Opinião
01 setembro 2023

Tempo de conversão ecológica

Tempo de leitura: 4 min
Na linha da ecologia integral, o Santo Padre defende uma «conversão ecológica» que leve a mudanças de estilos de vida e políticas públicas, sugerindo «opções positivas».
Bernardino Frutuoso
Director
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(© 123RF)

 

A Terra acaba de registar o mês de Julho mais quente dos últimos 174 anos. Ao conhecer estes dados, o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que «a era do aquecimento global terminou; a era da ebulição global chegou. […] As alterações climáticas estão aqui. São aterradoras. E isto é apenas o começo». Efectivamente, não obstante as teorias negacionistas, percebemos claramente que o nosso planeta está a sofrer os efeitos de uma crise climática que continua a ser agravada pela acção humana (ver páginas 22-25).

Neste contexto de crise climática, é oportuno que celebremos com renovado empenho o «Tempo da Criação» – a celebração ecuménica anual de oração e acção ecológica que começa no dia 1 de Setembro com a Jornada Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, e se prolonga até dia 4 de Outubro, festa de São Francisco de Assis (que este ano coincide com a abertura do Sínodo sobre a Sinodalidade e nos lembra que a Igreja deve ser fonte de vida para a Casa Comum).

Na mensagem para este ano, que tem por tema Que jorrem a justiça e a paz, o papa alerta para a «guerra sem sentido» contra o ambiente, em particular para a destruição dos recursos hídricos, pois «o consumismo voraz [...] está a transtornar o ciclo da água do planeta. O uso desenfreado de combustíveis fósseis e a destruição das florestas estão a criar uma subida das temperaturas e a provocar secas graves». E critica que a água se tenha transformado em «mercadoria sujeita às leis do mercado». Além disso, assinala, «indústrias predatórias estão a esgotar e poluir as nossas fontes de água potável com actividades extremas, como o fracturamento hidráulico para a extracção de petróleo e gás, os megaprojectos de extracção descontrolada e a engorda acelerada de animais».

Francisco cita a encíclica social Laudato Si’ (da qual está a escrever uma segunda parte considerando os problemas actuais, em particular o agravamento da situação climática e os novos recursos tecnológicos, nomeadamente a Inteligência Artificial) para falar numa «dívida ecológica» com os países em vias de desenvolvimento e critica «políticas económicas, que favorecem riquezas escandalosas para poucos e condições degradantes para tantos». Referindo as «vítimas da injustiça ambiental e climática», assinala que «não faz sentido permitir a exploração e expansão contínua das infra-estruturas para os combustíveis fósseis. Levantemos a voz para travar esta injustiça para com os pobres e os nossos filhos, que sofrerão os impactos piores da mudança climática».

O papa desafia os líderes mundiais, que vão estar presentes na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2023 (COP28), no Dubai, a «ouvir a ciência e começar uma transição rápida e equitativa, para acabar com a era dos combustíveis fósseis».

E na linha da ecologia integral, o Santo Padre defende uma «conversão ecológica» que leve a mudanças de estilos de vida e políticas públicas, sugerindo «opções positivas». E enumera algumas acções que todos podemos empreender: fazer o uso mais moderado possível dos recursos, praticar uma jubilosa sobriedade, separar e reciclar o lixo e recorrer a produtos e serviços que sejam ecológica e socialmente responsáveis. 

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Editorial
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