Opinião
05 agosto 2019

A rocha

Tempo de leitura: 4 min
Toda a pessoa humana, onde quer que esteja, tem a possibilidade de receber a luz de Cristo e de lhe dar alguma resposta.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Há luzes novas que se acendem quando lembramos certas coisas antigas. É o caso de uma ideia dos antigos Hebreus que São Paulo lembra, quase de passagem, na primeira carta que escreve aos cristãos da cidade de Corinto, na Grécia.

Alguns ensinavam, em Israel, que aquela rocha que Moisés tinha golpeado com o seu cajado para dar água ao povo que morria de sede (Num 20,8-11; Ex, 17,1-7), essa mesma rocha continuava a acompanhar, misteriosamente, o caminho do povo de Deus que viajava no deserto, a caminho da Terra prometida. A Rocha de onde jorrava água refrescante “caminhou com eles” até chegarem às margens do rio Jordão.

São Paulo interpreta essa crença antiga de maneira muito surpreendente (ver 1 Cor 10,4): Essa Rocha era Cristo!

Para São Paulo, tratava-se de uma “rocha espiritual”, uma força especial que vinha de Deus e animava o povo a não perder a coragem e a avançar sobretudo nos momentos mais difíceis do caminho. E nessa misteriosa força espiritual, afirma Paulo, era Cristo que já estava presente a guiar o caminho do povo de Israel.

A grande maioria dos hebreus ainda hoje seguem a sua religião e o seu caminho na história da humanidade; não reconhecem em Cristo o Messias que esperavam, excepto um pequeno grupo de alguns milhares. O povo hebreu, que hoje vive uma parte na Palestina e a maioria nas comunidades da diáspora um pouco por todo o mundo, partilha com os cristãos uma boa parte do Antigo Testamento. Não aceitam a nossa fé em Cristo, mas continuam a ser o “povo eleito” aos olhos de Deus (Deus não volta atrás com a promessa solene que tinha feito a Abraão). Eles continuam o seu caminho na história da humanidade, dando testemunho da sua fé no “Deus de Abraão, de Isaque e de Jacob”.

Podemos nós, cristãos de hoje, fazer como São Paulo, e pensar que Cristo continua a ser para os hebreus uma presença misteriosa que ilumina o caminho religioso desse povo, como antigamente no deserto? E se Cristo acompanha os hebreus de hoje, porque não pensar, como já fazem muitos teólogos cristãos, que o mesmo Cristo está misteriosamente presente “no coração” das grandes religiões do mundo, acompanhando e iluminando o que elas têm de bem e de verdade?

O Evangelho de S. João diz que a luz de Cristo ilumina toda a pessoa que vem a este mundo (Jo 1,9). Toda a pessoa humana, onde quer que esteja, tem a possibilidade de receber essa luz e de lhe dar alguma resposta. Com maior razão podemos dizê-lo das pessoas boas que vivem sinceramente a religião em que nasceram e cresceram.

Os antigos hebreus no deserto não sabiam nada de Jesus Cristo, mas a sua luz já os iluminava. Nós, cristãos, podemos pensar o mesmo de todas as pessoas que praticam com sinceridade a sua religião, seja ela qual for, mesmo se nunca ouviram falar de Jesus. E, se olhamos para certas religiões do nosso mundo com olhos de respeito e estima, vemos modos de rezar, de fazer o bem, maneiras de viver com honestidade e bondade, gente que luta pela justiça, expressões de fé em Deus, etc. Para nós, são sinais da luz de Cristo.

Não surpreende: Ele deu a sua vida por todas as pessoas da família humana. E agora acompanha-nos nos nossos caminhos. Como a antiga rocha no deserto, Cristo está misteriosamente presente para saciar a sede mais profunda dos povos que buscam a Deus, cada um pelo seu caminho.

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EDIÇÃO
Julho-Agosto 2019 - nº 693
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