Opinião
19 março 2020

Finalmente temos tempo para pensar

Tempo de leitura: 4 min
Quando ouvimos música, lemos poesia, e na vida em geral, o descanso, a pausa, ou qualquer movimento mais lento é essencial para compreendermos o todo.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Felizmente, a distopia que nos circunda hoje é diferente daquela que vemos nos filmes, mas a experiência que fazemos de um período histórico da narrativa humana sobre este planeta é real. Antes fosse virtual. Mas será que a virtualização da vida humana está a influenciar o modo como vivemos esta realidade pandémica?

A informação antes passava pelos telejornais, pelos jornais, mas hoje sabemos tudo ao minuto, senão mesmo ao segundo. Por um lado, sem sairmos de casa, minimizando o risco de contágio, acabamos por estar informados mais rapidamente e agir de acordo com isso. É um fruto excelente da virtualização. Por outro lado, o acesso permanente a novas informações aumenta a ansiedade e corremos o risco de viver atemorizados, escalando as emoções e acabando por consumir o tempo e a atenção que poderíamos dedicar a coisas novas ou diferentes, com mais do mesmo, minuto após minuto.

Há três décadas, sair de casa aliviava os ritmos domésticos, dada a azáfama das crianças, pelo que, ficar fechado de quarentena nos nossos lares seria muito difícil. Mas hoje deixou de ser um problema. Com a fonte ininterrupta de entretenimento, cada um pode criar o seu espaço virtual para passar o tempo, e tem uma boa desculpa para isso, mas o preço de criar o hábito pode sair caro. Quer isso dizer que há uma oportunidade única para viver de um modo diferente e menos virtualizado.

Há quem se queixava de nunca ter tempo para ler. Mas sabendo que ler aguça a mente, este é o tempo apropriado para criar um novo hábito de leitura. Sabia que ler reorganiza o cérebro, tornando-o mais perspicaz e saudável? Como vi uma vez escrito numa t-shirt – «Use it or loose it.» – usa-o ou perde-o.

«Saber como algo se originou é, muitas vezes, a melhor pista para saber como funciona.» (Terrence Deacon, neuroantropólogo americano)

Maryanne Wolf, que estudou em profundidade a relação entre o cérebro e a leitura, chegou a uma conclusão sobre a «contribuição mais importante do cérebro que lê: tempo para pensar.»

Quando ouvimos música, lemos poesia, e na vida em geral, o descanso, a pausa, ou qualquer movimento mais lento é essencial para compreendermos o todo. Daí que a leitura meditativa seja lenta porque o seu objectivo é maior do que uma simples compreensão do que se lê. É um entrar no interior para escutar Aquela Voz através da qual Deus nos fala. Exige tempo.

O nosso cérebro não possui uma capacidade inerente para ler. Antes, teve de se adaptar à leitura. Se pensarem bem, andamos (corremos) ou falamos mais depressa do que aprendemos a ler. E se estamos cognitivamente preparados para desenvolvermos a capacidade de ler, a partir desse momento, a leitura transforma fisicamente o nosso cérebro de muitas maneiras, ainda em evolução. Por isso, a revolução da nossa capacidade para a leitura extravasa o âmbito neuronal e cultural que lhe deu origem, mas levou-nos também a descobrir uma capacidade mais avançada ainda: a de escrever.

Em suma, do hábito de ler surge, muitas vezes, o desejo de escrever. Mas o que reside no centro de toda esta revolução ao nosso alcance é, de novo, o tempo para pensar. Tempo que, para muitos, era uma mera utopia. Não é curioso como um minúsculo ser nos abre a possibilidade de evoluirmos?

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Junho 2020 - nº 703
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