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25 junho 2020

Educação com a «marca Comboni»

Tempo de leitura: 13 min
Desde o início da evangelização do Sudão, a educação tem sido uma prioridade para os missionários. E, actualmente, continua a sê-lo para a Igreja Católica no país. Junto de cada paróquia ou comunidade religiosa não costuma faltar um estabelecimento de ensino, conhecidos como Comboni Schools.
Enrique Bayo
Missionário comboniano
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Dirigíamo-nos a uma escola de formação profissional e íamos evitando veículos no meio de um trânsito emaranhado e com um calor asfixiante. O P.e Jorge Naranjo tinha dúvidas sobre a localização exacta do estabelecimento de ensino e perguntou em árabe a um transeunte. Ouvir o nome de Comboni no meio da conversa causou-me estranheza. «Mas não vamos a um estabelecimento dos Salesianos?» «Sim, mas no Sudão todas as escolas católicas são conhecidas como Comboni Schools», respondeu-me. E assim é. Muito poucos sudaneses sabem que São Daniel Comboni foi o primeiro bispo do então vicariato da África Central, com sede em Cartum, mas todos identificam os estabelecimentos educativos católicos com o seu nome.

Em 1867, Comboni elaborou o seu Plano para a Regeneração da África, centrado na educação integral das pessoas, e organizou numerosas escolas no Sudão. Contudo, Comboni morreu, aos 50 anos, em 1881, e quatro anos depois Mohammed Ahmed Al-Mahdi [1844-1885] fundou um Estado islâmico no país que arrasou com toda a presença cristã. Depois da derrota [dos seguidores] de Al-Mahdi em 1898 pelas tropas inglesas, os missionários regressaram ao Sudão para continuar a obra educativa segundo a visão de Comboni. 

Primeiros estabelecimentos

Em 1900, abrem no bairro de Masalma, em Omdurman, as duas primeiras escolas após a revolução islâmica: a Comboni Boy’s e a St Joseph Girls’ School, fundadas pelos Missionários e as Missionárias Combonianas, respectivamente. Outras fundações se seguiram por todo o território sudanês. Hoje, apenas na arquidiocese de Cartum, mais de 26 mil alunos estudam em 59 Comboni Schools.

Os estabelecimentos de Omdurman continuam activos. A escola feminina chama-se agora Comboni Girls’ School, e neste ano lectivo conta com 160 alunas na pré-primária, 915 na primária e 97 na secundária. A sua directora, a missionária comboniana Ir. Cristina Maestroni, considera-a uma escola aberta e muito apreciada «a julgar pela avalancha de pedidos de admissão que recebemos cada ano, embora os cristãos sejam poucos porque vivem nos subúrbios de Omdurman e é muito difícil que possam chegar ao estabelecimento de ensino». Algo parecido sucede com a vizinha escola masculina, dirigida pelo comboniano sudanês P.e Jervas Mayik. «Para tentar paliar este problema, a paróquia conta ainda com três grandes escolas nos subúrbios sob a responsabilidade do pároco, P.e Salvatore Marrone. Nelas, 97% dos alunos e alunas são cristãos. Nasceram como escolas de emergência nos anos 80, quando a guerra no Sul provocou um enorme fluxo de sulistas rumo a Cartum e Omdurman, mas, pouco a pouco, foram sendo consolidadas e mais bem equipadas. Actualmente, acolhem 1424 meninas e meninos de comunidades muito diversas. «As aulas são ministradas apenas em árabe», explica o P.e Marrone, «porque é a língua local que permite unir as comunidades. Quando se escolhe outra língua, incluindo o inglês, estamos a separar as pessoas, marginalizando uns em benefício de outros. O árabe é também a língua litúrgica.» 

Comboni College

O Comboni College de Cartum (CCK, na sigla em inglês) é um magnífico exemplo do labor educativo da Igreja no Sudão, embora também o pudessem ser outros estabelecimentos, como a escola de excelência Sisters’ School.

O CCK começou como uma escola secundária de qualidade. O governo colonial britânico, num documento de 1929, autorizou o novo estabelecimento apenas para alunos não sudaneses. A inauguração realizou-se nesse mesmo ano com 15 estudantes.

 

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Alunos do secundário do CCK numa aula de Religião Católica (Foto Carla Fibla García-Sala) 

A escola teve um êxito imediato, de maneira que o escol sudanês começou a pressionar o Governo inglês para que permitisse a inscrição de alunos sudaneses. Os Britânicos cederam em 1936, e os sudaneses entraram em massa: muitos deles fariam parte da classe dirigente que levaria o Sudão à independência em 1956.

O seu actual director, o P.e Norberto Stonfer, recorda que «apenas no CCK chegou a haver 24 combonianos, padres e irmãos, dedicados inteiramente ao ensino. Proporcionavam uma formação muito sólida. Foram os anos de ouro que forjaram a “marca Comboni” que ainda hoje perdura». Durante muito tempo, os resultados dos estudantes do CCK foram os melhores do país e os seus alunos encontravam trabalho imediatamente. Um exemplo do apreço pelo Comboni College ocorreu em 1964, quando o Governo sudanês decretou a expulsão de todos os missionários do país, mas excluiu os que trabalhavam no Norte. Para o P.e Norberto, não há dúvida de que «foram os antigos alunos do CCK os que intercederam perante o Governo para evitar a expulsão. Eles salvaram a missão».

No ano lectivo 2019-2020, a escola acolhe 1100 alunos que podem estudar em árabe ou em inglês, embora seja um desafio encontrar professores sudaneses com um bom nível nesta língua. Em 2014 abriu-se uma secção feminina com 300 alunas para oferecer a possibilidade de continuar os estudos do secundário em inglês a adolescentes sul-sudanesas que fugiram do país vizinho desde 2013, por causa da guerra civil. 

Escola primária

Em 1949, os Missionários Combonianos iniciaram uma escola primária associada do CCK numa parcela contígua. Actualmente, acolhe 1150 alunos em 23 turmas, com uma média de 50 alunos por turma. O seu director, o P.e Diego Dalle Carbonare, explica-nos que é uma autolimitação para ganhar em qualidade de ensino, «porque nas escolas sudanesas, a média por turma é de 70 ou 80 alunos».

Um terço dos alunos são cristãos – na sua maioria sul-sudaneses – e os restantes são muçulmanos. A disciplina de Religião, além de obrigatória, é a que mais pontos dá no exame oficial no final da primária. Nas escolas católicas pode-se escolher entre o Islão ou o Cristianismo, mas nas demais escolas a única opção é o Islão. «É uma maneira de os obrigar a estudar o Alcorão, e além disso fazem exames sobre ele, com o que muitos cristãos são forçados de um modo mais ou menos patente à conversão», diz o P.e Diego. Todavia, é possível que as coisas mudem em Setembro de 2020 com a introdução do novo currículo académico, mais universal e aberto ao diálogo inter-religioso. 

Única universidade católica

A partir de 1999, um grupo de professores do CCK insistiu com o P.e Beppino Puttitano, então director do CCK, para ampliar a oferta de cursos. O missionário, que chegou ao Sudão em 1959 e que sempre trabalhou em instituições de ensino, não se via com forças suficientes, com quase 70 anos, para iniciar um projecto dessa envergadura, mas com o apoio de um grupo de sudaneses muçulmanos e do cardeal Gabriel Zubeir acabou por decidir-se. Nascia assim o embrião do primeiro – e por enquanto único – estabelecimento de ensino superior católico do Sudão.

 

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O P. Jorge Naranjo conversa com alguns alunos do Comboni College of Science and Technology (Foto Carla Fibla García-Sala)

Desde o início, o Comboni College of Science and Technology (CCST) tem estado aberto a rapazes e raparigas de qualquer proveniência e religião, e brilha como centro de diálogo e encontro inter-religioso. É a única universidade que dispõe de capelas e de salas para as orações dos muçulmanos. Em 2013 passou a ter como director-geral o comboniano espanhol P.e Jorge Naranjo, que está a potenciar o CCST com novas propostas formativas, uma incubadora de empresas e instalações mais modernas. Actualmente, proporciona quatro graus universitários, dois cursos de especialização trienais, cursos de formação contínua de italiano, espanhol e inglês, técnicas de ensino, informática e um curso pioneiro no Sudão sobre cuidados paliativos para profissionais de saúde. 

Formação profissional

Em 1983, os Salesianos abriram uma pequena escola técnica em Cartum. Hoje, é um renomado estabelecimento de formação profissional que acolhe 423 alunos dos 14 aos 21 anos em diferentes cursos: carpintaria, alvenaria, informática, electricidade, metalurgia, mecânica e soldadura. A formação é ministrada por 40 mestres e professores, dos quais apenas dois são mulheres. Há algumas estudantes no curso de informática, mas o director, o P.e Sudhir Parmar, um indiano de 42 anos, acredita que o Governo lhes permitirá inscrever raparigas em todos os cursos no ano lectivo 2020-2021.

 

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O P. Sudhir Parmar e Mohaned o aluno mais novo da escola dirigida pelos salesianos em Cartum (Foto Carla Fibla García-Sala) 

Encontramos oficinas enormes, com jovens em plena actividade. O P.e Sudhir afirma, com orgulho, que «a formação técnica os ajuda a encontrar emprego e a contribuir para o desenvolvimento do país. Há profissionais que se formaram connosco a trabalhar por todo o Sudão, outros foram para o estrangeiro». 

Escolas de emergência

Mas nem todos os projectos educativos estão na capital. Três combonianos africanos integram a comunidade de Kosti: Zimba Brighton (zambiano), Franck Mandozi (congolês) e Oswal Abakar (sul-sudanês). A sua paróquia está próxima do Sudão do Sul, e desde o início da guerra civil neste país, milhares de refugiados chegaram à cidade. «As escolas locais não podiam acolher tantas crianças, e como Igreja – diz o P.e Mandozi – envolvemo-nos na sua educação, abrindo as portas das nossas instalações e criando escolas de emergência.» Não apenas a paróquia central de Kosti se transformou em escola, também as seis estações secundárias da cidade. Visitámos algumas com o P.e Brighton, que nos explicou as dificuldades para encontrar professores e mantê-los com o pobre salário que podem oferecer-lhes.

Rapazes e raparigas de diferentes idades acotovelam-se nas pequenas salas onde têm aulas. O missionário zambiano esclarece-nos que a idade não é o critério para constituir as turmas, mas sim o nível de estudos dos alunos. Uma das professoras, Noela Adoy, não considera que isso represente um problema, «é muito mais grave a falta de material escolar, sobretudo livros de actividades e de exercícios que sirvam de apoio aos professores». Contudo, é louvável o esforço logístico que a Igreja está a fazer em Kosti para dar uma resposta no meio desta emergência. 

Novas presenças

Embora as Missionárias e os Missionários Combonianos tenham sido fundadores da Igreja no Sudão, hoje em dia a sua presença está a diminuir. Por isso, muitas das grandes escolas que fundaram passaram a ser geridas pela Igreja local ou por outras congregações religiosas.

Em El Obeid, as Irmãs Canossianas gerem desde 2007 uma Comboni School, que continua com mais de 1000 alunos. A sua directora é a ugandesa Ir. Cissy Makagiri: «Chegámos ao Sudão em 2000, ano da canonização de Bakhita, a primeira santa sudanesa, canossiana como nós. O próprio João Paulo II no-lo pediu: “Não podeis deixar Bakhita sozinha, tendes de ir para lá.” E aqui estamos, felizes por podermos ensinar no país da nossa santa.»

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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