Opinião
06 novembro 2019

Abiy da paz

Tempo de leitura: 4 min
O primeiro-ministro da Etiópia é o Nobel da Paz 2019.
José Vieira
Missionário Comboniano
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O primeiro-ministro etíope foi laureado com o Prémio Nobel da Paz 2019, o centésimo atribuído pelo Comité Nobel norueguês, «pelos seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional e, em particular, pela sua iniciativa decisiva para resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia».

Abiy Ahmed Ali, 43 anos, apesar do apelido árabe – é filho de pai muçulmano e mãe cristã –, é cristão evangélico. Foi escolhido para encabeçar o Governo federal da Etiópia em Abril de 2018, depois da demissão de Hailemariam Desalegn, que governou o país entre 2012 e 2018 e se demitiu por não conseguir travar uma vaga nacional de três anos de protestos violentos contra o Governo.

Abiy é o primeiro oromo a ascender ao topo do poder, a maior tribo da Etiópia, com quase 39 milhões de pessoas. Pertence ao novo tipo de líderes africanos apostados em reformar o sistema político a partir de dentro, «parte dos ventos de esperança que sopram cada vez mais fortes na África», no dizer de António Guterres, o secretário-geral da ONU. É o décimo segundo africano a receber o Nobel da Paz.

Durante os primeiros 100 dias de governo, Abiy encetou reformas estrondosas para atenuar o controlo absoluto do país pelo EPRDF, a coligação política chefiada pelos tigrinos que tomou conta do poder em 1991 e governava o país com braço de ferro. Levantou o estado de emergência, esvaziou as cadeias de milhares de presos políticos incluindo jornalistas, levantou a censura, prometeu abrir a Internet e a rede móvel – propriedade do Estado – a investidores privados, legalizou grupos da oposição armada, limpou o aparelho do Estado de civis e militares corruptos, promoveu a mulher na vida política nacional.

Abiy recebeu o Nobel pelos esforços para restaurar a paz com a Eritreia depois de vinte anos de costas voltadas e fronteiras seladas por uma disputa fronteiriça. Também mediou processos de paz entre a Eritreia e o Jibuti e o Quénia e a Somália e no conflito interno do Sudão.

«Sinto-me honrado pela decisão do Comité Nobel norueguês. A minha gratidão mais profunda para todos os comprometidos e a trabalhar pela paz. Este prémio é para a Etiópia e para o continente africano. Prosperaremos em paz!», escreveu Abiy no Twitter.

A liberalização promovida pelo governante africano mais jovem está a pôr a nu tensões na etnocracia etíope que estavam reprimidas pelas forças de segurança. Normalmente as terras ancestrais são o pomo de discórdia. Gujis e Guedeos envolveram-se em Agosto do ano passado em escaramuças que deslocaram milhares de pessoas no Sudeste do país e no dia da Páscoa ortodoxa deste ano centenas de membros da etnia gumuz foram chacinadas por estarem a ocupar território amara no Centro-Oeste da Etiópia. Os soldados foram lestos a levar os mortos numa tentativa de ocultação da limpeza étnica, mas a matança foi documentada.

Abiy fez questão de mediar o diálogo de paz entre Gujis e Guedeos em Maio deste ano. Aliás, ele fala algumas das línguas do país e nas suas visitas costuma discursar nas línguas locais.

Os Etíopes receberam com orgulho a atribuição do Nobel da Paz ao seu primeiro-ministro, embora também sublinhem que ainda há muito por fazer sobretudo na economia. Vozes mais críticas dizem que Abiy deve pôr o mesmo empenho na resolução dos diversos conflitos interétnicos que ameaçam a integridade do país mais antigo da África. 

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Novembro 2019 - nº 698
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