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30 abril 2020

A América Latina prepara-se para o pior

Tempo de leitura: 7 min
Sem sistemas de saúde à altura sequer do dia-a-dia e sem camas, a América Latina enfrenta como pode a covid-19. Entre os países mais vulneráveis está evidentemente a Venezuela, ameaçada por uma «emergência humanitária complexa».
Fernando Sousa
Jornalista
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A América Latina respondeu com alguma celeridade à pandemia que assola o mundo e que também não a poupou. Mas isto em geral. Porque, em particular, um país ou outro, como o Brasil, deu mostras de uma insensibilidade de bradar aos céus quando não de burrice.

Um dos primeiros a reagir à infecção foi a Argentina, no começo de Março, e o último, o Haiti, onde se juntam tragicamente todas as calamidades. Entre um e outro, os governos decretaram medidas de todos os calibres, como a proibição de ajuntamentos de mais de 250 pessoas, quarentenas, restrição de movimentos, suspensão de aulas, e mesmo o fecho de fronteiras terrestres e aéreas. Aqui ou ali, um recolher obrigatório entre as nove da noite e as cinco da manhã.

Num dos casos, o da Bolívia, o Governo teve de endurecer as medidas de excepção por as pessoas terem recebido mal o «estado de emergência sanitária», com protestos e confrontos. Isto enquanto a autoridade eleitoral adiava a eleição presidencial agendada para o dia 3 de Maio.

Casos irritantes

O Brasil e o México ficarão na História como casos inauditos de negação e de resistência ao óbvio. No primeiro, o presidente Bolsonaro, tratando a pandemia como uma simples «gripezinha» e clamando contra o ministro da Saúde, Henrique Mandetta [entretanto demitido], e a «histeria» social, recusou adoptar todas as medidas já em vigor nos países infectados e pediu às pessoas que fossem trabalhar. No segundo, Andrés Obrador não foi além de minguadas medidas de contingência como a limitação do trânsito fronteiriço com os Estados Unidos, a suspensão das aulas entre 20 de Março e 20 de Abril e a proposta de jornadas de distância social sã. Já o mundo andava alvoroçado contra a covid-19.

De todos os países da região, Brasileiros e Mexicanos eram os que somavam até há dias mais casos positivos, seguidos do Panamá, República Dominicana e Colômbia, de acordo com o WorldMeter, números que já estarão desactualizados – para muito pior. O número de doenças confirmadas e de vítimas mortais aumentava todos os dias. Dos restantes, em Cuba, Costa Rica, Uruguai, Honduras, Bolívia, Venezuela, Guatemala e Paraguai, por esta ordem, o número de infectados não tinha a mesma expressão, mas também crescia a caminho do desastre social, um desastre anunciado por um mundo de carências de base.

Maus sistemas

É um desastre anunciado, pelo aumento diário de positivos e de mortos à porta de sistemas de saúde prestes a implodir. Se a congestão dos hospitais públicos na América Latina já é comum e as pessoas, desde logo as mais pobres, têm muitas vezes de partir os mealheiros para pagar uma consulta, a situação agravou-se com o surto.

As baixas despesas com a saúde e a relativa escassez de camas nos hospitais são indicadores de que a maioria dos Estados da região não garantem o acesso universal aos cuidados básicos e arriscam-se a colapsar na luta contra o novo coronavírus, escreve um corpo de correspondentes da International Press Service (IPS). Dos 630 milhões de latino-americanos e caribenhos, 30 por cento não têm acesso regular aos serviços de saúde dos seus países por motivos de rendimento ou geográficos. O número coincide com a pobreza da região que a Comissão Económica para a América Latina (CEPAL) calcula em 185 milhões de pessoas, incluindo 68 milhões em pobreza extrema.

A média regional das despesas com o sector é menos de quatro por cento do seu produto interno bruto. Os governos regionais comprometeram-se em 2014 a aumentar o valor, mas não cumpriram. Só Cuba, Costa Rica e o Uruguai é que o fizeram. Os países mais industrializados gastam oito por cento do seu PIB com a saúde. Quer dizer, os latino-americanos têm de recorrer às poupanças, isto quando as têm, para pagar do bolso uma simples ida ao médico, sendo os casos mais graves os da República Dominicana, Guatemala e Venezuela, o país mais ameaçado pela pandemia.

Falta de camas

Outro mau prenúncio é o número de camas disponíveis para fazer face à doença. A média regional é de 27 por 10 mil habitantes. As destinadas aos cuidados intensivos são em número ainda mais reduzido. O país aqui mais bem preparado parece ser o Chile, com 22 camas por 10 mil habitantes. A progredir sem barreiras a covid-19, os países mais ameaçados serão os que neste caso têm menos recursos como a Bolívia, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Paraguai, Haiti e Venezuela segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPS), a filial local da Organização Mundial de Saúde.

Para já, para já o que inspira mais preocupação é a Venezuela. Já arrombada pela crise política e económica, está à beira do colapso. À falta de estatísticas oficiais de saúde, que ali faltam há décadas, valem os números das organizações não governamentais que afirmam que está a um passo do que chamam de uma «emergência humanitária complexa». O país está no fundo de todas as tabelas quanto a gastos com a saúde e número de camas. A Médicos pela Saúde, uma ONG, diz que no ano passado houve falhas de electricidade em 63 por cento de 40 grandes hospitais e falta de água em 78 por cento.

«Estamos em último lugar na lista da OPS sobre o índice de preparação de 33 países do hemisfério para enfrentar a covid-19», disse o ex-ministro da Saúde, José Oletta, à IPS.

 

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