Opinião
18 dezembro 2019

Irradiação da sua glória

Tempo de leitura: 4 min
Jesus é a presença plena de Deus neste mundo.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Cerca de cem anos depois do nascimento de Jesus, um escritor cristão escreve um livrito com o título de Carta aos Hebreus. Ele era daquela primeira geração de discípulos de Jesus, logo a seguir aos apóstolos. As comunidades que tinham esse livrito foram fazendo mais cópias, como costumavam fazer com os evangelhos, e com as cartas de São Paulo, e foram-no enviando às outras comunidades que conheciam. Este livrito ajudava sobretudo aqueles que vinham da tradição religiosa dos Hebreus a compreenderem como o caminho que Deus tinha feito com o povo de Israel ao longo de tantos séculos, encontrava o seu momento mais alto precisamente na pessoa de Jesus.

Logo ao início, este livrito diz uma coisa que, se não fosse o hábito de a escutar, dava para ficar de boca aberta e perguntar, mas como é possível?!

Diz que Jesus é a «irradiação da glória de Deus pois nele Deus exprimiu-se tal como é em si mesmo» (Heb 1,3).

Ora olhemos para o presépio: aquele bebé, recém-nascido, que a sua mamã embrulhou em panos e estendeu na manjedoura do gado, essa criança que há pouco deu o primeiro vagido, é a expressão plena de Deus ali presente (irradiação da sua glória)!? Nesse menino Deus exprime-se tal como Ele mesmo é!? As perguntas exprimem maravilha, não é falta de fé.

A cerca de cem anos do seu nascimento em Belém, as comunidades cristãs já acreditavam que Jesus, com toda a sua vida, desde o nascimento em Belém até à sua morte e ressurreição em Jerusalém, era a presença plena de Deus neste mundo. O ponto mais alto da revelação de Deus aos homens. Deus já se tinha manifestado antes, em muitas ocasiões e de muitas maneiras, mas em Jesus essa presença é total, completa. A maravilha é que, mesmo sendo tanto, Jesus não deixa de ser pequeno, limitado, frágil, como nós. Deus aceitou caminhar connosco e manifestar-se a nós na pessoa concreta de Jesus, uma presença plena e ao mesmo tempo situada nos limites do seu tempo, da sua língua, da sua cultura... Se Jesus tivesse nascido na China, ou na África, como teria sido a sua vida, a sua mensagem, a sua maneira de anunciar o Evangelho? Decerto teria tido outros limites e outras possibilidades. Em Jesus, Deus estava pessoalmente e plenamente presente, mas só nos disse o que podia dizer através da vida concreta de Jesus.

Com o tempo, fomos aprendendo a reconhecer e apreciar outras expressões da presença de Deus, no meio dos outros povos. Ele gosta de acompanhar o caminhar dos homens e não deixa ninguém e nenhum povo sem vir ao seu encontro de alguma maneira. É por isso que o Papa Francisco, na declaração que fez juntamente com o Grande Imã muçulmano Ahmad Al-Tayyeb, em Abu Dhabi, no dia 3 de Fevereiro de 2019, disse que a pluralidade das religiões do mundo mostra a bondade de Deus para com todos os povos.

Se assim é, podemos certamente abrir caminhos novos para conhecer as manifestações de Deus nos outros povos, em outras tradições religiosas...

Se Deus ousou manifestar-se plenamente no bebé de Belém, decerto podemos encontrá-lo e tentar ouvir o que tem para nos dizer também nas tradições religiosas dos outros povos. O diálogo respeitoso e amigo com os crentes de outras religiões poderá abrir a nossa mente e coração à imensa criatividade que Deus usa para se manifestar e caminhar com a nossa família humana.

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