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17 novembro 2019

Criar ambiente para o desabrochar da vocação

Tempo de leitura: 9 min
A vocação, dom de Deus, é como uma pequena semente que deseja germinar, crescer e frutificar; mas para que isso aconteça, necessita encontrar o ambiente adequado.
Susana Vilas Boas
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Noutros tempos era dada muitíssima importância aos almanaques e aos calendários. Mais do que ter neles uma forma de seguir a cronologia dos acontecimentos, era um modo de, sobretudo para quem vivia no campo, saber quando se deveria fazer determinada sementeira ou plantação. Os tempos mudaram e, actualmente, existem outros meios de informação e, particularmente, outros meios de controlar o ambiente. Com estufas, meios artificiais de aquecimento e arrefecimento de temperatura, meios de regulação de humidade da terra ou outros mecanismos, torna-se possível desenvolver todo o tipo de culturas independentemente da época do ano em que se estiver.

Com a vocação ocorre algo similar. Se pensarmos a vocação como uma pequena semente que deseja germinar, crescer e dar fruto, teremos de pensar também que é necessário encontrar o ambiente certo para que isso aconteça. As sementes da vocação, enquanto dom de Deus, nunca são estéreis! Elas têm sempre a capacidade de germinar e frutificar, a capacidade de se desenvolverem e se realizarem plenamente, tornando-se dom para quantos dela se aproximarem, seja saciando-se com os seus frutos, seja refrescando-se com a sua sombra. No entanto, isto não acontece instantaneamente. É preciso “criar ambiente”, encontrar o sítio certo para a germinação e dar tempo ao tempo, confiando que, quer se esteja a dormir, quer se esteja acordado, de noite e de dia, a semente germina e cresce (cf. Mc 4,27).

 

À procura de terreno fértil…

Podemos perguntar-nos o que significa, na prática, este “ambiente adequado” para a germinação e desenvolvimento da vocação. Antes de mais, devemos pensar que, se há vocações diferentes, também existem “terrenos diferentes” para que estas se desenvolvam. Porém, é incontornável perceber que a origem de toda a vocação se encontra no mesmo lugar – todas são dom de Deus e todas, em última análise, propiciam e orientam para Deus!

Pensemos, por exemplo, que pretendemos uma formação de nível superior. Qual o ambiente certo para desenvolver os estudos e o conhecimento em determinada área? O denominador comum é o mesmo: o ensino universitário ou politécnico. Mas o ambiente adequado será sempre a instituição de ensino superior que promover o curso que nós pretendemos.

Na vida vocacional o ambiente que deve ser procurado é aquele que se apresente capaz de potenciar tanto o discernimento como o desenvolvimento da vocação. Tratar-se-á sempre de um ambiente onde é possível viver uma dimensão de família-comunhão em que os ideais são partilhados e onde é possível que o sonho de Deus «encarne e torne as nossas horas e dias menos rudes, menos indiferentes e anónimos» (Cristo Vive, 217). A vocação é sempre especial e é sempre algo que tem como terreno o nosso coração, um coração que se tornará terreno fértil na medida em que o ambiente à sua volta o deixe ser verdadeiramente fecundo.

Pensemos na parábola do semeador (Lc 8,4-15). A semente é lançada (por um mesmo Semeador), mas só no terreno adequado é que ela consegue germinar, crescer e frutificar em abundância. Além dos ruídos exteriores, além dos pedregulhos e dos espinhos sufocadores, a terra que está preparada para acolher a semente, quando a recebe, ousa encontrar e nela fazer convergir tudo o que é necessário para um crescimento saudável, tudo mais vem por acréscimo, já que, em Deus, tudo é possível (cf. Mt 19,26; Fil 4,13).

Considerar a pressão atmosférica…

Poder-se-á dizer que até não é muito difícil saber qual seria o ambiente certo para determinada vocação (ou, pelo menos, para a vocação que nós pensamos que será a realização da nossa vida). Mais ou menos, conseguimos distinguir quais os ambientes mais favoráveis. Depois, de entre eles, podemos inclinar-nos mais para um lado do que para outro, mas sabemos bem o “tipo” de ambiente de que precisamos.

Contudo, nem tudo é simples! Se até é fácil discernir sobre os ambientes favoráveis, é, muitas vezes, difícil ousar entrar neles com a seriedade e perseverança necessárias para um discernimento vocacional sério. À nossa volta, multiplicam-se os obstáculos para nos impedirem de permanecer muito tempo nestes ambientes. A “pressão ambiental” (pressão familiar e/ou social) distancia-nos do ambiente adequado e leva-nos, por vezes, a crer que somos capazes de germinar e frutificar noutros ambientes. Como vencer esta pressão?

O ambiente que julgamos ser adequado para a descoberta e vivência da vocação conta com algo extraordinário: com jardineiros que amam a sementeira/plantação de Deus! Eles ajudar-nos-ão, tanto a discernir o nosso caminho – o ambiente certo para a nossa realização plena –, como a fazer face às pressões que nos afastam de nós mesmos, de Deus e de todos aqueles que poderiam, de algum modo, ser abençoados pela nossa vivência vocacional.

Se é certo que temos de ser nós a optar e a ousar viver num ambiente que consideramos adequado, não é menos verdade que este é um caminho que não vamos percorrer sozinhos! Seria impossível vencer as adversidades e os obstáculos se contássemos apenas connosco mesmos! As relações de confiança e de amizade com aquele(s) que nos acompanha(m) «possibilitam reforçar competências sociais e relacionais num contexto onde ninguém se sente julgado. A experiência de grupo constitui também um grande recurso para a partilha da fé e a ajuda mútua no testemunho» (Cristo Vive, 219). Acompanhados por quem vive e se move no ambiente onde sonhamos viver, será o melhor modo de percebermos se aí é também o nosso lugar e lutar com uma maior força contra as pressões adversas ao nosso germinar, crescer e frutificar.

Ousar criar ambiente… viver nele… encontrar-se nele e com ele…

Nem sempre é fácil vencer as amarras que nos prendem e lançar-se, decididamente, à descoberta da vocação a partir do ambiente adequado à sua realização. Ousar criar ambiente não significará apenas procurar amenizar os ânimos, procurando que as pressões e opiniões contrárias ao nosso desejo, pelo menos, entendam o que sonhamos para nós. Muitas vezes esta é uma tarefa árdua e praticamente impossível se não estivermos na disposição de ousar ir mais longe – ir além de nós mesmos! O ambiente que desejamos terá gente capaz de nos ajudar: o mais difícil é mesmo assumir que não se é capaz de fazer tudo sozinho e ter a humildade de pedir a ajuda daqueles que, de algum modo, já vivem o nosso sonho vocacional.

O ambiente que potencia e possibilita o desabrochar da vocação é aquele no qual sentimos que «nascemos de novo, porque sentimos a eficácia da carícia de Deus que nos permite sonhar o mundo mais humano e, consequentemente, mais divino» (Cristo Vive, 217). Assim, ele nunca é um ambiente completamente isolado e/ou distante dos nossos amigos e familiares. Antes, ele rasga horizontes tanto para nós como para aqueles que amamos. Aqueles que não nos entendem, nem percebem o ambiente que amamos, tornar-se-ão mais ricos perante o vislumbre da nossa felicidade, perante a abundância dos frutos que Deus fará brotar na nossa vida e perante a alegria de conhecer e privar de perto com alguém que ousou ir contra a corrente e realizar plenamente a sua vida.  

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Julho 2020 - nº 704
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