Opinião
15 julho 2019

Guerra (nada) santa

Tempo de leitura: 5 min
Os jiadistas continuam activos na África Ocidental.
José Vieira
Missionário Comboniano
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Apesar de o Estado Islâmico ter sido derrotado no Iraque e na Síria, a jiade – a guerra (nada) santa islâmica – continua a semear violência e morte no Mali, Burkina Faso e Níger.

Os jiadistas e o Governo do Mali estão atados num conflito mortal sem solução armada no Centro do país. Os holofotes estão virados para os líderes religiosos que devem mediar as negociações entre as partes envolvidas no conflito que matou muitos civis indefesos e alguns elementos das forças de paz da ONU.

Militantes islâmicos ligados à al-Qaeda desencadearam uma série de ataques contra igrejas e escolas no Norte do Burkina Faso. A 20 de Março, assaltaram uma escola e mataram quatro professores. O ataque levou ao encerramento de um milhar de estabelecimentos de ensino e deixou 150 mil alunos sem aulas. Entre 5 de Abril e 26 de Maio, terroristas islâmicos mataram 18 católicos (incluindo um padre) e pelo menos seis protestantes em cinco ataques distintos a igrejas e a uma procissão do 13 de Maio.

O Papa Francisco apresentou em 2016 o Burkina Faso como exemplo de tolerância religiosa. Mais de metade da população é muçulmana e o seu modo de viver a fé pode ser considerado blasfemo para os integralistas salafitas. A campanha violenta contra os cristãos pode querer inverter a boa convivência entre crentes de fés diferentes e impor uma versão do Islão mais ortodoxa.

No Níger, o Boko Haram – um movimento jiadista com origem na vizinha Nigéria – tem intensificado os ataques no Sul do país. Atacam sobretudo forças de segurança para capturar armamento, mas recentemente atacaram a sede de uma organização não-governamental. Entretanto, a 13 de Maio um grupo não identificado assaltou a missão católica de Dolbel, na fronteira com o Burkina Faso e o Mali. O pároco ficou ferido. O ataque confirmou rumores de que as missões católicas – e sobretudo os padres – são alvos a atacar.

Os grupos extremistas islâmicos estão também a afectar o Norte do Benim, Togo e Gana. A expansão para as florestas a sul do Sahel dá-lhes protecção contra os ataques das forças governamentais.

Esta onda de militância muçulmana armada na África Ocidental para a imposição de uma prática islâmica mais radical ao jeito do salafismo, promovido pela Arábia Saudita e financiado com os petrodólares, põe em causa a boa vizinhança secular que pessoas de credos diferentes têm praticado. Afecta ainda a vida dos muçulmanos comuns, aqueles que recitam o credo, rezam, dão esmola, cumprem o jejum do Ramadão, se tiverem meios peregrinam a Meca e vivem em paz com os seus vizinhos de outras religiões, gente com quem convivi na Etiópia e no Sudão do Sul.

Os actos dos militantes muçulmanos radicais representam o Islão como religião violenta e obscurantista, contra a educação e contra a cultura. Islão rima com salam (paz em árabe), mas também é verdade que o Alcorão e a cimitarra andaram juntos como juntos andaram a cruz e a espada. A obra Vivências Cristãs em Contexto Islâmico, do Professor Adel Yussef Sidarus, da Universidade de Évora, dá a entender que o Islão medieval foi criador de filosofia e ciência e manteve um forte diálogo científico com médicos cristãos.

É pena que haja quem teime em usar e perverter o Islão para fins políticos de domínio.

 

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Dezembro 2019 - nº 697
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