Opinião
28 dezembro 2019

Das antigas às novas desigualdades

Tempo de leitura: 3 min
A riqueza concentra-se cada vez mais numa pequena faixa da população.
Francisco Sarsfield Cabral
Jornalista
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Durante longos séculos a humanidade viveu económica e socialmente estratificada. A grande maioria vivia pobremente, muitos na miséria. Quem nascia pobre, em regra morria pobre. Só em casos excepcionais (membros do exército, padres) funcionava algum elevador social.

As coisas mudaram com a Revolução Industrial, que começou em Inglaterra no final do século xviii. Mas a transição foi frequentemente trágica. Muitos abandonavam os campos e a agricultura e iam para as fábricas nas cidades. Aí eram ferozmente explorados.

A própria Igreja Católica só acordou para a “questão social” em 1891, com a encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII. Entretanto, tinha perdido para a fé grande parte do operariado dos países industrializados.

Depois, graças às lutas sindicais e ao voto (que nas primeiras décadas do século xx deixou de ser exclusivo dos ricos), começaram a surgir apoios sociais. O chamado Estado social tomou corpo sobretudo na Europa.

O receio do comunismo levou países capitalistas a tomarem medidas sociais. Nos Estados Unidos nunca houve um significativo movimento comunista porque o capitalismo logrou transferir para a classe média a maior parte do proletariado.

Mas a partir do último quartel do século xx essa tendência inverteu-se. O colapso do comunismo levou empresários e gestores ao deslumbramento com ganhar muito dinheiro; a ética empresarial recuou. E os operários pouco qualificados dos países desenvolvidos passaram a sofrer a competição dos salários baixos dos países pobres.

Daí a hostilidade à globalização nas sociedades industrializadas, esquecendo que ela tirou da miséria centenas de milhões do antigo Terceiro Mundo, sobretudo na China. Porventura mais importante para o agravamento das desigualdades são as novas tecnologias informáticas. Quem não se move à vontade nesse mundo tecnológico, fica para trás.

Enfrentamos, assim, um duplo movimento. A nível global, as desigualdades diminuíram, com o crescimento económico de países pobres. Mas no interior dos países, incluindo nos emergentes, as desigualdades têm vindo a agravar-se muitíssimo.

A riqueza concentra-se cada vez mais numa pequena faixa da população (1% ou menos ainda) cujos rendimentos sobem em flecha. A pobreza não foi eliminada, mesmo nas economias mais ricas, como a americana. E há uma enorme insatisfação das classes médias, habituadas a melhorar de nível de vida todos os anos, mas que agora se encontram quase estagnadas e sentem que os seus filhos irão viver pior.

Felizmente começam a aparecer economistas preocupados com a questão. E que a estudam com base na realidade e não em modelos matemáticos baseados em falsas premissas.

No plano político as perspectivas não são animadoras, até porque os muito ricos influenciam as decisões políticas. A insatisfação da classe média baixa levou ao populismo.

Veja-se o caso de Trump. Ele foi eleito graças ao descontentamento dos “sacrificados do progresso”. Mas tem governado para favorecer os ricos, nomeadamente nos impostos, sem que a sua base de apoio tenha percebido a traição... 

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Janeiro 2020 - nº 698
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