
Tiago, cuja origem do nome é Iákobos (Jacó), nasceu na Galileia e era filho de Zebedeu e Salomé, segundo as Sagradas Escrituras. Era, portanto, irmão de João Evangelista, os «Filhos do Trovão», como os chamara Jesus devido ao seu temperamento impetuoso e zeloso.
Tiago faz parte do quarteto de Apóstolos que primeiro foi convocado por Jesus (Mt 4, 21). Ele não hesitou ao ouvir o chamamento de Jesus, pois, imediatamente, abandonou seu trabalho e sua família (Mc 4, 22) para O seguir e ser «pescador de homens». Tiago acompanhou Jesus no anúncio do Reino e esteve em muitas missões com Ele, ouvindo a palavra do Mestre e testemunhando os milagres por todas as cidades e aldeias. É um dos apóstolos que esteve presente em episódios centrais da vida de Jesus, tal como na transfiguração (Mt 17, 1-9), no dia em que ressuscitou a filha de Jairo (Mc 5, 37), na agonia de Jesus no Getsémani (Mc 14, 33). No caminho que fez com Jesus dia após dia, viveu e aprendeu de Jesus os valores do Reino, reconfigurando a sua vocação de discípulo e apóstolo.
A prontidão com que Tiago deixou tudo para seguir Jesus deve inspirar-nos, também nós, a sermos fiéis ao Senhor, a segui-Lo sem medo, sem receios, simplesmente confiando no Seu convite. Como nos disse o Papa Francisco, «ou tens medo diante de Deus ou tens confiança no Senhor» (Ângelus, 19/11/2023). A exemplo de Tiago, também nós devemos escutar o Senhor, que nos fala e nos convida a segui-Lo sem reservas. Na intimidade com o Senhor, no diálogo profundo e sincero, e confiantes de que Ele nos ama, somos convidados a viver Jesus, sem reservas.
Após a ressurreição de Jesus Cristo e a vinda do Espírito Santo, Tiago compreendeu o seu chamado e missão diante dos apelos do Evangelho.
É com esse sentido missionário que a Boa Nova começa a anunciar-se até os confins do mundo conhecido. Tiago era um missionário incansável, que anunciou a Boa Nova com fervor e entusiasmo, dando a sua vida por Jesus: foi o primeiro apóstolo a sofrer o martírio (Act 12, 1-2).
Efectivamente, por volta dos anos 40 da nossa era, o rei Herodes Agripa, neto de Herodes, o Grande, começou a perseguir os discípulos de Jesus (Actos 12,1-2), mandando matar Tiago em Jerusalém.
Alguns relatos lendários contam que Tiago, saindo de Jope, na Judeia, teria ido até à Hispânia, para evangelizar, tendo desenvolvido actividade sobretudo na Galiza e na zona hoje correspondente a Aragão. Aqui teria deixado muitos cristãos e estabelecidos alguns bispos. Tiago teria regressado à Judeia, tendo sido morto da forma que vem relatada nos Actos dos Apóstolos, ao «fio da espada». Por outro lado, segundo a Lenda Áurea do frade dominicano Jacopo de Varagine, foi depois da decapitação que o seu corpo foi trasladado para as terras ibéricas, chegando a Compostela.
Uma das experiências maravilhosas da minha vida foi fazer o caminho até Santiago; realizei-o em silêncio, em comunhão com Jesus, reflectindo sobre a minha vocação. São Tiago inspirou-me a uma maior intimidade com o Senhor e a ser missionário no quotidiano da minha vida.
Tiago entregou a sua vida por Jesus e o anúncio do Evangelho. Dar a vida por Jesus implica que as nossas atitudes, os nossos comportamentos, a nossa vida seja testemunho do amor de Deus. Cristo conta connosco para o anunciar com as nossas vidas. Dar a vida pelo Evangelho não significa que iremos todos morrer por Jesus, sofrer o martírio. Contudo, ser cristão é ser testemunha de Jesus, do Seu amor, dos valores do Reino.
O missionário comboniano ugandês padre Alfred Mawadri revisita os anos da sua infância e juventude e conta-nos como algumas pessoas e alguns acontecimentos foram importantes no seu caminho de discernimento vocacional.
«A nossa paróquia, na cidade de Moyo, foi uma das primeiras do Norte do Uganda. Foi fundada em 1917 pelos Missionários Combonianos e ainda era administrada por eles quando eu era acólito. Eu admirava aqueles missionários, que trabalhavam tanto. O grupo juvenil da paróquia era animado pelo padre Aladino Mirandola, um italiano que faleceu em 2018.
Em Agosto de 1988, o meu primo William Nyadru foi ordenado sacerdote comboniano em Moyo. Três anos depois, a 25 de Outubro de 1991, o padre William, que tinha sido destinado à missão de Moroto, na sub-região ugandesa de Karamoja, foi encontrado morto num local isolado. Uma bala atravessou-lhe o coração.
O corpo do padre William foi enterrado em Moyo e eu fui acólito durante o funeral. Olhei para o caixão, que estava colocado no mesmo lugar onde ele se ajoelhou no dia da sua ordenação. No final da celebração, o padre Aladino passou o braço pelos meus ombros e disse-me: “A nossa fé cristã não nos deixa dúvidas de que William não morreu em vão. Podemos ter a certeza de que o Senhor trará múltiplos dons com o seu sacrifício.” Eu sussurrei-lhe: “Eu ocuparei o seu lugar.”
Um ano depois, iniciei os meus estudos secundários e a ideia de seguir os passos do padre William foi desaparecendo. Tal como qualquer outro jovem que sonha com um futuro melhor, concentrei-me nos estudos. Queria ser engenheiro, por isso escolhi Física, Química e Matemática.
No final deste ciclo formativo, participei numa série de encontros cristãos de fim-de-semana. Num desses retiros, cada participante teve de tirar um pedaço de papel de uma caixa com um texto bíblico e reflectir sobre ele. A mim calhou-me um versículo do evangelho de Mateus: “Jesus viu um homem chamado Mateus sentado na alfândega e disse-lhe: Segue-me. Ele levantou-se e seguiu-o.” Fiquei tentado a deixá-lo e pegar noutro pedaço de papel, mas algo dentro de mim me impediu. Durante a hora seguinte, lutei energicamente contra aquele texto, que logo se tornou uma voz clara... E perdi a batalha. As palavras que o padre Aladino me sussurrou no dia do funeral do padre William ressoavam na minha cabeça e eu não conseguia silenciá-las.
Não foi fácil lidar com o turbilhão de pensamentos e emoções que me acompanharam durante várias semanas e, no final, tive de largar o ramo da árvore a que me agarrava, o apego à minha família, e juntar-me aos Missionários Combonianos. Tal como Mateus, deixei a minha família e abandonei a ideia de ser engenheiro. Em Agosto de 2000, iniciei a minha formação missionária e, cinco anos depois, fiz a minha primeira profissão religiosa. Depois fui enviado para Lima (Peru) para estudar Teologia e fui ordenado sacerdote em Moyo, em Janeiro de 2012. Naquele dia, a alegria do padre Aladino era enorme. Quando ele me disse que eu tinha cumprido a minha promessa, respondi-lhe: “O padre William será a minha estrela-guia para o resto da minha vida”.»
