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02 janeiro 2023

Construir juntos a paz

Tempo de leitura: 7 min
O Papa Francisco convida, na sua mensagem para o 56.0 Dia Mundial da Paz, a «mudar o coração» e a recomeçar neste tempo pós-pandémico, construindo juntos caminhos de paz, fraternidade e solidariedade.
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O Papa Francisco assina o apelo à paz durante um encontro de oração pela paz na Ucrânia e no mundo, que se realizou juntamente com representantes das comunidades cristãs e de outras religiões, Coliseu de Roma, Itália, 25 de Outubro de 2022 (© Lusa/EPA/Maurizio Brambatti)

 

O Dia Mundial da Paz foi instituído em 1968 por São Paulo VI (1897-1978) e é celebrado no primeiro dia do novo ano com uma mensagem pontifícia. O texto do papa para este ano tem como tema «Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da covid-19 para traçar sendas de paz».

Francisco começa a mensagem com um convite, inspirado na primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses, a «permanecer despertos, a não nos fechar no medo, na dor ou na resignação, não ceder à dissipação, nem desanimar». Conscientes de que, mesmo vivendo acontecimentos trágicos e «sentindo-nos impelidos para o túnel obscuro e difícil da injustiça e do sofrimento, somos chamados a manter o coração aberto à esperança, confiados em Deus que Se faz presente, nos acompanha com ternura, apoia os nossos esforços e sobretudo orienta o nosso caminho».

Lições da pandemia

A situação da pandemia, que nestes três anos transtornou «inclusive as áreas mais pacíficas do nosso mundo, fazendo emergir inumeráveis fragilidades» trouxe consigo lições importantes. Por isso, o papa refere que «é hora de pararmos um pouco para nos interrogar, aprender, crescer e deixar transformar, como indivíduos e como comunidade». E Francisco já aponta algumas respostas na mensagem. Assinala que a maior lição que a covid-19 nos deixa em herança «é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso maior tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum, e que ninguém pode salvar-se sozinho». Aprendemos, também, que «a confiança posta no progresso, na tecnologia e nos efeitos da globalização não só foi excessiva, mas transformou-se numa intoxicação individualista e idólatra, minando a desejada garantia de justiça, concórdia e paz».

Mas houve também descobertas positivas: «um benéfico regresso à humildade; uma redução de certas pretensões consumistas; um renovado sentido de solidariedade que nos encoraja a sair do nosso egoísmo para nos abrirmos ao sofrimento dos outros e às suas necessidades; bem como um empenho, nalguns casos verdadeiramente heróico, de muitas pessoas que se deram para que todos conseguissem superar do melhor modo possível o drama da emergência».

E, com essa experiência, fortaleceu-se a consciência que «convida a todos, povos e nações, a colocar de novo no centro a palavra “juntos”». Com efeito, «é juntos na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos».

E Francisco frisa que, «de facto, as respostas mais eficazes à pandemia foram aquelas que viram grupos sociais, instituições públicas e privadas, organizações internacionais», todos «unidos para responder ao desafio», com a certeza de que «só a paz que nasce do amor fraterno e desinteressado nos pode ajudar a superar as crises pessoais, sociais e mundiais».

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A destruição causada pela guerra na cidade de Bucha, Ucrânia, Abril de 2022 (© Lusa/EPA/Roman Pilipey)

 

O vírus da guerra

Referindo-se à guerra na Ucrânia, o papa lamenta que o mundo, superado «o pior da noite da pandemia de covid-19», enfrente agora «uma nova e terrível desgraça». «Assistimos ao aparecimento doutro flagelo» que se pode comparar à pandemia, mas «pilotado por opções humanas culpáveis». «A guerra na Ucrânia ceifa vítimas inocentes e espalha a incerteza, não só para quantos são directamente afectados por ela, mas de forma generalizada e indiscriminada para todos, mesmo para aqueles que, a milhares de quilómetros de distância, sofrem os seus efeitos colaterais: basta pensar nos problemas do trigo e nos preços dos combustíveis», refere o papa.

Francisco sublinha que esta guerra, «juntamente com todos os outros conflitos espalhados pelo globo, representa uma derrota não só para as partes directamente envolvidas, mas também para a Humanidade inteira». «Com certeza, o vírus da guerra é mais difícil de derrotar do que aqueles que atingem o organismo humano, porque o primeiro não provém de fora, mas do íntimo do coração humano, corrompido pelo pecado», reconhece.

Perante este cenário, o que podemos fazer?  Sabendo que «as variadas crises morais, sociais, políticas e económicas que estamos a viver encontram-se todas interligadas», o papa refere que somos chamados «a enfrentar, com responsabilidade e compaixão, os desafios do nosso mundo», repensando-nos à luz do bem comum. E indica algumas propostas: «repassar o tema da garantia da saúde pública para todos; promover acções de paz para acabar com os conflitos e as guerras que continuam a gerar vítimas e pobreza; cuidar de forma concertada da nossa casa comum e pôr em prática medidas claras e eficazes para enfrentar as alterações climáticas; combater o vírus das desigualdades e garantir o alimento e um trabalho digno para todos, apoiando quantos não têm sequer um salário mínimo e passam por grandes dificuldades». Além disso, é necessário «desenvolver, com políticas adequadas, o acolhimento e a integração, especialmente em favor dos migrantes e daqueles que vivem como descartados nas nossas sociedades».

Francisco termina a mensagem expressando a esperança de que, «no novo ano, possamos caminhar juntos valorizando tudo o que a História nos pode ensinar».  

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EDIÇÃO
Fevereiro 2023 - nº 732
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