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27 agosto 2020

Salvar vidas

Tempo de leitura: 13 min
Há dez anos, a Igreja Católica fundou a Talitha Kum, uma rede internacional de religiosas que combate o tráfico humano, considerado a escravidão do século XXI.
Jairo García Riveros
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O tráfico de pessoas é um fenómeno complexo e multidimensional, que afecta milhões de pessoas e toda a sociedade. As vítimas do tráfico são principalmente os mais pobres e todos aqueles que, por diferentes circunstâncias, se podem definir como os últimos, os descartados da sociedade. E, entre eles, as mulheres e as crianças são as vítimas principais, pois cerca de 72% das pessoas traficadas são mulheres e meninas e a percentagem de vítimas infantis mais do que duplicou de 2004 a 2016, chegando a perto de 30% de acordo com os dados do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC, na sigla em inglês).

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, afirmou na mensagem para o Dia Mundial contra o Tráfico de Pessoas do ano passado – que se comemora no dia 30 de Julho – que o tráfico humano floresce graças ao «conflito armado, ao deslocamento, às mudanças climáticas, aos desastres naturais e à pobreza, que exacerbam as vulnerabilidades e o desespero». E o português sublinhava que «as vítimas mais comuns são traficadas para exploração sexual» e também «para trabalhos forçados, recrutamento como crianças-soldados e outras formas de exploração e abuso».

Sendo um crime sem fronteiras, o tráfico humano necessita de ser combatido globalmente. Esse é o objectivo da organização Talitha Kum, a rede internacional da vida consagrada contra o tráfico de pessoas. O projecto nasceu em 2010 de uma intuição missionária da União Internacional das Superioras-Gerais e hoje apresenta-se como uma rede mundial que coordena os esforços dos institutos de vida consagrada empenhados no combate ao tráfico de pessoas. Talitha Kum é uma expressão que se encontra no Evangelho de Marcos (Mc 5, 41). A palavra Talitha Kum – que traduzida do aramaico significa «Menina, eu te digo, levanta-te» – foi escolhida pela rede para definir a sua identidade, porque expressa o poder transformador da compaixão e da misericórdia e desperta o desejo profundo da dignidade e da vida, ferida com tantas formas de exploração.

Talitha Kum é uma rede de redes, constituída por 44 redes nacionais dirigidas por religiosas, mas que envolve todas as pessoas de boa vontade que partilham a visão e os princípios destas mulheres consagradas que lutam contra o tráfico humano. Em apenas dez anos conseguiu coordenar 52 redes de religiosas, presentes em mais de 90 países de todos os continentes. No trabalho estão envolvidos dois mil agentes pastorais, foram assistidas mais de quinze mil vítimas do tráfico e mais de duzentas mil pessoas foram abrangidas através de acções de prevenção e sensibilização da rede.

 

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A rede Talitha Kum assistiu, desde a sua fundação, mais de quinze mil vítimas do tráfico e mais de duzentas mil pessoas foram abrangidas através de acções de prevenção e sensibilização da rede internacional de religiosas (Foto Talitha Kum) 

Talitha Kum presta apoio às vítimas e sobreviventes do tráfico de pessoas, centrando o seu trabalho na prevenção, protecção, reintegração social e reabilitação de sobreviventes. Promove, igualmente, acções que reduzam as causas sistémicas deste flagelo, favorecendo o trabalho em rede entre as pessoas consagradas e outras organizações sociais a nível nacional e internacional. Realiza, ainda, acções proféticas e denuncia as causas da exploração de vidas com fins económicos e o tráfico de pessoas. Todavia, promove campanhas para a mudança de mentalidade e de hábitos.

As actividades e projectos da rede destinam-se a todos aqueles que se sentem lesados na sua dignidade e estão privados de liberdade, independentemente do seu estilo de vida, etnia, religião, condições socioeconómicas e orientação sexual. Os membros da Talitha Kum reconhecem e testemunham os valores cristãos, o diálogo no respeito das diferentes tradições religiosas e dos que não têm credo.

Histórias trágicas

As histórias das vítimas de tráfico humano que a rede Talitha Kum ajuda a resgatar expressam bem a vida de desespero, abandono e pobreza dessas pessoas, mas também a sua força e coragem. As vítimas, muitas vezes enganadas com falsas promessas por pessoas sem escrúpulos, que procuram somente o lucro, entram em processos de exploração dos quais é, geralmente, muito difícil sair. Assim o percebemos nas histórias de Jessie e Somchai, duas pessoas que as religiosas da rede ajudaram a resgatar e a integrar na sociedade.

Jessie é uma jovem do Uganda. Trabalhava numa indústria química do seu país. A situação alterou-se quando adoeceu por causa de uma alergia às substâncias que utilizava e teve de deixar o trabalho. «Comprei um pequeno quiosque para vender comida aos transeuntes. Tudo corria bem até que fui enganada por uma agência, que me ofereceu trabalho no Médio Oriente. Acreditava que aquela fosse uma grande oportunidade, mas, em vez disso, encontrei-me num contexto de escravidão doméstica. Trabalhava sem descanso e não recebia nem comida nem pagamento. Não pensava em nada mais a não ser escapar daquela terrível situação», relata.

Querendo sair desse contexto de exploração, Jessie tentou e conseguiu fugir: «Durante a primeira tentativa de fuga fui violentada por um taxista ao qual tinha pedido ajuda. Mas o desespero levou-me a fugir novamente e, por sorte, outro taxista acompanhou-me até à embaixada. Foi o começo de uma nova vida.»

Jessie entrou em contacto com umas religiosas católicas que a acolheram na sua casa: «As irmãs cuidaram de mim, deram-me comida, roupa e dignidade. Um dia inquiri junto das irmãs sobre a possibilidade de poder retornar a casa: muitas vezes pensava na felicidade que me dava o pequeno quiosque que eu possuía poucos anos antes.» A jovem ugandesa conta que as religiosas a ajudaram a obter os documentos e pôde regressar ao seu país. «Hoje, vivo no Uganda e as religiosas continuam a ajudar-me na minha preparação laboral e na reinserção social», assegura Jessie.

 

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Participantes num dos cursos de formação organizados pela rede (Foto Talitha Kum) 

Somchai, da Tailândia, tem agora 40 anos. Vivia com a família num bairro-de-lata e a sua vida nunca foi fácil. Não pôde estudar, porque os seus pais eram pobres. Não tinha documentos e sofria de esquizofrenia. Ganhava a vida com a venda de lixo. Quando lhe ofereceram trabalho num barco de pesca, aceitou a proposta, pois estava cansado de tanta pobreza. «Eu sonhava viajar pelo mundo. Infelizmente, encontrei-me numa situação pior do que antes: comia pouco e não podia repousar. Mesmo o pagamento prometido jamais chegou. Depois de alguns meses, fui abandonado numa ilha da Indonésia. Não entendia a sua língua, sofri muito», conta. Somchai tentou fugir dessa ilha-prisão, mas foi somente graças à ajuda da Cáritas e, depois, da rede Talitha Kum, que conseguiu reconquistar a liberdade e retornar à Tailândia.

«As religiosas ajudaram-me a obter os documentos que eu nunca tinha tido e acompanharam o meu caso, ajudaram-me a conseguir o ressarcimento por danos e a construir uma nova casa, onde vivo com os meus pais. Retomei o meu antigo trabalho e as irmãs continuam a apoiar-me para viver com dignidade, não obstante a minha doença», sublinha.

A covid-19 amplia e agrava as injustiças

As Nações Unidas alertaram para o facto de que a actual crise pode tornar as vítimas de tráfico de seres humanos ainda mais vulneráveis, uma vez que a pandemia restringe as deslocações, absorve recursos e reduz os serviços.

Na mesma linha, a Ir. Gabriella Bottani, missionária comboniana e coordenadora internacional de Talitha Kum desde 2015, expressou que a covid-19 «funciona como uma lente que amplia e agrava as injustiças e as vulnerabilidades de milhões de pessoas em todo o mundo. A pandemia acelera processos, desencadeando um efeito disruptivo que exige unir mais o compromisso em prol do cuidado pelo meio ambiente e pelas pessoas (cf. Laudato Si’ 48), promovendo caminhos reais de conversão e mudança». A religiosa afirma que, de acordo com os relatórios das diferentes redes mundiais, os primeiros dados indicam «o visível agravamento das vulnerabilidades e o aumento exponencial de pessoas frágeis, por causa das condições de extrema pobreza. Os grupos que mais sofrem são as mulheres, as crianças, as minorias étnicas, os cidadãos estrangeiros, em particular os que não têm documentos e os povos indígenas». E a religiosa acrescenta que «o principal factor que, juntamente com a disseminação do vírus, contribuiu para essa vulnerabilidade foi a perda de trabalho em vários sectores de produção e serviços: doméstico, assistência a idosos, restaurantes, turismo, indústria de transformação e, principalmente, trabalhos informais da economia de subsistência. Houve também um aumento de preços para as necessidades básicas. Tudo isso causou fome, insegurança habitacional, endividamento e muita mobilidade humana».

 

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A Ir. Gabriella Bottani, missionária comboniana e coordenadora internacional de Talitha Kum desde 2015 (Foto Talitha Kum) 

A comboniana sublinha que as irmãs continuaram o seu serviço nas casas abrigos, onde a covid-19 aumentou a ansiedade, a insegurança e a precariedade. Nesse contexto, «as irmãs buscam reorganizar e manter vivo um espaço de esperança e cuidado para todos. A reorganização da vida é importante, novos protocolos de higiene e distância social foram introduzidos. Os espaços vazios deixados pela ausência de voluntários são preenchidos pela criatividade. As casas têm de lidar com o aumento exagerado das despesas, perante a redução de doações».

«Em vários casos, as máquinas de costura nos abrigos tornaram-se oficinas de produção de máscaras, tanto para necessidades internas quanto para serem distribuídas a grupos vulneráveis, juntamente com cabazes de alimentos e informações sobre padrões de higiene a serem mantidos», explica a Ir. Gabriella. E acrescenta que, apesar das dificuldades e riscos, «muitas irmãs se juntaram a outros grupos para a distribuição de alimentos e apoio financeiro àqueles que foram abandonados à própria sorte, mesmo pelos traficantes. Outras disponibilizaram-se para oferecer assistência espiritual e psicossocial por telefone, aprendendo a usar plataformas online

A irmã comboniana sublinha que a covid-19 «introduziu uma mudança que, certamente, não será resolvida a curto prazo; isso exige que todos, especialmente aqueles que desempenham papéis de liderança, tenham tempo para repensar o presente e o futuro. Este é um momento privilegiado para gerar o novo». E por esse motivo, conclui a religiosa, «é urgente ressignificar o que estamos a experimentar, encontrar uma chave de leitura que nos abra ao diferente, ao novo, ao inédito, sem medo. Essa é a esperança para a qual somos chamadas».

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EDIÇÃO
Setembro 2020 - nº 705
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