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08 janeiro 2024

A alegria da missão

Tempo de leitura: 7 min
A vocação é um dom gratuito de Deus para cada um de nós em particular. Deus sabe o que nos concretiza e nunca nos pede nada que não sejamos capazes de concretizar. Importante será sempre escutar a Sua voz que nos chama: «Vem e Segue-Me» (Mt 19,21).
Pedro Nascimento
Leigo missionário comboniano
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Na Etiópia, o Pedro Nascimento trabalhou numa biblioteca, o que permitiu a muitos jovens ter acesso a livros e a espaço para estudar, ter aulas de inglês e de informática

 

Chamo-me Pedro Nascimento e sou leigo missionário comboniano desde 2018, momento em que assumi esta vocação e compromisso com Deus e com os Leigos Missionários Combonianos – LMC. 

Foi em 2009 que conheci a Família Comboniana e, nessa altura, senti alguma inquietação pela realidade missionária apesar de pensar que a minha vocação não passasse pela missão. 

Depois de participar em algumas actividades organizadas pela Família Comboniana (semanas de experiência missionária, peregrinações a pé até Fátima, encontros, entre outros) eis que, em 2015, integrado no grupo Fé e Missão, participei numa experiência missionária de um mês em Carapira, Norte de Moçambique. Em 2017, uma vez mais, integrado no grupo Fé e Missão, fui novamente até Carapira, em Moçambique, pelo período de um mês.

Caminho formativo

Depois dessa experiência tão importante para mim, e de ver o testemunho inspirador da comunidade LMC que aí trabalhava, senti o desejo íntimo de, também eu, ser leigo missionário comboniano. 

Por esse motivo, iniciei o caminho de formação dos LMC com encontros mensais durante dois anos. Neste caminho, tive a oportunidade de me preparar melhor, de discernir sobre a vocação a que sou chamado, o que não foi fácil. Com efeito, dar o meu «sim» a Deus, tornar-me LMC e partir por um período mínimo de dois anos para outro país, outra cultura, outra língua, outra realidade, abdicando do exercício da minha profissão, deixar a família e amigos que tanto amo e não quero magoar com a minha ausência, não foi um discernimento fácil: tive de compreender que a fidelidade à vocação a que somos chamados implica também muitos sacrifícios, oração, entrega… Neste discernimento, foi importante o exemplo de São Daniel Comboni, que, apesar de saber que a sua vocação missionária era cristalina, sofria sempre que pensava que para viver a sua vocação teria de abandonar os seus pais. 

 

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Missionário na Etiópia

Depois de um discernimento sério, disse «sim» a Deus e parti por um período de dois anos para a Etiópia, a minha amada Etiópia, que trago ainda hoje no coração! A Etiópia é um país maravilhoso, com uma história e cultura fantásticas, com inúmeros povos, e dialectos. Infelizmente, é também um país mergulhado em muitas desigualdades sociais e com constantes conflitos étnicos que continuamente comprometem a paz e a estabilidade. 

Os primeiros tempos na missão permitiram-me aprofundar a cultura etíope, aprender um pouco a língua franca, o amárico, visitar várias missões católicas, fazer voluntariado numa casa das Irmãs de Madre Teresa de Calcutá. Posteriormente, fui para a missão de Gilgel Beles, na zona de Metekel, região de Benishangul-Gumuz. Tenho a certeza de que São Daniel Comboni está muito feliz com esta presença comboniana entre os mais pobres e abandonados, em especial, com o povo Gumuz. 

Os Gumuz são um povo fascinante, mas muito marginalizado, que anteriormente foi escravizado e que continua a sofrer discriminação, muitas vezes sem acesso a direitos básicos, designadamente, saúde e educação. Os Gumuz são o povo para onde Deus me enviou e pelo qual me apaixonei. 

Durante aquele tempo, tive a oportunidade de trabalhar numa biblioteca e que permitiu a muitos jovens ter acesso a livros e a espaço para estudar, ter aulas de inglês e de informática; permitiu-me visitar famílias, doentes e o centro prisional; acompanhar um grupo de catequese de mulheres; realizar várias actividades com crianças nas aldeias mais distantes e isoladas; visitar os deslocados, vítimas de conflitos étnicos. 

Acima de tudo, partilhei a vida! Partilhei a minha fé, os meus conhecimentos, a minha amizade… E recebi tanto, aprendi tanto, vivi tanto que, no final, só posso dizer: «Obrigado, Senhor! Obrigado por este povo maravilhoso para onde me enviaste! Obrigado por viver com as pessoas os seus sofrimentos e alegrias e poder entregar-te na oração, toda a realidade que vivi!»

 

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Viver a vocação missionária no quotidiano

Em Julho de 2021, regressei a Portugal e durante um ano integrei a comunidade LMC de Fetais, Camarate. Este ano foi extremamente importante! Depois de regressar a Portugal tive a oportunidade de continuar a dedicar-me, a tempo inteiro, à actividade missionária e, ao mesmo tempo, regressar ao meu país, o que, depois de tudo o que vivi na Etiópia, não foi nada fácil. Em Camarate, deparei-me com uma realidade desafiante, onde habitam pessoas de várias nacionalidades e onde existem problemas sociais de grande dimensão. Tive, também, a oportunidade de fazer voluntariado numa organização que recebe refugiados. 

Actualmente, no regresso à realidade que vivia antes de partir para a África, o desafio passa por viver a minha vocação missionária em família, no trabalho, na realidade, o que implica estar atento. Com efeito, somos absorvidos por tanta coisa que é importante recordar que o «sim» dado à vocação e à missão foi um «sim» para a vida! 

A alegria da missão passa pela fidelidade à mesma! Apesar das fragilidades, das fraquezas, da pequenez, Deus continua a contar comigo e contigo! Sim, contigo! És importante para Deus e Ele ama-te! 

Pelo baptismo, todos somos missionários e, como disse Comboni, «se não puderem trabalhar muito com obras, procurem, ao menos, fazer aquilo que podem com a oração». Que o Senhor inspire cada um de nós a entregar-se à realidade missionária, seguindo o mandato de Jesus Cristo: «Ide por todo o mundo e anunciai a Boa Nova» (Mc 16,15). 

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Março 2024 - nº 744
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