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23 fevereiro 2021

Ser missão nesta terra

Tempo de leitura: 6 min
A irmã Silvia Vargas, missionária comboniana equatoriana, partilha o seu processo de discernimento vocacional e trabalho evangelizador em três continentes.
Silvia Vargas
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Nasci em Guayaquil (Equador), e desde muito jovem gostava de ajudar as pessoas e dar a mão a quem precisava, mas nunca tive a mínima ideia de como ou onde fazê-lo.

Esses desejos iniciais de me entregar aos outros levaram-me a colaborar durante alguns anos na minha paróquia como catequista, animadora da infância missionária e coordenadora da catequese familiar. Nesse tempo, fui encorajada por um amigo a participar num encontro juvenil organizado pelos Missionários Combonianos em Quito. Aqueles três dias foram momentos de graça e percebi claramente o chamamento para a missão. Senti-me amada, chamada e enviada a proclamar a Boa Nova que Deus manifestou em mim.

Decidi, então, contactar a comunidade comboniana de Guayaquil e juntei-me ao movimento juvenil América Missionária. Nos três anos em que participei, consegui descobrir o que é a missão. Aprendi a sair das minhas quatro paredes e encontrei realidades do Equador que me eram desconhecidas. Descobri as periferias existenciais da minha cidade, onde homens e mulheres se sentiam abandonados pelos seus pastores e, muitas vezes, por Deus. Lá, percebi as consequências da falta de trabalho ou de educação, e pude ver a existência de situações de injustiça e racismo num país maioritariamente católico. Mas também me senti muito próxima de um grande santo chamado Daniel Comboni, cujo carisma é tão vívido e estimulante que me fez pensar em ir ainda mais longe.

Nesta altura da minha vida, comecei a considerar seriamente ser missionária. No início não foi fácil, já que os meus pais não concordavam com a ideia. Ainda assim, não desanimei e continuei a participar em encontros missionários e assim discernir o chamamento de Deus. Com essa inquietude na minha mente e no meu coração, deixei Jesus entrar na minha vida e entrei nas Missionárias Combonianas. Depois dos dois anos de formação inicial, fiz os dois anos de noviciado e no dia 15 de Agosto de 2010 fiz a primeira consagração religiosa.

 

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A irmã Silvia Vargas numa marcha contra as políticas migratórias nos EUA (Foto: Arquivo pessoal da autora)

Sempre em missão

A minha primeira missão foi nos Estados Unidos da América, aonde cheguei em Dezembro de 2010. Além de estudar inglês, formei-me como assistente social. Durante os seis anos em que estive neste país, o meu ministério centrou-se na comunidade hispânica e nos refugiados de várias partes do mundo. Foi um trabalho muito especial, pois consegui criar laços muito estreitos com as pessoas. Éramos como uma família. Nenhum de nós parecia estrangeiro ou excluído.

Para mim, estar longe da família não foi difícil. Eu tinha tomado a decisão de deixar a minha casa para me consagrar a Deus e à missão. Mas, para estas famílias, a realidade era diferente. Fugir do país devido à guerra, à violência ou à pobreza deixa muitas feridas difíceis de sarar. Esta situação torna-se ainda mais complicada quando não sabemos se voltaremos a ver aqueles que ficaram para trás. Ouvir os seus testemunhos, acompanhar os seus processos pessoais e colectivos e partilhar a vida com estas famílias ajudou-me a crescer como pessoa e mulher consagrada.

Em 2016, fui enviada para Lima, no Peru. Ali, tive a oportunidade de colaborar na formação de líderes comunitários; acompanhar, como assistente social, famílias e apoiar na animação missionária. O trabalho nos bairros periféricos de San Martín de Porres exigiu muita paciência e disponibilidade para poder chegar às comunidades cristãs que vivem nas colinas. Mas, no pouco tempo que lá estive, criaram-se laços estreitos com famílias e catequistas.

 

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A irmã Silvia Vargas com crianças na Zâmbia (Foto: Arquivo pessoal da autora) 

Missionária na Zâmbia

Em 2018, juntamente com cinco irmãs de diferentes nacionalidades, estive em Itália para me preparar para os meus votos perpétuos, que fiz no dia 2 de Fevereiro de 2019.  Depois chegou-me a notícia do meu novo país de missão: a Zâmbia. Em Lusaca, a capital desde país, sou a coordenadora do projecto social São Daniel Comboni, que visa a formação integral de crianças, jovens, mulheres e homens. Para isso, realizamos programas de alfabetização em inglês (é o idioma oficial do país) junto com ateliês de saúde e formação em informática. Contamos ainda, para os mais jovens, com um serviço de livraria e um espaço desportivo, onde praticam diferentes modalidades (judo, futebol, etc.). Com a juventude desenvolvemos também programas de apoio pós-escolar e acompanhamento psicológico.

Estou há pouco tempo neste país africano, mas sinto que estou, paulatinamente, a enamorar-me das pessoas e da sua cultura. A inocência e o sorriso das crianças, o esforço diário e a força da mulher zambiana, a dedicação dos pais para dar um futuro melhor aos seus filhos e filhas são raios de esperança que me incentivam a continuar a dizer «sim» à missão que me foi confiada. Como diz o Papa Francisco, acreditar que «sou uma missão nesta terra», e que se eu quiser mudá-la, tenho de começar por mim mesma.  

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EDIÇÃO
Março 2021 - nº 711
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