Opinião
06 janeiro 2020

Caminhar juntos

Tempo de leitura: 4 min
O desafio dos discípulos é reconhecer Jesus e partir para O anunciar.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Janeiro sabe a vida nova. No dia de Ano Novo todos gostamos de pensar que damos início a uma nova caminhada com horizontes de esperança e de optimismo.

Ainda há pouco festejámos o Natal, quando Jesus começou a sua caminhada connosco num ambiente de ternura, simplicidade e pobreza e daqui a pouco já iremos começar a olhar para a Páscoa – festa da morte e ressurreição de Jesus – quando ele se transformou para poder continuar para sempre a caminhar connosco. Como ele mesmo disse, aparecendo aos discípulos algumas semanas depois: «Eu estarei sempre convosco, todos os dias, até ao fim do mundo» (Mt 28,20).

As primeiras a encontrar-se com ele vivo foram um pequeno grupo de mulheres que, no primeiro dia da semana – a seguir ao dia santo de sábado, em que não era permitido ocupar-se dos mortos – foram ao túmulo levando os perfumes necessários para acabar de arranjar o que não tinham tido tempo de fazer na sexta-feira, dia da sua morte e sepultura. Caminharam para lá logo de madrugada, assim que havia alguma luz. À beira do túmulo aberto, Jesus apareceu-lhes vivo e falou com elas, mesmo se não o reconheceram logo. O evangelho de Lucas dá-nos o nome de algumas delas: Maria Madalena, Joana e Maria, a mãe do discípulo Tiago (Lc 24,10).

Elas correram logo a levar a notícia aos outros discípulos, que tinham ficado escondidos em Jerusalém. Pedro arrancou e foi a correr ao túmulo: estava aberto, e lá estavam os lençóis de linho com que tinham embrulhado à pressa o corpo. Mas não encontrou ninguém. Ficou admirado, sem saber para onde se virar.

Alguém podia pensar: claro que Pedro não encontrou ninguém, nem podia; para encontrar Jesus não se vai de corrida, e sobretudo não se vai sozinho!

Foi isso mesmo que aprenderam outros dois discípulos de quem não sabemos o nome. Só sabemos que, nesse mesmo dia, caminhavam juntos, partilhando a tristeza do que tinha acontecido ao mestre que eles tinham seguido, Jesus. De Jerusalém caminhavam para uma povoação chamada Emaús (Lc 24,13).

O próprio Jesus junta-se e caminha com eles todo o dia, incógnito. Aquela caminhada que fizeram juntos acabou por se tornar uma viagem à descoberta de Jesus ressuscitado, que eles reconheceram só à chegada a Emaús quando se sentou com eles à mesa e repetiu o gesto de partir o pão, como tinha feito na Última Ceia.

Cheios de alegria por aquele encontro, voltaram logo a Jerusalém para anunciar aos outros que Jesus estava vivo, que tinha caminhado com eles, e que o tinham reconhecido ao partir do pão.

Os missionários e missionárias consagrados na vida religiosa gostamos de ver nesta caminhada dos dois de Emaús um modelo da maneira como nós vivemos e anunciamos Jesus: também nós fazemos uma longa caminhada. Dedicamos a vida toda à nossa busca de encontro com o Senhor; caminhamos juntos, vivemos em comunidade; quem quer fazer só uma breve corrida, sozinho, para procurar ou anunciar Jesus não serve para o nosso modo de vida; o nosso caminho juntos em busca do Senhor é inseparável do nosso serviço de anunciar o evangelho. Caminhamos juntos e anunciamos juntos. E no nosso caminhar juntos está sempre presente aquele “peregrino especial” que acompanhou os dois de Emaús. Também para nós, o desafio é conseguir reconhecê-lo e partir de novo para O anunciar. 

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EDIÇÃO
Junho 2020 - nº 703
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