Opinião
03 abril 2019

Ouvir os outros

Tempo de leitura: 5 min
Hoje, Deus poderá falar-nos por intermédio de pessoas que não são do nosso povo e da nossa religião.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Que Deus fala, isso, todos aceitamos. A certeza de que Deus fala está na base de boa parte da experiência religiosa de muitos povos. Ele estabelece uma comunicação connosco, e nós gostamos de responder, com gestos, com rituais, etc. E em algumas religiões, como a nossa, podemos mesmo responder-lhe, e temos a certeza de que Deus escuta e entende o que lhe queremos dizer.

Podemos ouvir a Sua voz! É isso mesmo que dizemos sempre que, ao terminar uma leitura da Bíblia, o leitor diz «Palavra do Senhor» e nós respondemos «Graças a Deus!».

Onde podemos começar a esbarrar é quando consideramos que esse Deus que nos fala algumas vezes escolhe “altifalantes estranhos”. O mais lógico seria Ele falar-nos através de pessoas que reconhecemos como “dos nossos”, gente que partilha a nossa tradição e a nossa mesma fé.

Mas Deus gosta de nos surpreender, e às vezes convida-nos a escutá-lo quando ele fala “através dos outros”.

Já foi esse o esforço que Deus pediu ao povo de Israel, em momentos de particular dificuldade. Um desses momentos foi quando a Sua Palavra foi comunicada através de um profeta que dava pelo nome de Balaão; era estrangeiro e não pertencia à religião de Israel. Encontramos a sua história no livro dos Números, capítulos 22 até 24. Tinham terminado havia pouco a guerra com os Amorreus, e agora já tinham de enfrentar outra terrível ameaça, Balac, rei dos Moabitas. Para ter a certeza de que podia desbaratar o exército de Israel, Balac manda chamar o visionário mais famoso que conhecia, um certo Balaão, que vivia no Norte da Mesopotâmia. Prometeu-lhe riquezas imensas para ele amaldiçoar Israel e assim lhe assegurar a vitória. Depois de alguma hesitação, Balaão aceita, com a condição de dizer e fazer só o que Deus lhe ordenava, e põe-se a caminho. Deus aparece várias vezes ao longo da viagem e «põe as Suas palavras na boca de Balaão». Essas palavras recebidas de Deus acabam por ter mais força do que o muito ouro e prata que o rei prometia, e Balaão vai profetizar sobre o povo de Israel, mas o que sai da sua boca já não é a maldição encomendada, mas sim as famosas palavras de bênção: «Oráculo de Balaão, filho de Beor, oráculo daquele que ouve as palavras de Deus: como são belas as tuas tendas, Jacob, e as tuas moradas, Israel...» Era uma promessa de libertação para o povo de Deus ameaçado! Mas não fica por aí: é da boca desse mesmo profeta pagão que vem a linda promessa que «um dia, da descendência de Jacob se elevará uma estrela, e de Israel nascerá um rei que há-de exercer o domínio». E o nosso pensamento vai até Belém, onde nasce, muitos séculos mais tarde, Aquele que é a Estrela que ilumina a todos, o grande Rei do mundo, Jesus Cristo.

É surpreendente que Deus tenha escolhido um pagão, um estrangeiro que não pertencia ao seu povo santo, para comunicar a Sua Palavra. E essas palavras fazem parte desses textos sagrados que nós hoje lemos durante a nossa oração para dizermos ao fim: é Palavra de Deus!

Podemos pensar que, ainda hoje, Deus poderá dirigir-nos a sua palavra também por intermédio de pessoas que não são do nosso povo e da nossa religião? Deus parece que nunca se cansa de nos oferecer agradáveis surpresas!

 

alem-mar_apoio

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EDIÇÃO
Julho-Agosto 2019 - nº 693
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