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25 setembro 2020

Missão é encontro

Tempo de leitura: 6 min
O Ir. Pablo Ostos percorre a pé os caminhos da missão de Chitima, em Moçambique. Uma oportunidade para ter encontros inesperados e para partilhar a vida e a alegria do Evangelho.
Pablo Ostos
Missionário comboniano
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Nasci em Sevilha (Espanha) e tenho 51 anos. Venho de uma família cristã e fiz a secundária numa escola dos Irmãos de la Salle. Na faculdade estudei Engenharia Agrícola. Apesar de ter crescido numa família católica, houve uma altura em que já não estava envolvido na vida da Igreja, mas depois comecei a perceber que faltava algo para me sentir feliz.

Fiz uma experiência no Peru com crianças de rua e, então, decidi voltar para a Igreja. Tinha 28 anos. O contacto com essa realidade fez-me descobrir a presença de Deus nos outros e em mim mesmo. Ao vê-los, senti que Jesus chorava todos os dias. Foi quando descobri que a minha felicidade estava na dedicação aos mais pobres, que eram, nessa altura, esses garotos. Depois de um tempo de discernimento, decidi consagrar-me a Deus para servir melhor os mais necessitados.

Tinha 33 anos quando me juntei aos Missionários Combonianos. Depois de dois anos de formação em Espanha e mais dois em Portugal, fiz a minha primeira profissão religiosa. Após os estudos teológicos em Bogotá (Colômbia), fui enviado para Moçambique, onde trabalho há dez anos. Actualmente, estou na comunidade de Chitima, onde apoio no desenvolvimento de projectos agrícolas e hortas, que permitem às famílias produzir os seus produtos básicos. Também costumo visitar as comunidades cristãs, para partilhar a minha vida e a Boa Notícia de Jesus Cristo.

Sempre em movimento

Há alguns meses, fui visitar quatro comunidades na área de Thaca. Fui a pé. Deixei Chitima com destino à comunidade de Sunsa, que está localizada no topo da montanha. É uma subida de duas horas. Enquanto caminhava na presença do Senhor, fui cumprimentando as pessoas que encontrava no caminho, incluindo um grupo de mulheres que vieram a Chitima para vender os produtos que colheram nos seus pomares. Já nos conhecíamos, por isso não fiquei surpreendido com a sua saudação: «Olá, irmão Paulo!» Conversámos um pouco e continuei no meu caminho. Vi outras mulheres à espera dos hortelãos, a quem elas compram os produtos que vão vender no mercado de Chitima. Cumprimentei-as e expliquei-lhes para onde ia e o que ia fazer. Que estivesse a percorrer uma longa distância a pé pareceu-lhes invulgar, porque estão habituadas a ver os brancos a passar de carro. Agradeceram a conversa e eu continuei o meu caminho.

Encontrei outro grupo de mulheres a trabalhar no campo; cortavam o milho, que já estava seco. Falámos do ano agrícola e da colheita, escassa por falta de chuva. Despedimo-nos e prossegui, desfrutando da Natureza: o campo era verde e a água fluía de nascentes e riachos. Também gostei dos panoramas que tinha desde o alto, vislumbrando no fundo a extensa planície de Chitima.

Mais tarde, e já cansado, um hortelão veio ao meu encontro, cumprimentou-me e ofereceu-me uma anona. Peguei-a com as duas mãos e dei-lhe três palmadinhas como sinal de gratidão. Partilhámos o fruto, que era delicioso, e despedimo-nos. Restabelecido, comecei a última etapa de subida à montanha. No caminho, conheci um jovem estudante que ia para a escola. Teria uns 15 anos. Conversámos em niúngue; caminhava enquanto comia amendoins, que me ofereceu antes de nos despedirmos. A mim impressionou-me a sua generosidade e a ele que eu andasse a pé.

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O Ir. Pablo (esq.) com um jovem na horta da missão de Chitima (Foto Mundo Negro)

O último trajecto foi o mais difícil, mas já estava perto de Sunsa, onde cheguei uns 20 minutos depois. Dirigi-me à casa de Modesto, o animador da comunidade católica. Ali encontrei as suas filhas de 2, 6 e 8 anos. Já nos conhecíamos e elas alegraram-se ao verem-me. Cumprimentaram-me timidamente, esboçando um sorriso amável. Entretanto, chegaram Modesto e a sua mulher. Ofereceram-me água para tomar banho. Depois, sentámo-nos a conversar e preparámos o encontro com a comunidade, que estava marcado para a tarde. Comemos, descansámos e fomos para a capela, para a celebração da Palavra.

O dia seguinte amanheceu fresco e nublado. Modesto e a mulher estavam prestes a fazer-me o pequeno-almoço quando lhes disse para não se preocuparem. Queria sair às seis da manhã para estar às dez em Nanjenje, a próxima comunidade. Ao chegar comeria alguma coisa e, para o percurso, tinha os amendoins que o jovem estudante me tinha oferecido no dia anterior.

Modesto insistiu em acompanhar-me, pois são muitos os caminhos que se cruzam e é fácil perder-se. Para atravessar a planície demora-se uns 30 minutos, andando a um bom ritmo. No início da descida da montanha avista-se o lago de Cahora-Bassa. As vistas eram muito bonitas, embora a descida, muito íngreme num terreno pedregoso, se tornasse uma verdadeira odisseia. Em baixo, vejo a comunidade de Thaca, que fica a caminho de Nanjenje. Depois de uma hora a pé e já orientado, Modesto deixou-me e voltou para casa. Agradeci-lhe pela companhia e despedimo-nos.

Os caminhos da missão que vou percorrendo são propícios para encontros inesperados e lugares onde posso testemunhar a alegria do Evangelho.

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Outubro 2020 - nº 706
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