Opinião
15 janeiro 2020

O que se passa?

Tempo de leitura: 4 min
Não sei o que se passa, mas há qualquer coisa de estranho no comportamento que demonstramos ter quando usamos o WhatsApp (um nome relacionado com a fonética em Inglês – What’s up – que em português se traduz por – o que se passa).
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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O WhatsApp é uma das aplicações mais usadas para comunicar entre as pessoas com cerca de mil milhões de utilizadores a comunicar diariamente. Nessa existe a possibilidade de criar grupos onde, se não forem selecionadas as opções corretas, podemos ser inseridos por qualquer pessoa, e ter de ser desagradáveis quando saímos do grupo porque, na realidade, ninguém nos perguntou sequer se gostaríamos de estar inseridos ou não.

Não há dúvida de existirem muitas vantagens numa aplicação como esta, mas a questão que se coloca é sobre o efeito que está a ter sobre o modo de comunicarmos e conversarmos.

Depois de ter saído das redes sociais comecei a estar mais atento e entender melhor o modo como se comunica através da tecnologia. Muitas vezes recebia muitos ”gostos” no Facebook de pessoas que encontrava mais tarde, fisicamente, e, quando perguntava o que tinham achado do artigo, percebia que não o tinham lido. Ou seja, disseram que gostaram como reacção ao facto de ter escrito, mas nem sequer leram para saberem se realmente gostam ou não. As redes sociais transformaram o modo de comunicar de activo para reactivo. Porém, enquanto o modo activo implica pensar sobre o que se lê antes de responder, o modo reactivo deixa ao outro a interpretação da nossa reacção, diminuindo a possibilidade de profundidade nas nossas conversas. Temo que o WhatsApp esteja a enveredar por esse caminho.

Algumas das experiências que fiz no WhatsApp levaram-me a pensar se pessoas sofrem de algo – cuja expressão ouvi e achei interessante – como distúrbios telemocionais. Estes distúrbios devem-se à falta de sensibilidade e capacidade de comunicar quando as pessoas partilham alguma coisa para os diversos grupos onde estão inseridas, sem verificarem o que está antes. Algo mais na linha da comunicação reactiva do que activa.

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Por exemplo, alguém pode partilhar uma dificuldade familiar, ou um problema grave, a partida de alguém próximo e, a seguir, alguém envia uma mensagem com um vídeo sobre um assunto interessante, mas que não tem nada a ver. Ridículo, mas a realidade é que a pessoa nem se apercebeu do que fez.

Muitas pessoas lidam com os grupos de WhatsApp como lidam com qualquer mural de uma rede social. Penso que devíamos ter mais cuidado.

Oiço muitas pessoas dizerem que já não suportam aquele grupo e silenciaram-no. Eu próprio experimento, das poucas vezes que abro o WhatsApp, como há grupos com mais de 20 mensagens não lidas em que grande parte são emojis. Será isto comunicar? O que se passa?

O escritor Jonathan Weinberg diz que – «O problema é que ninguém mais fala através do telefone. Mesmo quando éramos jovens, eu e os meus amigos falávamos ao telefone para nos mantermos a par daquilo que o outro estava a viver. Agora, é tudo WhatsApp. Encontramo-nos também menos e as nossas vidas tornaram-se alimentadas pelas nossas conexões WhatsApp.»

A comunicação implica um acto de comunhão com o outro que nos envolve totalmente. A comunicação exige uma conversa real com escuta activa e atenta, não reactiva ou distractiva. As ferramentas de comunicação têm valor quando são usadas para melhorar o modo de comunicar. E o exercício de escuta atenta pode existir se pensarmos bem no modo como a nossa mensagem se enquadra na conversa pré-existente no grupo. Logo, é preciso ler primeiro e não partilhar cegamente como acto reactivo. Aconteceu-me muitas vezes decidir não partilhar algo por ter percebido que não se enquadrava na conversa. Aprendi como é importante saber perder o que desejamos partilhar por amor à comunhão que se gera quando a comunicação é autêntica.

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Setembro 2020 - nº 705
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