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FSM: Documento Final dos Participantes Combonianos

O vento de Pentecostes anima as nossas lutas!!!

 

A sétima edição do Fórum Social Mundial realizou-se em Nairobi, do dia 20 ao 25 de Janeiro de 2007.

O Fórum Social Mundial nasceu para oferecer uma plataforma aberta para os movimentos sociais e as redes de organizações e grupos da sociedade civil.

Neste ano, pela primeira vez, o Fórum realizou-se na terra Africana. A pressão dos milhões de excluídos do Sul do mundo (dois milhões e meio só em Nairobi!) fez-se escutar através dos muitos assuntos do Fórum. Em paralelo –e também em forte contrasto - emergiram a vibração, a paixão e as cores do continente mais marginalizado.

A Família Comboniana, nascida pela paixão de Daniel Comboni pela África, não podia perder tamanha ocasião: por isso, cerca de 50 combonianos/as do mundo inteiro (padres, irmãos/as, leigos/as) responderam ao convite à participação no Fórum Mundial em Nairobi e à participação num encontro de reflexão teológica. Esta reflexão foi orientada pelo teólogo brasileiro Marcelo Barros e pela Ir. Patricia Lonegan, teóloga irlandesa da congregação «Medical Missionaries of Mary».

Foi um importante momento de fraternidade e partilha, com uma clara experiência da presença do Espírito entre nós. Não nos debruçámos somente sobre os muitos problemas do mundo; reflectimos sobretudo sobre as esperanças, os sonhos e a visão dos pobres e marginalizados com quem vivemos. Sentimos que como membros da Família Comboniana deveríamos aprofundar cada vez mais a partilha com o sofrimento do Povo de Deus: essa espiritualidade ajuda-nos a resistir à ordem económica de um mundo que desumaniza a nossa gente e a nós mesmos.

À luz desse encontro, do processo de reflexão teológica, da experiência das nossas vidas e da nossa oração juntos, acreditamos que o Espírito de Deus continua a chamar a família Comboniana nas seguintes formas:

 

1 – Colaboração dentro da Família Comboniana

Reconhecemos que trabalharmos juntos enriquece os nossos respectivos ministérios e representa um reforço significativo da nossa caminhada rumo ao Reino de Deus. Por isso, sentimos a necessidade de:

- reforçar a cooperação através da reflexão e dos encontros;

- incluir na Família Comboniana todos os que brotaram do carisma de Comboni;

- deixar que o nosso estilo de vida seja desafiado e convertido pelos pobres;

- ser mais hospitaleiros e acolhedores, característica essencial do nosso espírito missionário;

- promover uma liderança mais atenta à visão profética e a uma leitura da realidade partindo da base;

- utilizar os canais já existentes para continuar a reflexão teológica e para trocarmos as nossas experiências;

- encorajar outras reflexões teológicas sobre o nosso carisma e a missão nas regiões arabo-islâmicas, na África, Ásia, América Latina e Europa.

- realizar um novo encontro por ocasião do próximo Fórum Social Mundial, em 2009.

 

2 – Trabalho em rede com as organizações, ONGs e grupos que representam a Sociedade Civil

O trabalho em rede è necessário porque:

- è um sinal da presença do Reino de Deus e è parte do estilo e do carisma herdado de Comboni;

- no mundo globalizado de hoje, não podemos trabalhar sozinhos, mas precisamos de juntar as forças para influenciar as decisões e os interesses da actual ordem do mundo.

 

Por isso, desejamos comprometermo-nos novamente para:

- trabalhar em redes internacionais com organizações, ONGs e grupos que representem a sociedade civil, dedicados à melhora das situações humanas e à protecção do meio ambiente (por ex.: Vivat, AEFJN, ...)

- trabalhar em redes nacionais e/ou localmente com as Igrejas e as organizações civis e religiosas que partilhem uns dos nossos princípios e valores e que sejam envolvidas em áreas de trabalho parecidas com as nossas. Como resposta às necessidades urgentes desse tempo, pretendemos comprometermo-nos mais ainda nas campanhas internacionais contra os EPA (África) e a ALCA (América Latina).

 

3 – Conscientização das pessoas («empowerment»)

Deixar que as coisas aconteçam è bem difícil. Porém é preciso seguir o exemplo de João Batista e Daniel Comboni: esforçarmo-nos para que as pessoas que temos o privilégio de servir se tornem em verdadeiros autores do seu próprio destino. Podemos deixar que isso aconteça só acreditando nos seus dons e tendo fé nos seus talentos e capacidades. No passado muitas vezes éramos chamados a sermos «voz dos sem-voz». Hoje reconhecemos que esses «sem-voz» têm uma voz e podem falar por si mesmos. A nossa tarefa é acompanha-los nessa caminhada de «empowerment», escuta-los atentamente e permitir que sua voz seja escutada. Nesse sentido, deveríamos intensificar os esforços para a formação de líderes locais, deixando as nossas posições de liderança e favorecendo o valor da autoconfiança. Isso não nos tira, obviamente, do nosso trabalho de defesa dos direitos dos excluídos e do dever de falar alto para os que ainda não conseguem levantar a voz.

 

4 – A prioridade dos pobres e excluídos

Pedimos à Família Comboniana de tornar mais concreta e verdadeira a «opção para com os pobres», através da inserção das nossas comunidades entre os pobres e os menos favorecidos. O nosso estilo de vida seja marcado pela simplicidade e sobriedade. Esse é o caminho para a conversão pessoal e comunitária: pois se abandonamos os pobres, é porque abandonamos Deus e traímos a missão. Portanto, precisamos de:

- viver e rezar junto com os pobres;

- convertermo-nos a um estilo de vida mais sóbrio e simples;

- manter as nossas casas abertas para receber os pobres e acolhermo-nos entre nós mesmos/as;

- pedir o dom da solidariedade entre nós e com os pobres e oprimidos;

- reconhecer a dignidade dos pobres: eles são o sujeito da evangelização;

- reconhecer os dons e talentos que Deus tem dado aos pobres para o bem da comunidade;

- compartilhar os seus sonhos, intuições, lutas, incertezas, esperanças e alegrias;

- prestar atenção aos marginalizados, seja ad intra que ad extra;

 

Pelo facto de termos privilégios (a vantagem de uma boa educação, muitos recursos à nossa disposição, a oportunidade de continuar os estudos, a possibilidade de viajar, ...), a nossa «opção para os pobres» nos força a partilhar com eles, como restituição, a abundância recebida.

 

5 – Justiça, Paz e Integridade da Criação

O Evangelho de Lucas (4, 16-21) esclarece que Justiça, Paz e Integridade da Criação è parte integrante de nossa Missão e de nosso trabalho de evangelizadores/as.

Comprometemo-nos, por isso, a um maior esforço no sector de JPIC:

- reconhecendo que a fidelidade a esse compromisso aparece primeiramente na relação com os outros membros da Família Comboniana, com os nossos empregados e colaboradores;

- na cooperação mais de perto com as comunidades cristãs e com as organizações locais;

- na conscientização das comunidades locais sobre esses assuntos, encorajando-as para um envolvimento activo, como protagonistas para seus próprios direitos;

- pedindo que todas as Províncias estabeleçam uma comissão ou grupo para reforçar a reflexão sobre JPIC entre todos os membros dos nossos Institutos;

- promovendo uma reflexão teológica sobre esses temas, a um nível continental.

 

6 – Promotores de Dialogo, Construtores de Pontes

Acreditamos que o Espírito de Deus esteja a chamar a Família Comboniana para promover o diálogo e construir pontes entre os povos, as culturas e as religiões que encontramos:

- desenvolvendo uma espiritualidade do diálogo e da reconciliação, seguindo o caminho de Jesus, o Senhor crucificado que estendeu as mãos para abraçar todos e tudo;

- suportando os mais pobres e abandonados;

- encorajando o encontro entre as diversidades;

- desfazendo os preconceitos e as nossas percepções muitas vezes deformadas, sarando as memórias nossas e dos povos que temos o privilégio de servir.

 

Para continuar nesse trabalho, desejamos adoptar as seguintes metodologias e estratégias:

- abrir-nos ao diálogo ecuménico, inter religioso e inter cultural, através de uma relação pessoal e dos nossos respectivos ministérios;

- reforçar uma atitude de dialogo e reconciliação, através da formação e educação, começando por nós mesmos;

- valorizar as tradições de reconciliação dos povos entre os quais actuamos.

 

Esses são os frutos dos dias passados juntos come membros da Família Comboniana após o Fórum Social Mundial. Oferecemos estas reflexões na esperança que cada um/a de nós encontre coragem e força, assim como aconteceu connosco nestes dias de fraternidade. Como os discípulos de Emmaus, sentimos o Espírito de Jesus vivo entre nós e nas lutas de muita gente de boa vontade que acredita que «de verdade, é possível um mundo diferente!».

 

 
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