Opinião
07 abril 2019

Luz para todos

Tempo de leitura: 5 min
Cristo já está misteriosamente presente a dar força e a iluminar o caminho de toda a humanidade.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Era o domingo das vestes brancas (Dominica in Albis, a seguir à Páscoa), quando os novos cristãos, baptizados na noite de Páscoa, vêm todos juntos à celebração da missa para se apresentarem à comunidade cristã e começarem o caminho das catequeses depois do baptismo (nas quais aprendem sobre os sacramentos e outros aspectos da vida cristã). No fim da missa, ficámos em conversa alegre com uns e outros; no meio de outras coisas uma senhora dos seus 40 anos disse-me: «É verdade que comecei a conhecer Jesus só há três anos, mas agora vejo que Ele já me acompanhava desde sempre, e quando lembro certos momentos da minha vida, tenho a certeza que foi Ele que me mostrou o caminho a seguir.»

Ela tinha toda a razão: Cristo está sempre misteriosamente presente a dar-nos a sua graça e a sua luz, mesmo quando não o conhecemos ou não damos conta da sua presença. Como diria São João, Ele é a «Luz que ilumina toda a pessoa que vem a este mundo» (Jo 1,9).

A descoberta feita por aquela senhora recém-baptizada ajuda-nos a pensar como nós, cristãos, podemos ver a situação de muitas outras pessoas. De raças e religiões diferentes.

Pensemos, por exemplo, se aquela senhora de facto nunca tivesse chegado à fé cristã, nunca tivesse chegado a descobrir a presença de Jesus na sua vida; nós, cristãos, podíamos dizer que uma parte da sua história continuava a ser verdadeira, isto é, que “Cristo a acompanhava desde sempre e iluminava o seu caminho”, mesmo sem ela saber de onde lhe vinha aquela força e aquela luz.

Aqui se abre uma perspectiva maravilhosa: o que aquela jovem mãe descobriu acerca da sua vida passada é o segredo da vida de todo o ser humano que vem a este mundo. Notemos que o Evangelho de São João não diz que Cristo é a luz “que devia iluminar”, ou que “um dia há-de chegar a iluminar todo o ser humano”; São João diz muito claramente que Cristo é a luz verdadeira que ilumina todo o ser humano.

E assim, nós cristãos acreditamos que Cristo já está misteriosamente presente a dar força e a iluminar o caminho de toda a humanidade, seja qual for a religião que praticam e a situação em que vivem.

Então compreendemos que é normal que Deus actue como indiquei com a história de Job, no mês passado: Deus pode usar uma “sua palavra” dirigida a um povo para iluminar o caminho de outro povo.

Uma das grandes alegrias da vida missionária está mesmo aqui: saber que Deus nos precede na vida das pessoas e povos a quem somos enviados. Que bonito estudar as suas culturas, tradições e práticas religiosas e descobrir aí sinais claros dessa presença da luz de Cristo que os acompanhava já, em segredo, respeitando os seus ritmos e os caminhos que percorriam ao longo da sua história.

Para quem descobre e aceita a fé cristã, é a alegria de ver que Deus não chega de repente, como uma invasão. O Cristo, que descobrem e encontram nos Evangelhos e na comunidade cristã a que se juntam, estava já presente desde sempre, acompanhando com grande delicadeza e respeito o caminho das suas vidas.

Não admira que as pessoas que chegam assim à fé cristã sintam a necessidade de passar a boa notícia a muitos outros. Todos os anos havia cristãos recém-baptizados que pediam para poderem ajudar na catequese; naturalmente podem começar por ajudar outros catequistas durante alguns anos para aprenderem como se transmite a outros essa fé que lhes dá tanta alegria.

 

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Julho-Agosto 2019 - nº 693
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