Opinião
03 julho 2019

Medo e violência religiosa

Tempo de leitura: 5 min
A assimilação e a prática da «cultura do diálogo» é o caminho para aproximar as pessoas, superar o medo e fazer florescer a coexistência pacífica.
Bernardino Frutuoso
Director
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Em Portugal, estão registadas 832 confissões religiosas e 91% dos crentes da capital têm a percepção de nunca ter sofrido nenhum tipo de discriminação por causa do seu credo religioso, como revela o estudo Identidades religiosas na Área Metropolitana de Lisboa (Teixeira, 2018). Não é assim noutras latitudes deste mundo globalizado e marcado pelo «medo líquido», metáfora utilizada pelo sociólogo Zygmunt Bauman para referir-se às sociedades ocidentais de hoje, caracterizadas pela incerteza e o medo difuso, sem fronteiras. Efectivamente, a questão da violência religiosa tem-se agravado, segundo os relatórios produzidos pela norte-americana Comissão sobre a Liberdade Religiosa Internacional, o Pew Research Center e a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. No caso específico dos cristãos, mais de 245 milhões são perseguidos em todo o mundo. Em 2018, morreram 4305 seguidores de Jesus Cristo, foram detidos 3125 e 1847 igrejas foram atacadas, segundo um relatório da organização Portas Abertas. Desde 2015, já morreram pelo menos 19 mil cristãos em todo o mundo. Neste contexto, é de louvar que a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) tenha institucionalizado o dia 22 de Agosto como Dia Internacional das Vítimas da Violência Religiosa. Com esta resolução, a ONU pretende condenar todos os «actos de intolerância e violência baseados na religião professada ou nas convicções pessoais», que atingem integrantes de comunidades religiosas e minorias.

Os missionários não estão a salvo de actos de violência. No ano passado, 40 homens e mulheres (35 sacerdotes, um seminarista e quatro leigos) foram assassinados de forma violenta. Viviam, como milhares de missionários, nas periferias existenciais do mundo. Eram testemunhas do amor e serviam sem distinção de raças ou crenças, sendo sinais de esperança, fraternidade e paz. Eram a voz que se alçava para defender os direitos dos mais pobres e marginalizados, denunciando com palavras e acções a injustiça, a maldade e todas as formas de exploração humana. Em fidelidade à sua vocação, não abandonaram os seus lugares de missão apesar dos perigos, as perseguições ou a violência. E assim, por medo ao diferente, tiraram-lhes a vida.

A violência relacionada com a crença religiosa é um drama frequentemente ignorado e invisibilizado no Ocidente, não recebendo a devida atenção da sociedade civil, dos políticos e dos meios de comunicação social. Assim, o dia 22 de Agosto será um lembrete de que os actos de violência com base na religião não poderão ser – e não serão – tolerados pela ONU, pelos Estados-membros e pela sociedade civil. Será, igualmente, uma data para homenagear as vítimas e os sobreviventes de todas as religiões e reiterar que o direito à liberdade de religião ou crença é um direito fundamental de todo o ser humano. Um direito que, como insiste o Papa Francisco, se cultivará nas mentes e nos corações de crianças e adultos mediante a assimilação e a prática da «cultura do diálogo», que é o caminho para aproximar as pessoas, superar o medo e fazer florescer a coexistência pacífica.

 

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Editorial
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EDIÇÃO
Setembro 2019 - nº 694
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