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05 fevereiro 2024

Desde Abraão até à minha vocação

Tempo de leitura: 11 min
O “sim” de Abraão, confiando na palavra de Deus que lhe foi dirigida, deve ser para todos os discípulos-missionários de Jesus fonte de inspiração.
Pedro Nascimento
Leigo missionário comboniano
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(©123RF)

 

No tempo em que vivi na Etiópia, uma das actividades missionárias realizada, em conjunto com a Irmã Vicenta, missionária comboniana de Espanha, consistiu em iniciar e acompanhar um grupo de mulheres gumuz. Na cultura gumuz, às quintas-feiras, as mulheres não trabalham, sendo o seu momento de descanso. Por esse motivo, quinzenalmente, reuníamo-nos com um grupo de mulheres e, no fim de uma pequena catequese, bebíamos café. Era um momento de encontro. Nos momentos catequéticos, apresentávamos personagens bíblicas e, após apresentação de cada personagem, procurávamos encontrar lições para a nossa vida, havendo espaço para partilha. A nossa formação começou com Abraão!

A vocação é um dom de Deus gratuito e todos nós, que somos amados por Deus, somos por Ele chamados. Contudo, para compreendermos a nossa própria vocação também é importante aprender com tantas pessoas, chamadas por Deus, que O escutaram e procuraram Segui-Lo.

Nos próximos números da Além-Mar iremos recordar várias personagens bíblicas, começando com Abraão, nosso Pai na fé. 

Deus chama Abraão

Na vocação de Abraão, a iniciativa partiu de Deus. É Deus quem chama e nos convida a participar no desafio que nos propõe. A iniciativa pertence a Deus, «porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4,19). Ao falar do chamamento de Abraão, assim escreve o autor do texto sagrado: «O Senhor disse a Abraão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa do teu pai e vai para a terra que eu te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei aquele que te amaldiçoar. Por ti serão abençoados todos os povos da Terra”» (Gn 12,1-3).

A resposta ao chamamento de Deus é livre. Abraão poderia livremente decidir entre aceitar o convite de Deus a partir ou a permanecer na sua terra, ignorando o convite de Deus. Contudo, Abraão decide partir! Acresce que Abraão já tinha 75 anos (Gen 12, 4) e Sara, sua mulher, era considerada estéril (Gen 11, 30). A partida de Abraão, mais que a resposta positiva ao chamamento de Deus, demonstra a sua total confiança em Deus. Partir, deixar a sua terra, implica deixar o conhecido, para abraçar o misterioso, deixar a família e os amigos, uma região e um país a que se pertence, uma cultura na qual se encontra inserido, os laços entretanto criados para seguir o caminho proposto por Deus!

Regressando à vida de Abraão, podemos referir que este foi um homem justo, que buscou a paz. De facto, apesar de ser muito rico em rebanhos, prata e ouro (Gen 13,2), para evitar conflitos entre irmãos, decidiu separar-se de Lot, permitindo que este escolhesse o melhor terreno: «O vale era um maravilhoso jardim» (Gen 13, 10). A exemplo de Abraão, sejamos também homens e mulheres justos, vivendo as nossas vidas em busca da paz, evitando conflitos, entre irmãos.

Tal como referido anteriormente, Sara era estéril e já com alguma idade. Deus, fiel às suas promessas, concedeu-lhe um filho: Isaac! Deus cumpre as suas promessas (Gen 17, 15-19; 21, 1-3).

Sucede que o Senhor decide pôr Abraão à prova, pedindo-lhe que o seu filho Isaac fosse imolado. Deus bem sabia o grande amor de Abraão pelo seu filho Isaac. Ainda, assim, obediente à vontade de Deus, Abraão pretende cumprir o pedido de Deus. Vendo que Abraão lhe obedecia, o Senhor pediu-lhe que não sacrificasse o seu filho Isaac. Com este acto, o Senhor confirmou a confiança e obediência de Abraão, o amigo de Deus.

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O padre Obwaya Justus Oseko, missionário comboniano originário do Quénia. Como Abraão, sentiu que Deus o chamava a deixar a sua terra para testemunhar o Evangelho de Jesus

 

Abraão inspira-nos

O “sim” de Abraão, confiando na palavra de Deus que lhe foi dirigida, deve ser para todos os que partem fonte de inspiração. De facto, quando Deus nos fala ao coração (Os 2, 16) e nos convida a partir, o seu chamamento não é inocente, uma vez que nos criou, que nos conhece profundamente e que sabe do que somos capazes. Não é um convite fácil, mas exigente, e implica sacrifício, deixar família, amigos, um país e cultura que se ama, para abraçar, na fé, um destino que nos é indicado por Deus. De igual modo, na vida de qualquer um de nós, Deus convida-nos a partir, a deixar a nossa zona de conforto e a abrir o nosso coração, confiantes em Deus. Partir é exigente, pode implicar acidentes, mas como nos refere o Papa Francisco, «prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças» (Evangelii gaudium, 49).

Na nossa vida, nem sempre compreendemos os desígnios de Deus, a Sua vontade! Será, pois, o nosso amor por Ele, a confiança de que nos ama e nos quer muito, que nos permitirá cumprir a Sua vontade, tantas vezes difícil de aceitar! Inspirados em Abraão, poderemos ser fiéis ao Senhor e ao Seu chamamento. 

Partir como Abraão

A vocação de Abraão, nosso pai na fé, toca muitos corações que, animados pelo espírito, partem confiantes em Deus. É o caso do padre Obwaya Justus Oseko, um missionário comboniano do Quénia com 35 anos de idade. Como Abraão, sentiu que Deus o chamava a deixar a sua terra para testemunhar o Evangelho de Jesus.

O missionário conta-nos como surgiu a sua vocação: «Todos os sábados, era costume na minha família reunirmo-nos para ler e reflectir em conjunto sobre a Palavra de Deus, geralmente o texto do Evangelho do dia seguinte. O meu pai desempenhava um papel crucial nestas reuniões; era como o líder desta pequena igreja doméstica. Pedia a cada um de nós que lesse o texto e depois convidava-nos a partilhar o que nos tinha tocado pessoalmente. Por outro lado, a minha mãe insistia muito para que rezássemos o terço, uma oração que ela sempre alimentou e que me ajudou a compreender a importância da Virgem Maria no nosso caminho de fé. Estas experiências familiares de proximidade com Deus encorajaram-me a juntar-me ao grupo vocacional da minha paróquia, Nossa Senhora da Assunção em Nyamagwa, onde a semente plantada pelos meus pais cresceu. Comprometi-me então a ser acólito para ajudar os padres durante as celebrações eucarísticas.»

O compromisso evoluiu com os anos e o jovem Obwaya, depois de concluir o ensino secundário, começou a participar no coro da paróquia da Rainha dos Apóstolos em Nyakegogogi. «A minha presença no coro permitiu-me encontrar muitas pessoas empenhadas na Igreja e conhecer os Missionários Combonianos, quando um colega me deu um folheto sobre eles e o seu fundador, São Daniel Comboni», conta.

Acrescenta que, ao ler esse opúsculo, sentiu «o desejo de servir os necessitados através da vida missionária». Infelizmente, diz, «nem sempre é fácil para os pais aceitarem as decisões tomadas pelos filhos». Pode parecer contraditório, mas o seu pai, que tanto o tinha influenciado para ser um bom cristão, não queria que ele fosse padre. «Estava convencido de que o melhor para mim era ser médico. Foi preciso muito tempo de reflexão e muitas discussões entre nós dois para que ele aceitasse a minha decisão. Entusiasmava-me o exemplo de São Daniel Comboni e a sua decisão de servir e aliviar o sofrimento dos pobres. Conhecer a vida deste santo foi para mim uma epifania que me motivou a seguir as suas pegadas e a juntar-me à congregação e a colaborar na sua acção missionária».

O jovem Obwaya escreveu ao promotor vocacional, participou num encontro para os candidatos a missionários e ali reafirmou a sua opção de ser missionário ao estilo de São Daniel Comboni. Meses depois começou a preparação para a vida missionária. Estudou Filosofia no seu país e Teologia na África do Sul. Foi ordenado sacerdote no dia 6 de Agosto de 2020.

Actualmente, está a estudar e a colaborar com a pastoral juvenil em Espanha. Sente-se realizado, expressa a sua confiança em Deus e a importância da oração na vida missionária, pois sente que o Senhor o chama «a ter uma relação de amor com Ele e, ao viver esta relação, poderei reflectir a misericórdia de Deus e ajudar os outros».

Aos jovens deixa um apelo: «Abram o vosso coração a Deus, que vos diz: “Segui-me”. Posso garantir-vos que, se forem generosos, Deus dar-vos-á a força de que necessitais.  

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EDIÇÃO
Março 2024 - nº 744
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