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27 janeiro 2024

Jesus, o profeta poderoso

Tempo de leitura: 8 min
Reflexão do P. Manuel João Correia para o IV domingo do Tempo Comum, em que Jesus, o Nazareno, se manifesta como profeta poderoso em obras e em palavras.
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Aqui estamos nós a seguir Jesus, na companhia de Simão e André, Tiago e João, depois do apelo de domingo passado. Jesus leva-nos com ele a Cafarnaum, uma cidade a norte do lago da Galileia. Este será o nosso primeiro dia com ele. Um dia memorável que se chamará o "Dia de Cafarnaum", um dia típico da atividade de Jesus. Começamos hoje e concluímo-lo no próximo domingo. Neste primeiro dia, encontramos o programa de todo o Evangelho. As duas primeiras actividades de Jesus, segundo este Evangelho (Marcos 1,21-28), são o ensino e o exorcismo. 

O Profeta e a Palavra com autoridade

É sábado e "imediatamente" o Mestre entra na sinagoga e, após a proclamação das duas leituras, a primeira da Torá de Moisés (o Pentateuco) e a segunda dos Profetas, Jesus toma a palavra. E todos ficam maravilhados: "Porque os ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas". Os escribas eram os profissionais das Escrituras, mas "não tinham autoridade"! De facto, limitavam-se a relatar os pareceres de outros rabinos famosos, palavras antigas feitas de leis e preceitos que amarravam ainda mais as pessoas. Jesus, pelo contrário, não recita um papel, fala com autoridade, traz novidade, toca os corações e desperta a vida. 

A primeira tarefa de Jesus é ensinar. O texto fala quatro vezes de ensinar e de ensinamento. No evangelho de Marcos, encontramos o verbo ensinar 50 vezes, sempre dito de Jesus (exceto uma vez que se refere aos discípulos). Não se diz o que ele ensina "porque o que ele ensina é o que ele faz" (Silvano Fausti).

Ele é o Profeta prometido por Deus através de Moisés: "Suscitar-lhes-ei um profeta do meio dos seus irmãos e porei as minhas palavras na sua boca" (primeira leitura, Deuteronómio 18,15-20). Jesus é o Profeta e é a própria Palavra de Deus. "Um grande profeta surgiu no meio de nós", dizem as multidões (Lucas 7,16). Os dois discípulos de Emaús vão apresentá-lo como: "Jesus, o Nazareno, que era profeta poderoso em obras e palavras, diante de Deus e de todo o povo" (Lc 24,19).

O título de profeta atribuído a Jesus foi pouco desenvolvido na tradição cristã. Talvez devêssemos redescobri-lo. Diz-se hoje com frequência que a Igreja está a perder autoridade e credibilidade. A "boa nova" do Evangelho não pode ser proclamada sem a unção profética de Jesus: "O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso, ele me ungiu e me enviou para levar a boa nova aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, para proclamar o ano de graça do Senhor (Lucas 4,18-19). O que é urgente para a Igreja é um "novo ensinamento" que desperte a esperança e aqueça os corações. É urgente que cada batizado redescubra a sua vocação de profeta, recebida pela unção do Espírito. 

A Palavra de Jesus destrói o espírito impuro 

“E eis que na sinagoga deles estava um homem possuído por um espírito impuro, e começou a gritar, dizendo: 'Que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Eu sei quem tu és: o Santo de Deus!”

É sábado e estamos na sinagoga, ou seja, num tempo e num espaço sagrados. O que faz ali este espírito impuro? Parece ser um frequentador habitual da sinagoga. Estava sempre ali, calado e sem ser incomodado. Mas hoje começa a gritar! Os sermões dos escribas parecem nunca o terem incomodado, mas este "novo ensinamento" de Jesus ele não o suporta. 

E nós podemos perguntar-nos: não será este "espírito impuro" um fiel frequentador também das nossas assembleias? Não estará a dormir sem ser perturbado nalgum recanto profundo e escuro dos nossos corações? E, se for esse o casso, porque é que não se manifesta? Não nos estará a faltar este "ensinamento novo"?! Ou será que se habituou a um "evangelho" domesticado? Os "demónios" mais perigosos não são os que vemos fora de nós, mas os que se escondem dentro de nós, esses "espíritos impuros" que contaminam e enfraquecem as nossas "obras e palavras"!

E Jesus ordenou-lhe com firmeza: "Cala-te! Sai dele! E o espírito imundo, arrastando-o e gritando em alta voz, saiu dele". Este é o primeiro "milagre" de Jesus apresentado por Marcos: um exorcismo. Jesus realiza-o apenas com a sua palavra. E todos na sinagoga ficam ainda mais espantados: "Que é isto? Um ensinamento novo, dado com autoridade. Ele até dá ordens aos espíritos imundos e eles obedecem-lhe!". Marcos apresenta o seu evangelho como uma luta entre o bem e o mal. Satanás é vencido por Jesus. Chegou o "homem forte" (Mateus 12,29) que vem libertar o homem, a obra-prima de Deus!

Mas quem ou o que é este "espírito impuro"? Os evangelistas, em particular Marcos, traduzem "demónio" por "espírito impuro". Encontramos cerca de cinquenta vezes a referência a "demónios" no Novo Testamento, e quase metade no evangelho de Lucas (23). Para dizer a verdade, o Antigo Testamento é bastante sóbrio em relação à demonologia, mas, no tempo de Jesus, ela estava a florescer. Muitos fenómenos e males estranhos ou doenças psíquicas e mentais eram atribuídos a "demónios". É natural, portanto, que se encontre esta influência cultural também nos Evangelhos. O mal sempre existiu e, seja qual for o nome que lhe atribuamos, permanece sempre um mistério. Seja como for, a palavra de Jesus vence o mal e liberta este homem. 

Mas então, o demónio existe ou não? Hoje em dia, há um certo mal-estar em falar dele. O conhecido biblista Gianfranco Ravasi diz: "Na realidade, ele é uma figura ativa nas páginas do Novo Testamento. A palavra de origem hebraica satanás aparece 36 vezes e a equivalente de origem grega diábolos 37 vezes. Trata-se, portanto, de uma presença significativa que não pode ser facilmente eliminada como se fosse um resquício mítico popular". Parece-me que devemos evitar os dois extremos: ver a presença e a influência do "demónio" em todo o lado ou, pelo contrário, negar a sua existência. Giovanni Papini dizia: "A última astúcia do demónio foi espalhar o rumor da sua morte". Em todo o caso, o cristão não é chamado a falar do demónio e do doente, mas a anunciar que "Jesus, o Nazareno, profeta poderoso em obras e em palavras" é a única esperança para a humanidade de hoje, sedenta de liberdade, mas escravizada por tantos demónios!

 Padre Manuel João Pereira Correia, mccj

 

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