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28 junho 2019

Os anjos existem

Tempo de leitura: 10 min
A Casa do Indigente e a Casa do Migrante são duas iniciativas da Igreja Católica de Reynosa, no México, que apoiam os mais pobres e desfavorecidos da sociedade.
Jorge García
Missionário comboniano
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O avião está prestes a descolar numa pista do Terminal 2 do Aeroporto Internacional da Cidade do México. De repente, pára no que parece ser um movimento de rotina. Mas, alguns minutos depois, a voz do piloto anuncia que temos de voltar à base para uma revisão, porque há um pequeno problema técnico. Não é nada de grave e mais tarde ser-nos-ão dadas informações, diz ele.

Para mim, não há problema. São situações que acontecem. Todavia, penso na pessoa que aguarda a minha chegada às 16h00 na cidade de Reynosa, onde vou passar o fim-de-semana de visita à Casa do Migrante, à Casa do Indigente e alguma outra estrutura da Igreja, para partilhar com os nossos leitores algo do que é vivido ali na fronteira a noroeste com o Estado norte-americano do Texas, num lugar de alto risco devido à delinquência comum e ao crime organizado.

Após duas horas de espera, iniciamos o voo, que decorre sem problemas. Pouco antes de aterrar, pergunto a um senhor jovem no lugar ao lado como ir do aeroporto para a cidade. Ele pensa por um instante e diz:

«Não se preocupe. Ao chegar, vou buscar o meu carro ao estacionamento e deixo-o perto do seu destino, num lugar seguro, porque há muitas zonas de alto risco e eu não quero que corra perigo.» Ele chama-se José Homero. No caminho para o nosso destino, comenta: «Menos mal que a minha esposa não vem comigo. Ela não teria permitido que eu desse boleia a um estranho. Mas você inspirou-me confiança e, além disso, lembra-me o meu pai. Eu mesmo fui abençoado por Deus tantas vezes. A única condição é que faça uma oração por mim e pela minha família. Vou levá-lo até à porta da sua casa.»

Lá, espera-me, já angustiada, a Sra. Piedad. Ela vai hospedar-me nos dois dias e meio que estarei em Reynosa.

No sábado de manhã, visito o centro da cidade e apresento-me no cartório da paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe para pedir licença para concelebrar a Eucaristia. A funcionária informa-me que o pároco, P.e Ignacio Loth Vaquera, está num retiro espiritual com um grupo de casais. Chegará pouco antes do meio-dia e, então, poderei falar com ele. Assim que o pároco chega, apresento-me e peço que me deixe concelebrar. Responde que teria todo o gosto que eu presidisse à celebração, sendo eu um missionário que está de passagem, mas haverá baptismos e a documentação já está toda processada.

No final da missa, o P.e Ignacio pede-me para celebrar a Eucaristia dominical às 10h30 e às 7h00 de segunda-feira, antes do meu regresso à Cidade do México.

 

A carne de Cristo

A Casa da Caridade é um recanto em que o P.e Antonio de María (conhecido como Padre Toño) desenvolve com poucos colaboradores o exercício da caridade, partilhando o pão com muitas pessoas que batem à sua porta.

Uma atenção muito especial é dada pelo padre e alguns dos seus auxiliares a Tomás, um jovem de 20 anos com grandes limitações que é tratado como rei porque vêem nele a carne de Cristo. «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mateus 25, 40). Para eles, não é uma simples frase, mas o Evangelho tornado vida.

Às 16h00, o Padre Toño leva-me a visitar a Casa do Indigente. Na estrutura, um reduzido grupo de colaboradores ocupa-se dos pobres que vivem ali ou os que vão passando. Atravessamos um grande salão pintado de cores vivas e alegres. Uma árvore em tons infantis destaca-se e dá um ar fresco ao que antes foi um espaço pintado de um preto deprimente, explica-me o missionário.

A surpresa mais agradável desta visita é o encontro com Kelvin de Jesus, jovem natural das Honduras que, depois de ter atravessado a fronteira, foi deportado e viveu um inferno. Escapando das garras do crime e da morte, chegou à paróquia do Padre Toño. Uma vez recuperado, ele tornou-se o braço-direito do missionário. Alimentam o seu empenho a Eucaristia, o estudo da Bíblia, a adoração do Santíssimo e uma tendência natural e sem presunção para a caridade. Isso eu posso testemunhar pela maneira como ele trata os idosos a quem dá carinho, asseia, muda as fraldas, dá banho e corta o cabelo e a barba. Ele faz isso como se o estivesse a fazer ao Senhor. É um verdadeiro anjo.

 

Uma comunidade ministerial

No domingo, à hora de começar a Eucaristia na catedral, deparo-me com a agradável surpresa de ver a igreja cheia e os fiéis entusiasmados. A resposta das pessoas, a participação nos cânticos, dirigidos e animados por um solista de voz potente que faz maravilhas com o teclado são expressões de uma celebração viva e sincera, calorosa e fraterna.

É o terceiro domingo do mês. Na paróquia faz-se uma segunda colecta para o amor aos pobres, que são muitos e com grandes necessidades, seja a nível local, sejam pessoas que vão a caminho dos Estados Unidos ou que são obrigados a regressar ao seu lugar de origem.

Pelos avisos, deduz-se que há uma actividade frenética: pastoral litúrgica, catequese em quase todos os níveis, mas especialmente na preparação para os sacramentos da iniciação cristã e de preparação para o matrimónio, pastoral familiar, retiros para as diversas idades, cursos de evangelização, e muitas outras iniciativas. Algo difícil de imaginar, se se pensa que há apenas um sacerdote. Porém, talvez isso explique a multiplicação de ministérios e de leigos empenhados, especialmente para a distribuição da comunhão.

Para fechar com chave de ouro, no domingo à tarde, Pepe, arquitecto e sobrinho da Sra. Piedad, acompanha-me na visita à Casa do Migrante, uma iniciativa levada adiante pela diocese de Matamoros e outras instituições e ONG.

Recebem-nos duas irmãs de São Vicente de Paulo e alguns voluntários. As irmãs têm o seu dia de folga todos os domingos. Encontramo-las ali no dia de descanso por pura casualidade, porque voltaram para pegar algumas coisas. Actualmente, os hóspedes são poucos. Cerca de quarenta. Nestes dias, as deportações são feitas através de Matamoros. Mas quando os migrantes são deportados através de Reynosa, a Casa do Migrante pode receber até 150 pessoas. Todos são tratados com respeito e dignidade. É-lhes proporcionado um tecto, comida, cama, cuidados médicos e provimentos para as suas necessidades básicas. As histórias que nos contam ocupariam páginas e páginas.

Saindo dali, Pepe oferece-se para me acompanhar a outro lugar que é um símbolo que sintetiza o drama de tantas pessoas: a cruz da memória erguida na margem do rio e à beira da ponte internacional. Ela é, ao mesmo tempo, um muro em que esbarram os sonhos de tanta gente que chega com o objectivo de cruzar a fronteira.

Quando regresso a casa, trago a alma cheia com o que vivi em Reynosa e digo, ainda que possa parecer contraditório, que podemos ser missionários também aqui, no nosso ambiente, na nossa paróquia, ao voltar da esquina.

 

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EDIÇÃO
Julho-Agosto 2019 - nº 693
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