Opinião
17 março 2020

Praga de gafanhotos

Tempo de leitura: 4 min
Gafanhoto-do-deserto ataca Corno de África.
José Vieira
Missionário Comboniano
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Uma nuvem densa e voraz de milhares de milhões de gafanhotos-do-deserto pôs em sobressalto o Corno de África ao destruir culturas e pastos e pondo em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Os enxames de gafanhotos desenvolveram-se numa zona remota da península arábica desde Junho de 2018 devido a chuvas abundantes e dois ciclones, resultado das mudanças climáticas.

Quando a vegetação começou a escassear, os gafanhotos, à boleia do vento, atravessaram o mar Vermelho e rumaram em direcção ao Quénia, Etiópia e Somália em números sem precedentes. Há vinte e cinco anos que a Etiópia e a Somália não testemunhavam uma praga destas dimensões e o Quénia há setenta. Nuvens de saltões já estão a chegar ao Egipto, Sudão, Eritreia, Tanzânia e Uganda e podem invadir o Sudão do Sul.

A FAO, a organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura, alerta que, se nada for feito para travar a praga, em Junho os saltaricos vão multiplicar-se por 500 com a chegada das chuvas. Cada fêmea põe dezenas de ovos (por vezes mais de 100) na terra húmida e pode procriar pelo menos três vezes. O período de incubação oscila entre 10 dias e um mês. Um insecto vive de três a cinco meses.

Os enxames, formados por centenas de milhões de gafanhotos, deslocam-se a uma velocidade de 150 quilómetros por dia, destruindo pastagens e culturas pelo caminho. Um gafanhoto-do-deserto pesa dois gramas e consome por dia o seu peso em vegetais. Pode parecer coisa pouca, mas dois gramas multiplicados por centenas de milhões de gafanhotos deixam uma pegada devastadora no meio ambiente.

António Guterres, secretário-geral da ONU, alertou no fim de Janeiro para a origem e perigo da praga. «Os gafanhotos-do-deserto são extremamente perigosos. Provocado pela crise climática, o surto está a piorar a já horrenda situação de segurança alimentar na África Oriental», tuitou.

Os governos locais não têm capacidades técnicas nem financeiras para enfrentar os enxames cada vez maiores e pedem ajuda ao estrangeiro. Para combater a praga, são necessários pulverizadores aéreos e terrestres com insecticidas.

Os chefes de Estado da IGAD, a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento no Leste de África, pediram a meados de Fevereiro ajuda aos parceiros internacionais e de desenvolvimento «para apoiar os esforços dos Estados-membros da IGAD uma vez que os países da região não têm a capacidade financeira, técnica e logística requerida para enfrentar efectivamente a invasão dos gafanhotos».

A FAO calcula que são precisos mais de 64 milhões de euros para controlar a praga no Corno de África e ajudar os agricultores a enfrentar as perdas nas culturas e colheitas.

O gafanhoto-do-deserto (Schistocerca gregaria) é a mais perigosa das doze espécies de saltaricos. Vive na faixa semidesértica de 20 países da África Ocidental até à Índia numa extensão de cerca de 16 milhões de quilómetros quadrados. Um enxame de gafanhotos-do-deserto pode ter cerca de 80 milhões de insectos por quilómetro quadrado e pode destruir num só dia os alimentos necessários para 35 mil pessoas.

 

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EDIÇÃO
Março 2020 - nº 700
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