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09 janeiro 2020

EUA e Irão: Manter acesa a chama do diálogo e do autocontrole

Tempo de leitura: 8 min
Discurso do Papa ao corpo diplomático no Vaticano
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Entre os vários assuntos abordados no discurso anual do Papa aos membros do Corpo Diplomático (embaixadores acreditados junto da Santa Sé), Francisco renovou o apelo ao diálogo diante da subida da tensão entre os Estados Unidos e o Irão.

“Particularmente preocupantes são os sinais que chegam do Médio Oriente, após a recrudescência da tensão entre o Irão e os Estados Unidos que se arrisca, antes de tudo, a colocar a dura prova o lento processo de reconstrução do Iraque, bem como a criar as bases dum conflito de mais vasta escala que todos quereríamos poder esconjurar. Por isso, renovo o meu apelo a todas as partes interessadas para que evitem um agravamento do conflito e mantenham «acesa a chama do diálogo e do autocontrole», no pleno respeito da legalidade internacional”, disse Francisco.

Francisco iniciou o encontro a pedir “uma atitude de esperança”, salientando que “gostaria que esta palavra (esperança) – uma virtude fundamental para os cristãos – animasse o olhar com que sondamos” o ano que se inicia.

“E esperar exige coragem. Exige que se tenha consciência de que o mal, o sofrimento e a morte não prevalecerão e que mesmo as questões mais complexas podem e devem ser enfrentadas e resolvidas. A esperança é a virtude que nos coloca a caminho, dá asas para continuar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis”, referiu.

O Papa recordou aos presentes que “a paz e o desenvolvimento humano integral são o objetivo principal da Santa Sé no campo do seu empenho diplomático”. Nesta perspetiva, destacou os acordos de caráter geral, assinados ou ratificados durante o ano passado com a República do Congo, a República Centro-Africana, o Burkina Faso e Angola, bem como o acordo entre a Santa Sé e a República Italiana para a aplicação da Convenção de Lisboa sobre o reconhecimento dos títulos de estudo relativos ao Ensino Superior na Europa.

Francisco lembrou ainda que as próprias viagens apostólicas, “além de serem uma via privilegiada pela qual o Sucessor do Apóstolo Pedro confirma os irmãos na fé”, tornam-se “ocasião para favorecer o diálogo a nível político e religioso”.

O Papa disse ainda que há grande urgência de um empenho mais assíduo e eficaz da Comunidade Internacional na região mediterrânica e do Médio Oriente, referindo-se mais especificamente à “cortina de silêncio” que corre o risco de encobrir a guerra que devastou a Síria durante a última década.

“É particularmente urgente encontrar soluções adequadas e clarividentes que permitam ao querido povo sírio, exausto da guerra, encontrar a paz e começar a reconstrução do país”, declarou.

Francisco expressou mais uma vez a sua gratidão à Jordânia e ao Líbano por terem recebido milhares de refugiados sírios, ocupando-se deles com não poucos sacrifícios.

O Santo Padre citou ainda o Iémen, que vive uma das mais graves crises humanitárias da história recente e apontou “um clima de indiferença geral da Comunidade Internacional”: “Este contexto é terreno fértil para o flagelo da exploração e tráfico de seres humanos, alimentado por pessoas sem escrúpulos que exploram a pobreza e o sofrimento daqueles que fogem de situações de conflito ou de pobreza extrema. Muitos deles acabam presa de verdadeiras e próprias máfias que os detêm em condições desumanas e degradantes, sujeitando-os a torturas, violências sexuais, extorsões”.

O Papa disse que, em geral, é preciso salientar que “no mundo existem vários milhares de pessoas, com necessidades humanitárias e legítimos pedidos de asilo e proteção verificáveis, que não são adequadamente identificadas. Muitos arriscam a vida em perigosas viagens por terra e sobretudo por mar”.

“Com mágoa, continua-se a constatar como o Mar Mediterrâneo permanece um grande cemitério. Por isso, é cada vez mais urgente que todos os Estados se responsabilizem por encontrar soluções duradouras”, afirmou.

Francisco reconheceu que a Santa Sé olha com grande esperança para os esforços feitos por numerosos países para compartilhar o peso da reinstalação e proporcionar aos deslocados, especialmente por emergências humanitárias, um lugar seguro onde viver, uma educação e também a possibilidade de trabalhar e voltar para as suas famílias.

E por esta razão, o Papa anunciou que vai promover um evento mundial, no próximo dia 14 de maio, que terá como tema «Reconstruir o pacto educativo global».

“Trata-se dum encontro que visa «reavivar o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão”, explicou.

“Precisamos, pois, dum conceito de educação que englobe a ampla gama de experiências de vida e processos de aprendizagem e que permita aos jovens, individual e coletivamente, desenvolver a sua personalidade. A educação não se esgota nos tempos de lição das escolas ou das universidades, mas é garantida principalmente respeitando e reforçando o direito primário da família a educar e o direito das Igrejas e das agregações sociais a apoiar e colaborar com as famílias na educação dos filhos”, acrescentou.

De acordo com o Papa, “educar exige entrar num diálogo leal com os jovens”, pois “são eles os primeiros a recordar-nos a urgência daquela solidariedade intergeracional que, infelizmente, tem vindo a faltar nos últimos anos”.

“Vimo-lo no modo como muitos jovens se estão a empenhanr por sensibilizar os líderes políticos para a questão das alterações climáticas”, destacou, recordando que “o cuidado da nossa casa comum deve ser uma preocupação de todos, e não objeto de contraposição ideológica entre diferentes visões da realidade e, menos ainda, entre as gerações”.

Francisco lamentou que a urgência desta conversão ecológica parece não ser sentida pela política internacional, cuja resposta às problemáticas colocadas por questões globais como a das alterações climáticas é ainda muito fraca e fonte de grande preocupação.

O Santo Padre recordou ainda os encontros da Cimeira do Clima (COP25), em Madrid, “um alarme sobre a vontade que tem a Comunidade Internacional de enfrentar o fenómeno do aquecimento global” e o Sínodo sobre a Amazónia, “um evento essencialmente eclesial, motivado pela vontade de colocar-se à escuta das esperanças e desafios da Igreja na Amazónia e de abrir novos caminhos para o anúncio do Evangelho ao Povo de Deus, especialmente às populações indígenas”.

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