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25 janeiro 2021

Enquanto Deus quiser

Tempo de leitura: 7 min
Não há reformados na vida missionária, como conta o padre José Delgado que, com 80 anos, continua a aprender e a evangelizar com alegria e entusiasmo no Chade.
P. José Delgado
Missionário comboniano
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Cheguei em Outubro de 2018 a Dono-Manga, na diocese de Laï, mas a minha presença no Chade remonta ao distante ano de 1977. Fui um dos primeiros missionários combonianos a chegar ao país, quando os Jesuítas nos entregaram a paróquia da Santíssima Trindade de Moïssala, na diocese de Sarh. Nessa altura, todos os missionários eram estrangeiros. Em 1979, chegaram os dois primeiros padres chadianos que tinham estudado fora do país. A Igreja Chadiana é muito jovem, os primeiros missionários chegaram em 1929, mas tem uma grande vitalidade e é maravilhoso ver como cresceu, amadureceu e se africanizou. Dos 40 padres que actualmente trabalham em Laï, 36 são africanos, a maioria chadianos.

Em Dono-Manga partilho a vida de comunidade com um mexicano, um togolês e um centro-africano, todos muito jovens. Já cheguei aos 80 anos, mas o físico resiste e tenho a responsabilidade de uma das três áreas em que dividimos a paróquia. São 30 as comunidades onde garanto o catecumenado, a formação de catequistas e o acompanhamento das escolas. Em muitos lugares, os centros educativos nasceram graças à iniciativa das populações locais, que construíram os pavilhões e recolhem fundos para garantir os salários dos professores. Nós apoiamo-los e também administramos uma escola de qualidade na paróquia, que construímos com materiais sólidos.

A aprendizagem das línguas é um desafio permanente para nós. Na nossa paróquia falam-se cinco idiomas e nenhum deles é veicular. O idioma que usamos na liturgia é o ngambay, embora, de acordo com as regiões, se fale também o gabri, o goulay, o soumraï e o sara, além do francês. Eu leio o ngambay, falo o sara mais ou menos e agora estou a começar a aprender o goulay. Consigo comunicar-me com as pessoas misturando um pouco de cada idioma, porque pertencem à mesma família, mas quando visito as comunidades preciso que os catequistas traduzam do francês para a língua local. Só quando vou para uma comunidade onde o catequista não tem muita facilidade com o francês lhes peço que traduzam a minha homilia e depois tento lê-la.

Labor de evangelização

Vivemos numa situação de primeira evangelização. A maioria da população segue a religião tradicional e os católicos não chegam aos 10%. Encontramos elementos culturais valiosíssimos, nomeadamente o calor na acolhida dos estrangeiros, mas também existem outros que bloqueiam o desenvolvimento e a evangelização. A poligamia é uma prática bastante generalizada, assim como as acusações de bruxaria. Por exemplo, quando morre um jovem, procuram sempre um culpado. Para os cristãos é muito difícil conciliar a sua fé com tradições culturais, como fazer sacrifícios e libações aos espíritos durante os tempos de luto e noutras ocasiões. Sofrem muito com isto. Lembro-me do caso de Louise, uma jovem cristã casada e com dois filhos. Teve vários abortos naturais e a família do marido começou a acusá-la de provocar a morte dos fetos. Queriam forçá-la a fazer sacrifícios para quebrar o feitiço, que ela recusou, por isso foi excluída. Alain, um catequista de 23 anos, também foi forçado a casar com a viúva do irmão para proteger os sobrinhos. Alain já era casado e foi obrigado a viver em poligamia e, por isso, tivemos de dispensá-lo da responsabilidade de catequista.

Enquanto missionários, temos de ter muita paciência e misericórdia porque os processos humanos levam tempo e as coisas não mudam de um dia para o outro. Estamos atentos para conhecer a realidade. Em vez de fazer grandes discursos, o que pretendemos é viver com empatia, que as pessoas vejam que respeitamos as suas crenças, mas sem renunciar a apresentar a nossa fé cristã como uma luz que ajuda a purificar certos elementos culturais.

Para que o processo de evangelização avance, precisamos de pessoas preparadas para proclamar a Palavra de Deus nas línguas locais. Por essa razão damos grande importância à formação de catequistas. Como em outros lugares no Chade, temos um centro de formação para famílias cristãs. Entre os candidatos a catequistas apresentados pelas comunidades, seleccionamos os que têm mais capacidades, que vêm com toda a sua família à paróquia entre Janeiro e Março. É o período da estação seca e há pouco trabalho nos campos, já que terminaram de fazer as colheitas de milho, painço, sésamo ou amendoim. Até Maio ou Junho, as chuvas não recomeçarão. Todos os anos participam um número variável de famílias, dez no máximo, que constituem uma autêntica aldeia. Nestor e Félicité vivem no centro, um casal que coordena todas as actividades e é uma verdadeira bênção e uma ajuda inestimável para a missão.

As crianças em idade escolar são acolhidas na escola paroquial durante estes três meses. Os catequistas seguem um programa de formação em liturgia, Bíblia, lectio divina ou catequese. Estudam também o francês, porque muitos falam-no com alguma dificuldade, e aprendem a ler correctamente o ngambay, a língua em que traduzimos todos os textos litúrgicos e catequéticos, e que precisam de dominar para presidir às assembleias de domingo e fazer os encontros de catequese. Por agora, só temos duas mulheres que são catequistas, porque neste aspecto também a cultura nos detém.

Esta é a minha vida. Estou muito feliz e muito entusiasmado e desejo continuar no Chade enquanto Deus quiser. 

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EDIÇÃO
Março 2021 - nº 711
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