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03 abril 2020

Nigéria: Pregar sob o terror do Boko Haram

Tempo de leitura: 7 min
Três novos sacerdotes exercerão o ministério pastoral num dos lugares mais perigosos do mundo para os católicos, a região da Nigéria onde o Boko Haram semeia o terror.
Xaquín López
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A Igreja Católica da Nigéria é uma das mais castigadas do mundo devido aos ataques do grupo jiadista Boko Haram. O Catolicismo é minoritário na metade norte do país mais populoso da África. O problema acentua-se na região nordeste, onde o grupo étnico predominante, o Kanuri, é cem por cento muçulmano.

Neste contexto de assédio e destruição, qualquer boa notícia da comunidade cristã é celebrada como uma vitória. Por esta razão, o passado dia 16 de Janeiro foi uma data marcante na Catedral de Maiduguri, capital do Estado de Borno. Três jovens foram ordenados padres numa cerimónia solene presidida pelo bispo, Oliver Dashe.

Centenas de pessoas começaram a chegar a Saint Patrick’s no início da manhã. As medidas de segurança postas em prática eram fortes. Um bunker de sacos de terra protegia a única entrada aberta para o recinto. Após dez anos de cerco, os controlos de segurança fazem parte do protocolo diário.

A Catedral de Maiduguri é um moderno edifício, presidido por uma torre visível a quilómetros de distância. Ocupa um terreno equivalente a um campo de futebol numa área muito movimentada da cidade.

Todos os ingredientes de uma celebração católica africana estiveram presentes naquele dia no templo. Uma banda tradicional, com tambores e instrumentos de madeira, dividia o espaço com uma orquestra de estilo ocidental acompanhada por um tambor, teclado e saxofone. Cada orquestra era acompanhada por um coro, composto maioritariamente por mulheres uniformizadas com um vestido de estilo nigeriano em tons vermelhos e amarelos.

Um dos momentos mais marcantes da celebração deu-se depois do rito da ordenação. A assembleia aplaudiu com entusiasmo enquanto os coros cantavam hinos religiosos em língua haúça. Espontaneamente, os fiéis organizaram uma procissão festiva e os participantes, dançando, aproximaram-se do altar para receber a bênção dos neo-sacerdotes.

Compromisso contra o terror

A barbárie do Boko Haram contra os católicos começou, precisamente, na cidade de Maiduguri em 2010, poucos meses depois de a Polícia nigeriana ter executado o seu líder, o imã salafita Mohammed Yusuf. Desde essa data até 2016, as estatísticas da Diocese de Maiduguri assinalam cinco mil católicos mortos. É provável que, actualmente, o número tenha duplicado. Deve-se acrescentar ainda a destruição de mais de 350 templos e casas paroquiais, algumas delas em mais de uma ocasião.

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O P. Peter Uchebo (esq.) durante a entrevista com o autor do artigo (Fotos: Sonsoles Meana)

Um relatório da diocese de Maiduguri, que inclui os Estados de Borno, Yobe e o Norte de Adamawa, pormenoriza que 22 das 40 paróquias foram atacadas ou destruídas pelo Boko Haram.

«A minha igreja foi queimada pelo Boko Haram», diz o P.e Peter Uchebo. O ataque realizou-se em Outubro de 2015 na aldeia de Bahuli, a norte do Estado de Adamawa. «Os rebeldes chegaram à noite de mota, bradando a Alá. Ouvi os gritos na casa paroquial. Um funcionário disse-me que tínhamos de correr porque senão seríamos assassinados. Entrei na igreja, tomei o Santíssimo, rezei e fechei o templo. As pessoas já estavam a fugir para as montanhas. As mães corriam com os bebés às costas e dando as mãos às crianças. Quando estávamos a salvo, pudemos ver os insurgentes a invadir o templo e a incendiá-lo. Quatro horas depois, regressámos e a igreja estava em cinzas. As pessoas choravam e diziam que pagariam o trabalho de reconstrução.»

Hoje, o P.e Uchebo é pároco na Igreja de Saint Mary’s em Maiduguri, que também tem uma escola para mais de 600 alunos.

No domingo seguinte à ordenação sacerdotal, o P.e Clement Yaga presidiu à primeira missa em Saint Hillary, no bairro de Polo, um dos mais perigosos de Maiduguri. Ele saúda-nos na sacristia enquanto um acólito o ajuda a paramentar-se. «Sinto-me como um herói. Há nove anos isto era um sonho para mim. Estou muito nervoso e feliz por poder presidir a minha primeira missa. O Boko Haram não foi capaz de destruir a nossa fé, nem tem a nossa felicidade», sublinha o neo-sacerdote.

Os outros dois novos sacerdotes, Fidelis Mburema e Moisés Zawa, foram designados para paróquias no interior do Estado de Borno. A sua missão é muito mais arriscada: a nova estratégia do Boko Haram é bloquear as estradas e assaltar as carrinhas e os carros que circulam. Os cristãos são raptados de imediato, enquanto os viajantes muçulmanos são autorizados a seguir a sua viagem. Na pior das hipóteses, os reféns são executados depois de um longo e doloroso cativeiro. Foi o que aconteceu a onze cristãos mortos em Dezembro de 2019.

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Grupo de rapazes numa rua de Maiduguri (Foto: Sonsoles Meana)

Passada uma década, Maiduguri permanece sitiada pelos rebeldes do Boko Haram, embora tenha recuperado uma normalidade aparente e frágil. As pessoas que têm de deslocar-se pelo estado continuam a acudir à estação de autocarros da cidade para apanhar uma carrinha da empresa local, a Borno Express. «Não nos vamos esconder», disse-nos um religioso durante a confraternização improvisada no pátio da catedral, depois da ordenação dos novos padres. Muitos dos presentes estavam preocupados com o destino dos novos presbíteros, porque todos estão cientes do perigo, e a única dúvida que tinham era se aquela tinha sido a ordenação de heróis ou de mártires.

 

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Maio 2020 - nº 702
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