evangelização na Europa acabaremos por nos instalarmos e já não partiremos mais para outros continentes, como é nossa vocação específica. Esta objecção sublinha, por um lado, a importância do partir e do sair da própria igreja e nação como elemento típico da vocação missionária; e, por outro lado, alerta para o que se percebe como uma perca de disponibilidade a partir. Mas, este receio tem a ver com o desafio de viver a vocação missionária com um constante sentido de disponibilidade a viver a missão onde Deus quer segundo as mediações concretas, as prioridades e o discernimento histórico do próprio instituto. A disponibilidade a partir tem que ser sempre fomentada nos institutos missionários, na Europa como na África, em todas as partes. Esta é, de facto, uma questão de vida ou de morte para os institutos missionários: a disponibilidade a partir faz parte da tradição missionária mais genuína e tem que ser afirmada como prioritária antes de qualquer outro projecto pessoal de missão. Por isso, o medo a não partir tem que ser combatido com a promoção da disponibilidade a abraçar a missão que é de Deus, da Igreja e do Instituto antes de ser do indivíduo.

 

Institutos e Igreja

As resistências a uma revisão do modelo de presença dos institutos missionários nas igrejas da Europa, no sentido de um empenho de evangelização, têm também uma vertente mais teológica. A objecção soa assim: «a evangelização aqui é tarefa da igreja local; os institutos missionários são para a evangelização fora, ad extra».

À primeira vista, a objecção parece, teologicamente falando, séria. Mas ela assenta sobre um falso dilema «igreja local-institutos» que interessa analisar. Ela coloca a igreja local de uma parte e os institutos de outra, como se os institutos estivessem fora da igreja local. Ora, a verdade é que os institutos são parte integrante da igreja local, como o são os novos grupos, comunidades e movimentos. E a evangelização, como todas as outras dimensões da vida da igreja local, têm a ver também com os institutos missionários, segundo o seu carisma e dom particular.

A afirmação de que «a evangelização aqui pertence à igreja local e a evangelização ad extra pertence aos institutos missionários» é um falso dilema e contém um mal entendido. A verdade é que tanto a evangelização sobre o próprio território como para além dele, ad extra, pertence à igreja local como sujeito da missão. A missão com que os institutos missionários tanto e tão amorosamente se identificam é da igreja local antes de ser deles; e é tanto mais deles quanto mais a viverem neste contexto de igreja, em sintonia com as igrejas locais, os seus dinamismos e prioridades.

 

Dimensões estruturantes

A esta altura, superadas as resistências, poderíamos enfrentar uma pergunta que coloca o problema pela positiva: quais as dimensões estruturantes de uma possível revisão do modelo de presença dos institutos missionários nas igrejas da Europa?

Uma nova plataforma para a inserção dos institutos nas igrejas locais teria que incluir os seguintes elementos:

Primeiro, a dimensão carismática: viver todas as dimensões do próprio carisma, com uma visão integrada do mesmo e segundo os recursos disponíveis. Para nós combonianos, significaria viver todas as dimensões do carisma consagradas na nossa tradição, como estão expressas na parte III da Regra de Vida (56-101).

Segundo, a dimensão teológica: viver todas as dimensões da missão cristã hoje, procurando uma síntese das várias dimensões que seja em sintonia com as igrejas locais. Do concílio Vaticano II a hoje os institutos missionários enriqueceram em muito o seu conceito e prática de missão: missão é anúncio do evangelho e fundação de novas comunidades cristãs, missão é diálogo de vida e de fé, empenho pela transformação social, pela justiça e pela, paz, pela defesa da criação, das culturas e da vida. Em muitas instâncias, porém, as várias dimensões da missão perderam contacto entre si, desenvolveram-se de costas umas para as outras, desinteressadas da sua matriz eclesial. Esta falta de unidade orgânica e de integração eclesial entre as várias dimensões da missão levou a uma desestruturação da única missão em muitas missões sectoriais que teve consequências negativas no modelo de inserção dos institutos. Um novo modelo de presença pediria uma nova síntese entre as várias dimensões, na qual, sem esquecer nenhuma, todas aparecessem no seu devido lugar, função e importância. O ponto focal desta nova síntese terá que ser, como sempre foi, o kerigma (anúncio) cristão e o lugar teológico dela só pode ser a igreja local.

O que fica dito anuncia a terceira dimensão: a eclesial. Todo o modelo de presença e acção dos institutos tem que viver as dimensões do próprio carisma e as dimensões da missão cristã num contexto de igreja local. A força e a fecundidade do modelo de presença depende da integração dos institutos nas igrejas locais, pela simples razão que a missão cristã e os carismas que a servem florescem em contexto de igreja, como karis, graças de Cristo, concedidas pelo seu Espírito e reconhecidas pela, reconhecíveis na Igreja.

 

Como movimento

Num novo modelo de presença os membros dos institutos missionários deveriam, eventualmente, ser protagonistas de um serviço à Palavra de Deus, por uma parte, e, por outra, de um envolvimento significativo nos processos de transformação social segundo os valores do evangelho. O serviço à Palavra de Deus implicaria a capacidade de oferecer às igrejas, com uma metodologia própria, propostas de anúncio e iniciação cristã para jovens e adultos. O envolvimento nos processos de transformação social implicaria, por sua vez, um compromisso com o espírito e as armas do evangelho: o amor, a fraternidade, os meios pobres que são os da karis, graça, cristã.

Um novo modelo de presença nesta direcção daria aos institutos missionários a possibilidade de se afirmarem como promotores de um vasto movimento missionário nas igrejas locais da Europa, um movimento eclesial e não comboniano, espiritano, xaveriano, svd, consolata ou pime. Esta possibilidade ressoa fortemente na nossa memória comboniana, já que o nosso fundador S. Daniel Comboni assim pensou primeiro, como movimento, os seus institutos. Mas a ideia aparece como difícil de concretizar: implicaria a procura de uma metodologia adequada, constante e comum, compartida e levada por diante por todos; implicaria a procura de uma metodologia de proposta de itinerários de vida cristã com um forte respiro missionário, que contribua para a renovação do compromisso missionário das igrejas locais e faça aparecer os institutos como expressão imediata deste seu compromisso.

Este re-centramento dos institutos pediria, por um lado, um regresso à Palavra e ao cultivo de uma teologia kerigmática e, por outro lado, um olhar mais para os movimentos e grupos que conseguiram dar corpo a novas metodologias de primeiro anúncio e iniciação cristã. Coisas a que os institutos missionários na Europa têm sido pouco sensíveis.

 

Além das paróquias

A este momento da nossa reflexão sobre o modelo da presença dos institutos missionários nas igrejas da Europa impõe-se mencionar a questão das paróquias, porque na mente de muitos a revisão do modelo e um eventual envolvimento na evangelização passariam pela assunção de paróquias por parte dos institutos. Impõe-se falar do assunto, também porque muitos responsáveis das igrejas locais habitualmente vêem nessa tomada de paróquias o único modo de inserção dos institutos.

Importa dizer que se deve falar de revisão do modelo da presença e de envolvimento na evangelização sem falar de paróquias, porque a paróquia de facto não é o único modelo de inserção na igreja local. Os institutos missionários devem ver-se, e ser vistos pela igreja local, mais na linha dos movimentos que têm dinâmicas e estruturas transversais a paróquias e dioceses e estão inseridos nas igrejas locais como animadores de itinerários de vida cristã com um respiro universal. Nesta linha, como acima se refere, os missionários deveriam afirmar-se como animadores de itinerários de vida cristã, a nível de pessoas e de grupos, com uma forte mística missionária, de testemunho e de anúncio. Isto implicaria que eles passem de uma animação missionária estilo «morde e foge» para uma acção de presença mais continuada nas igrejas locais (paróquias e dioceses), com uma metodologia própria de acompanhamento de pessoas e grupos.

Para concluir, sobre a questão das paróquias, não as proponho porque não as considero a forma mais significativa da inserção dos institutos missionários nas igrejas locais. Mas não as excluo à partida, pela simples razão de que a procura de um novo modelo de inserção dos missionários nas igrejas locais tem que combinar criatividade carismática com realismo. Por um lado, para muitos missionários, por razões de idade ou de experiências vividas em missão noutros continentes, o modelo de inserção paroquial poderá ser o único viável. Por outro lado, algumas igrejas locais consideram só esse modelo para a inserção dos institutos missionários.

 

Consequências desejáveis

Que consequências se poderiam prever, desejar, de uma revisão do modelo de presença e acção dos institutos missionários nas igrejas locais de Europa, na linha de uma mais clara inserção e envolvimento na evangelização?

Uma primeira, que poderia ser apontada, seria trazer a animação para a sua matriz kerigmática, mais de testemunho e anúncio de Cristo, que levam pessoas e grupos a opções de fé e a um caminho de vida cristã activo nos processos de transformação social. Uma segunda, seria fazer aparecer o carisma e a vocação missionária como carisma de igreja: os carismas requerem o húmus eclesial para crescer e ser fecundos; os institutos precisam de viver a sua vocação e missão desde dentro, no contexto e dinâmicas das igrejas locais. Uma terceira consequência positiva seria também trazer a promoção vocacional de volta ao seu contexto natural, que é a comunidade eclesial: a paróquia, os grupos e os movimentos. A vocação missionária, como sequela de Cristo, só pode nascer e crescer neste contexto de opção por e de amizade sustentada com ele. Na Europa, em boa parte, os institutos missionários acabaram a fazer animação missionária e promoção vocacional em contextos extra eclesiais, como podem ser considerados os grupos orientados para defesa de causas ou ideologias. Nesta linha, uma consequência da revisão do modelo seria também fazer regressar a formação à sua matriz originária de iniciação a um caminho de vida e sequela de Cristo para a missão, caminho orientado por um maestro de espírito e uma comunidade, como iniciadores à vida em igreja e à vida em missão. Por último, a revisão do modelo poderia conferir melhor significado cristão e mais continuidade aos empenhos dos missionários nos processos de transformação social, que deixariam de ser simplesmente empenhos pessoais ou de instituto para ser e aparecer como empenhos sustentados de igrejas locais.

 

Conclusão

Os institutos missionários na Europa, e as províncias dos mesmos nos diferentes países, têm vivido muito de costas voltadas. A colaboração existente parece resultar mais de razões de conveniência e necessidade (de sobrevivência) que de verdadeira sinergia e unidade. O processo de revisão do actual modelo de presença poderia e deveria constituir uma ocasião para criativamente se criarem novos espaços de reflexão e sinergias de colaboração. O velho modelo manteve-nos a trabalhar sobre as mesmas linhas de fundo mas de costas voltadas uns para os outros. A procura de um novo modelo poderá eventualmente ajudar-nos mais a olhar uns para os outros, e para as realidades das igrejas locais, e, sobretudo, a olharmos todos para a frente, na mesma direcção: a da criação e animação de um grande movimento missionário nas igrejas da Europa, onde os nossos carismas se mostrem fecundos, no futuro como o foram no passado. O desafio pode parecer grande e arriscado, as escolhas difíceis. Mas a simples manutenção do modelo e da situação actuais não pode ser a alternativa. As evidências com que os institutos missionários se defrontam são claras: afunilamento das actividades, envelhecimento do pessoal, falta de novas vocações, alheamento progressivo das igrejas locais e da sociedade. Manter as coisas como estão é caminhar para um beco sem saída. Por isso é que, e antes que a situação atinja o ponto de não retorno, se impõe um processo de discernimento para se usar da melhor maneira os recursos humanos disponíveis e nos abrirmos de novo ao vento do Espírito, o protagonista e a alma da missão cristã, a única fonte onde se pode renovar a fecundidade apostólica dos institutos missionários.

 

Lisboa,

Pentecostes de 2009

 

P.e Manuel Augusto Lopes Ferreira, mccj

 

 

Nota: Este texto reduz a uma síntese de leitura a minha contribuição à assembleia dos Superiores Provinciais e Delegados Capitulares da Europa, em preparação para Capítulo Geral, realizada em Pesaro no mês de Abril. Preparei-o em espírito de partilha e em grande liberdade, como contributo à reflexão em acto e um encorajamento a quantos desejam contribuir para este processo de reflexão.

 

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