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17 julho 2020

Vírus Climático

Tempo de leitura: 6 min
Este vírus é climático. E talvez seja este o momento de dizermos juntos – «Queremos a esperança.» –, identificar os sinais dessa esperança e ler, ainda, os sinais dos tempos para nos prepararmos em relação ao que vem a seguir.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Em 25 de janeiro de 2019, a jovem Greta Thunberg dirige-se aos ricos e poderosos que se encontravam em Davos, na Suíça, para o Fórum Económico Mundial, com as seguintes palavras: «Eu não quero a vossa esperança... eu quero que entrem em pânico. Eu quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias. Eu quero que actuem. Eu quero que actuem como fariam numa crise.»

O coronavírus trouxe-nos o pânico e mostrou que numa crise imediata, os políticos e agentes económicos mais influentes actuam rápido, alterando os nossos ritmos de vida e o modo de fazer as coisas de um momento para o outro, algo sem precedentes na história humana.

Este vírus é climático. E talvez seja este o momento de dizermos juntos – «Queremos a esperança.» –, identificar os sinais dessa esperança e ler, ainda, os sinais dos tempos para nos prepararmos em relação ao que vem a seguir. 

O coronavírus SARS-CoV-2 altera o clima

Sabemos que esta estirpe do coronavírus afecta, sobretudo, o aparelho respiratório, mas também um dos poluentes que emitimos para a atmosfera, o dióxido de azoto (NO2). De acordo com as observações da NASA (1), na China, os níveis deste poluente baixaram drasticamente em apenas um mês desde que as autoridades chinesas condicionaram os transportes no final de Janeiro.

 

 Panao

Imagens de NASA Earth Observatory images, por Joshua Stevens, usando dados de um Copernicus Sentinel 5P modificados e processados pela Agência Espacial Europeia

Há quem se questione sobre a relação que o coronavírus tem com as alterações climáticas. Mas a resposta nada tem a ver com uma relação directa, mas o facto do vírus ter induzido a uma acção política global, com a consequente mudança local dos estilos de vida das pessoas.

O facto de vivermos no Antropoceno significa que esses estilos de vida afectam os ecossistemas terrestres. Interessante é o facto de este vírus minúsculo ter induzido uma rápida acção política, ao passo que as alterações climáticas, um problema maiúsculo, não foram capazes de o fazer, apesar das dezenas de COPs que se organizam desde 1992. Mas, enquanto as repercussões de um vírus são semelhantes a cair de um skate descontrolado, as alterações climáticas são como estar dentro de um comboio prestes a descarrilar. O primeiro exige acção imediata, mas se nada se fizer em relação ao segundo, o efeito é mais devastador.

Qualquer crise induz um tempo de mudança. Esta pandemia mostrou como somos capazes de mudar os nossos ritmos e estilos de vida. A questão está em fazer desta mudança algo positivo e duradoiro. E, de certa forma, isso já está a acontecer. 

O distanciamento que aproxima

Em 1996, Adrian Bejan, professor na Universidade de Duke, nos EUA, propunha uma teoria para explicar como a evolução de tudo no mundo depende da facilidade com que geramos movimento. Se tudo concorre para facilitar a fluência daquilo que se move, a melhor forma deste vírus se propagar seria manter o movimento entre as pessoas. Daí que a decisão de ficar em casa seja a mais correcta por criar resistência ao movimento e, natural e fisicamente, à propagação da doença. Mas o resultado desta decisão necessária é o distanciamento físico e social.

O distanciamento físico e social confina as pessoas à sua casa e a ficar junto da família mais próxima, ou sozinhas. No primeiro caso, o facto de estarmos mais tempo juntos revela-se um desafio aos relacionamentos, mas o resultado final acaba por ser a proximidade.

No segundo caso, se uma pessoa não desenvolveu ao longo da sua vida a capacidade para a solitude, o risco de entrar em depressão é elevado. Porém, graças às novas tecnologias de comunicação, com ferramentas como o Zoom, Webex, Skype ou FaceTime, é possível entrar num contacto semi-presencial com os outros, estejam esses perto ou longe. Podemo-nos ver, ainda que não nos possamos tocar. E este passo de aproximação global virtual causado pelo distanciamento social terá repercussões profundas no futuro.

A repercussão mais evidente será a diminuição das viagens. E se usamos menos os transportes, também poluímos menos. Depois, se a proximidade pode afectar os mais vulneráveis a esta doença, significa que a procura por espaços amplos aumentará. E não será a natureza, com as suas montanhas, florestas, praias, aquela que oferece os espaços mais amplos existentes neste planeta? Ainda, se não é conveniente andarmos de transporte, a tendência para realizar caminhadas será, também, maior, abrindo-nos uma oportunidade insólita de estabelecer um relacionamento diferente com a natureza.

Assim, não é somente o clima exterior que é afectado, mas também o clima interior, por vezes perturbado com os turbilhões gerados pela Grande Aceleração impulsionada pelo desenvolvimento tecnológico pré-pandemia. Esse continuará a existir, mas coloca-nos diante de uma escolha. A escolha entre o reencontro com os espaços abertos que abrem a mente, ou o planeta virtual onde nos encontrados confinados a um ecrã. A escolha é nossa, mas, também, as consequências dessa escolha. Que Deus nos inspire a escolher bem.

(1) https://earthobservatory.nasa.gov/images/146362/airborne-nitrogen-dioxide-plummets-over-china

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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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