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26 abril 2022

Um século e meio de missão

Tempo de leitura: 12 min
As Irmãs Missionárias Combonianas estão a celebrar, este ano, 150 anos de existência.
Ir. Maria del Prado Fernández Martín
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Jubileu das irmãs missionárias combonianas

Daniel Comboni fundou a Congregação das Irmãs Missionárias Combonianas a 1 de Janeiro de 1872, embora muitas pessoas naquela época pensassem que o missionário era louco. Não consideravam que fosse possível que as mulheres pudessem embarcar nesse projecto porque, até então, elas mal tinham estado envolvidas na obra evangelizadora. O seu destino era o claustro ou a família.

Cerca de quinze anos antes, em 1857, Comboni embarcara pela primeira vez numa expedição ao Sudão. Eram tempos difíceis porque a Propaganda Fide queria relançar a missão na África Central, apesar do alto custo em vidas humanas. Na realidade, em menos de um ano, um dos companheiros de Comboni morreu e os outros quatro tiveram de regressar a Itália para não serem enterrados no Sudão. Esta experiência de fracasso marcou-o. Nesses dias, algumas instituições pagavam o resgate dos escravos para os educar na Europa, pensando que poderiam, posteriormente, regressar aos seus próprios países para evangelizar o seu povo. Mas o frio e outros problemas fizeram com que houvesse uma elevada taxa de mortalidade entre os africanos que viviam na Europa, enquanto os missionários que iam para África não conseguiam suportar o calor e as febres e morriam rapidamente.

O Plano

Em 1864, sete anos após a sua primeira experiência africana, Comboni estava a rezar no túmulo de São Pedro em Roma quando teve uma inspiração. Trancou-se no seu quarto durante três dias para escrever o que lhe passava pela mente e pelo espírito. O documento que surgiu foi o Plano para a Regeneração da África, que tinha como eixo central o conceito de «salvar África com África». Entre as ideias que apareceriam nessas páginas estavam três que foram revolucionárias para a época. Em primeiro lugar, apontava para a necessidade da formação de um clero local. Não se devia continuar o sistema de formação de padres africanos na Europa, porque a realidade tinha mostrado que este modelo era insustentável. Em segundo lugar, sublinhou a necessidade de formar os leigos. E, finalmente, reconheceu o papel das mulheres e a sua importância no apostolado missionário. Se estas ideias não se materializassem, afirmava, as missões africanas estavam condenadas ao fracasso.

Quando as coisas pareciam estar claras, os apoiantes de Comboni viraram-lhe as costas, argumentando que não podiam suportar tantas perdas humanas e, por isso, abandonaram a missão da África Central. Foi o Cardeal Barnabò que o aconselhou a fundar um instituto missionário. A partir daí, a vida de Comboni tornou-se um constante ir e vir entre a Europa, o Egipto e o Sudão. Comboni tinha um lema que o guiava e encorajava, «África ou morte», e com esta ideia em mente fundou em Verona (Itália), a 1 de Junho de 1867, uma congregação masculina, o Instituto Missionário para a África, actualmente os Missionários Combonianos.

No mesmo ano organizou uma expedição missionária ao Sudão na qual, pela primeira vez, foi acompanhado por dezasseis ex-escravas e três religiosas francesas de S. José da Aparição, a segunda congregação missionária feminina na história da Igreja, fundada por Emilie de Vialar em 1832. Mas Comboni sabia que estas religiosas não o acompanhariam para sempre na missão africana. E assim sucedeu, pois, doze anos mais tarde, elas retiraram-se do Sudão. Perante esta realidade, Daniel Comboni insistiu na ideia de fundar ele próprio uma congregação de mulheres.

Nascimento do Instituto

No dia 1 de Janeiro de 1872, Comboni fundou o instituto feminino, a que chamou Pie Madri della Nigrizia (Pias Mães da Nigrícia), hoje Irmãs Missionárias Combonianas, e que foi o primeiro instituto missionário feminino em Itália.

A Marietta Caspi, a primeira candidata, uniu-se dias depois outra jovem, Giuseppa Scandola. Dois anos mais tarde, duas mulheres que seriam os pilares fundamentais da congregação: Teresa Grigolini, que ingressou no instituto a 23 de Janeiro de 1874, e Maria Bollezzoli, que chegou em Setembro do mesmo ano, e que se tornou a primeira madre-geral, escolhida por Comboni para orientar o instituto que estava a dar os primeiros passos. Dela o fundador diria: «Encontrei a mulher de que precisava.»

 

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A Ir. Elisabette Raule, missionária comboniana italiana e médica, com pacientes no hospital de Alua, Moçambique

 

O vicariato apostólico

O ano de 1877 foi muito importante na vida de Comboni, porque a 2 de Julho foi nomeado vigário apostólico da África Central. Um mês depois, a 12 de Agosto, foi ordenado bispo em Roma e, a 15 de Dezembro desse ano zarpou de Nápoles com três sacerdotes, seis irmãos e cinco missionárias – Teresa Grigolini, Marietta Caspi, Maria Giuseppa Scándola, Vittoria Paganini e Concetta Corsi. Partiram com uma caravana directamente para o Sudão. Viajaram por mar, atravessaram o deserto em camelos durante catorze horas e dormiram na areia até chegarem a Cartum dois meses mais tarde. Comboni estava convicto: se não houvesse mulheres nas missões africanas, elas não poderiam continuar e estariam condenadas ao fracasso.

Apostolado africano

O fundador tinha imensa confiança nas mulheres. Sabia que nessa altura não tinham muita formação, mas ele educou-as para a missão, acompanhou-as como um pai, guiou-as e levou-as para o apostolado africano. Em 1878 escreveu: «O vicariato da África Central é o mais extenso e mais laborioso; aqui o trabalho da irmã é um sacerdócio. Nos locais onde elas se encontram, a missão é sólida.» E noutra carta a uma irmã religiosa afirmou: «Eu fui o primeiro a fazer com que colabore no apostolado da África Central o omnipotente ministério da mulher do Evangelho e da irmã da caridade, que é o escudo, a força e a garantia do ministério do missionário.» Actualmente, a presença feminina na missão supera em muito a masculina. Mas esta afirmação de São Daniel Comboni, naquela época, não foi bem compreendida.

Em Julho de 1880, Fortunata Quascé, uma sudanesa originária da Núbia, iniciou o seu noviciado em El Obeid. Mais uma vez, Comboni superou os estereótipos ao acolher uma mulher africana no seu instituto.

As Mães da Nigrícia não eram monjas, mas missionárias, e isto era algo sobre o qual o próprio Daniel Comboni era muito claro. Para ele, os seus religiosos tinham de ter uma espiritualidade e uma formação orientadas para a missão e forjadas por ela. Alguns meses antes da sua morte, escreveu ao P. Giuseppe Sembianti, reitor dos dois institutos missionários para a Nigrícia: «[Os institutos] prepararão missionários e irmãs verdadeiramente santos, mas não santarrões, porque a África não precisa de beatos, mas de almas valentes e generosas, que saibam sofrer e morrer por Cristo e pelos negros.»

 

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A irmã comboniana portuguesa Dorinda Cunha no Sudão do Sul

 

A cruz e o crescimento

Comboni assistiu com tristeza à morte de uma das suas primeiras missionárias, Maria Bertuzzi, que tinha acabado de chegar ao Sudão, em 1880. Morreu em El Obeid com a idade de 21 anos. Presenciou também a morte da primeira candidata, Marietta Caspi, em Maio do mesmo ano.

Comboni tinha atravessado o deserto oito vezes, e isto só podia ser suportado por pessoas de grande força e fé, mas as dificuldades, a fome e a febre também o fizeram sucumbir. Morreu aos 50 anos de idade, a 10 de Outubro de 1881. Pouco antes disse: «Eu morro, mas a minha obra não morrerá.» Nessa altura, as Irmãs Missionárias Combonianas eram 22, das quais 15 já se encontravam em África – no Egipto e no Sudão – e as restantes em Verona.

Os anos que se seguiram foram anos de grande sofrimento. Entre 1881 e 1899, a guerra madista [Muhammad Ahmad bin Abdullah (mais tarde Muhammad al-Mahdi) chefiou desde 1881 um movimento religioso, político e militar contra o quedivado do Egipto, que governou o Sudão desde 1821] destruiu tudo o que os missionários tinham criado com tanto esforço e sacrifício. Alguns leigos, padres e religiosas puderam fugir para o Egipto, mas dezasseis deles foram feitos prisioneiros. Sofreram todo o tipo de perseguição e alguns sucumbiram às privações. Tudo parecia condenado à ruína. Contudo, poucos anos após o fim da rebelião madista, os missionários regressaram ao Sudão, provando que o espírito do fundador, a sua paixão por África e pelo Evangelho não tinham diminuído.

Entre 1930 e 1960, a congregação espalhou-se por outros países africanos, chegou aos Estados Unidos e à América Latina, entrou no Médio Oriente e estendeu-se pela Europa.

Na sua história recente, as Irmãs Combonianas viveram a expulsão do Sudão em 1964, a rebelião Simba no antigo Zaire no mesmo ano, e as consequências das guerras na República Democrática do Congo. A Irmã Liliana Rivetta morreu em fogo cruzado em 1981 no Uganda, enquanto a Irmã Teresa dalle Pezze foi vítima de uma emboscada em Moçambique em 1985.

Sonhar o futuro

A Igreja Católica está no meio de um processo de reflexão sobre a sinodalidade, o tema do Sínodo dos Bispos de 2023. Ao observar a figura de Comboni, vemos que, embora incompreendido, estava à frente do seu tempo. No seu carisma e projecto missionário já estava presente esta perspectiva de comunhão eclesial e de caminho feito em conjunto.

Hoje, a paixão pela missão de Daniel Comboni continua a inflamar e inspirar uma família missionária que inclui sacerdotes, irmãos, irmãs e leigos de ambos os sexos. Ele tinha razão quando disse: «Eu morro, mas a minha obra não morrerá.»

As Missionárias Combonianas, o instituto feminino que Comboni fundou há 150 anos, embora não sendo muito numeroso, está presente nas periferias do mundo. As Irmãs Combonianas estão junto dos mais pobres e abandonados e, fazendo caminho com essas comunidades, comprometem-se activamente na construção de um mundo melhor.  

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Maio 2022 - nº 724
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