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04 julho 2021

Os piores gestores da pandemia

Tempo de leitura: 12 min
A covid-19 é, reconhecidamente, difícil de controlar, e os líderes políticos são apenas parte do cálculo no que toca à sua gestão.
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Alguns antigos e actuais dirigentes mundiais pouco se esforçaram para travar os surtos do novo coronavírus nos seus países, seja porque desvalorizaram a gravidade da crise, porque desprezaram a ciência ou porque ignoraram recomendações de saúde cruciais como o uso de máscara. Todos os homens desta lista cometeram pelo menos um desses erros, e alguns cometeram-nos todos – com consequências mortíferas. Segue-se uma análise de cinco académicos e investigadores. 

Narendra Modi | Índia

A Índia era, em Maio, o epicentro da pandemia de covid-19. Por mais sombrias que fossem, as estatísticas não captam o horror absoluto do que ali se se passava. Pacientes infectados com covid-19 morreram nos hospitais, porque os médicos não tinham oxigénio para os assistir nem medicamentos que salvassem vidas, como o Remdesivir. Doentes não eram aceites em clínicas porque não havia camas disponíveis. Muitos indianos culparam um homem pela tragédia do país: o primeiro-ministro, Narendra Modi. Em Janeiro de 2021, num fórum global, Modi declarava que a Índia «salvou a humanidade [...] ao conter o corona eficazmente». Em Março, o seu ministro da Saúde proclamava que a pandemia estava «a chegar ao fim». A realidade é que a covid-19 ganhava força na Índia e no resto do mundo. O Governo de Modi não se preparou, porém, para possíveis contingências, como a emergência de uma variante mais contagiosa e mortífera. Apesar de significativas regiões do país não terem ainda conseguido suprimir o vírus, Modi e outros membros do seu partido [BJP] realizaram gigantescos comícios antes das eleições de Abril. Poucos participantes usavam máscara. Modi também permitiu que um festival religioso congregasse milhões de pessoas. Responsáveis pela saúde pública estão agora convencidos de que esse festival terá sido um acontecimento altamente disseminador do vírus e «um erro enorme». Enquanto Modi elogiava os seus êxitos no ano passado, a Índia – maior fabricante mundial de vacinas – enviava mais de dez milhões de doses para países vizinhos, mas apenas 1,9 % dos quase 1400 milhões de indianos haviam sido totalmente inoculados contra a covid-19 no início de Maio. 

Sumit Ganguly (Professor catedrático de Ciência Política e de Culturas e Civilizações Indianas, Universidade de Indiana, EUA)

 brasil

(@ Lusa)

Jair Bolsonaro | Brasil

O presidente Jair Bolsonaro não só falhou na resposta à covid-19 – que desvalorizou como “uma gripezinha” – como agravou activamente a crise no Brasil. Bolsonaro usou as suas prerrogativas constitucionais para interferir em questões administrativas do Ministério da Saúde, como protocolos clínicos, divulgação de dados e aquisição de vacinas. Vetou também legislação que, por exemplo, obrigaria ao uso de máscara em locais religiosos e compensaria os profissionais de saúde que ficaram permanentemente afectados pela pandemia. Obstruiu ainda os esforços dos governos estaduais para impor o distanciamento físico e decretou que muitos negócios continuassem abertos, considerando-os essenciais, incluindo spas e ginásios. Bolsonaro promoveu, agressivamente, medicamentos não certificados, em particular a hidroxicloroquina, para tratar pacientes com covid-19. Bolsonaro serviu-se da sua posição como presidente para moldar o debate sobre o coronavírus, alimentando um dilema falso entre uma catástrofe económica e distanciamento físico, deturpando a ciência. Culpou governos estaduais do Brasil, a China e a Organização Mundial da Saúde pelas crises da covid-19, e nunca assumiu responsabilidade pela forma como ele próprio geriu os surtos no seu país. Em Dezembro, Bolsonaro declarou que não seria vacinado devido aos efeitos secundários. «Se você virar um jacaré, é problema seu», disse. A má gestão da pandemia por parte de Bolsonaro criou conflitos no seu próprio governo. Em menos de um ano, o Brasil teve quatro ministros da Saúde. Os surtos descontrolados no país originaram diversas variantes, uma delas a variante P.1, que se tem revelado a mais contagiosa. A taxa de transmissão de covid-19 no Brasil começou a diminuir em Maio, mas a situação continua preocupante.

Elize Massard da Fonseca (Professora Assistente, Escola Brasileira de Administração Pública, Fundação Getúlio Vargas)

 

Alexander Lukashenko | Bielorússia

Muitos países têm respondido à covid-19 com políticas tragicamente desadequadas, mas os piores líderes na gestão da pandemia são os que optaram por um total negacionismo e uma ação ineficaz. Alexander Lukashenko, o líder autoritário da Bielorússia nunca reconheceu a ameaça da Covid-19. No início da pandemia, enquanto outros países impunham confinamentos para impedir a sua propagação, Lukashenko decidiu não aplicar nenhuma medida restritiva. Pelo contrário, alegou que o vírus podia ser evitado bebendo vodca, indo à sauna ou cultivando os campos. No Verão de 2020, Lukashenko informou que havia sido diagnosticado com covid-19, mas que estava assintomático, o que lhe permitiu continuar a insistir que o vírus não era uma ameaça séria. Ao desvalorizar a doença e visitar hospitais para a covid-19 sem máscara, ele quis, supostamente, passar a imagem de um homem forte. A Bielorússia já iniciou os esforços de vacinação, mas Lukashenko anunciou que não será vacinado. Em Maio, menos de 3 % dos bielorussos haviam sido inoculados contra a covid-19. 

Elizabeth J. King | Scott L. Greer (Professora de Educação para a Saúde, Escola de Saúde Pública, Universidade de Michigan, EUA | Professor de Gestão e Política de Saúde Global, Universidade de Michigan)

 

Donald Trump | Estados Unidos da América

Donald Trump já não é presidente, mas o modo como lidou com a pandemia continua a ter consequências devastadoras, de longo prazo, nos Estados Unidos – particularmente no que diz respeito à saúde e bem-estar das comunidades de cor. A negação inicial de Trump, a propagação activa de desinformação sobre o uso da máscara e de tratamentos, e a sua liderança incoerente prejudicaram o país como um todo –, mas o resultado afectou muito mais alguns grupos do que outros. As pessoas de cor sofreram, desproporcionadamente, o maior número de infecções e mortes. Os afro-americanos e os latinos constituem apenas 31 % da população dos EUA, no entanto; representam mais de 55 % dos casos de covid-19. As taxas de hospitalização e mortalidade entre os nativos americanos foram, respectivamente, 3,5 vezes e 2,4 vezes superiores às dos brancos. As taxas de desemprego também são desproporcionais: no pico da pandemia nos EUA, aumentaram 17,6 % para os latino-americanos, 18,8 % para os afro-americanos e 15 % para os asiático-americanos, em comparação com os 12,4 % para os brancos americanos. Estes fossos esmagadores amplificaram as desigualdades já existentes, tais como a pobreza, a instabilidade em termos de habitação e a qualidade do ensino – e vão continuar a fazê-lo nos próximos tempos. Por exemplo, apesar de a economia dos EUA mostrar sinais de recuperação, os grupos minoritários não têm registado progressos equivalentes. Por fim, ao responsabilizar a China pela covid-19 – recorrendo a epítetos raciais como chamar ao vírus «kung flu» –, Trump não terá sido alheio a um aumento para quase o dobro dos ataques a asiáticos-americanos e pessoas oriundas das ilhas do Pacífico, em 2020, e esta tendência preocupante não parece desaparecer. A Administração Trump apoiou o desenvolvimento inicial da vacina, uma conquista que poucos líderes mundiais podem reivindicar, mas a desinformação e a retórica anticiência que ele disseminou continua a comprometer o caminho da América para se livrar da pandemia. Sondagens sugerem que 24 % dos americanos e 41 % dos republicanos recusam ser vacinados. 

Dorothy Chin (Psicóloga e investigadora na Universidade da Califórnia, Los Angeles, EUA)

 

mexico 

(@ Lusa)

Andrés Manuel López Obrador | México

Com 9,2 % dos seus pacientes com covid-19 a sucumbir à doença, o México tem a maior taxa de mortalidade do mundo. Estimativas recentes apontam que terá registado 617 mil mortos – a par com os EUA e a Índia, países com maior população. Uma combinação de factores contribuiu para os surtos, prolongados e extremos, no México. Uma liderança nacional que não esteve à altura foi um deles. Desde que começou a pandemia, o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, procurou minimizar a gravidade da situação. Logo no início, resistiu aos apelos para impor um confinamento nacional e continuou a realizar comícios por todo o país. Só a 23 de Março de 2020 é que o México se fechou durante dois meses. López Obrador recusou-se muitas vezes a usar máscara. Tendo herdado um sistema de saúde que é uma manta de retalhos subfinanciada, quando foi investido em 2018, o presidente aumentou as despesas com este sector, mas apenas ligeiramente. Especialistas dizem que os orçamentos dos hospitais são insuficientes para a enorme tarefa que enfrentam. Mesmo antes da chegada da pandemia, a política de extrema austeridade fiscal de López Obrador dificultou ainda mais a resolução dos problemas da crise sanitária, ao limitar significativamente a ajuda financeira aos cidadãos e às empresas penalizados pela covid-19. Isso agravou, por seu turno, o choque económico causado pela pandemia, alimentando a necessidade de manter a economia aberta todo o ano passado, mesmo durante a feroz segunda vaga, no Inverno, da qual só agora o México começa a emergir. Outro confinamento tornou-se inevitável: o país isolou-se novamente em Dezembro de 2020 por um breve período. Agora, já está generalizado o uso da máscara e 10 % da população foi vacinada – mais do que a vizinha Guatemala (1 %). As coisas estão a melhorar, mas o caminho para a recuperação é longo. 

Salvador Vázquez del Mercado (Professor e investigador do Consejo Nacional de Ciência y Tecnologia (CONACYT), Laboratório Nacional de Política Pública, Centro de Investigacíon y Docencia Económicas (CIDE), Cidade do México)

 

* Este artigo foi traduzido por Margarida Santos Lopes e republicado do site The Conversation sob licença Creative Commons. O artigo original pode ser lido aqui: https://theconversation.com/worlds-worst-pandemic-leaders-5-presidents-and-prime-ministers-who-badly-mishandled-covid-19-159787

 

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Julho 2021 - nº 715
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