Opinião
17 abril 2020

Tecnologia verde

Tempo de leitura: 4 min
Africana avança solução biotecnológica.
José Vieira
Missionário Comboniano
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Quando visitei a barragem de Jinja, no Uganda, à saída do Nilo Branco do lago Vitória, fiquei espantado com o espesso manto florido de jacintos-de-água em que se transformou a albufeira. Até me apeteceu caminhar sobre o lago!

O jacinto-de-água (Eichhornia crassipes) é natural da bacia do Amazonas, no Brasil. Por ser uma planta exótica com uma linda flor lilás, viajou para os cinco continentes via jardins botânicos e indústrias decorativas. A planta flutuante converteu-se numa praga global e põe em causa o equilíbrio ecológico de muitas bacias hidrológicas e lagos nos cinco continentes, incluindo Portugal (como é o caso do rio Sorraia). Em pequenas quantidades funciona como purificador da água doce, mas, como se multiplica desmesuradamente, afecta seriamente os ecossistemas aquáticos por não permitir a oxigenação da água, matando os peixes e a vida subaquática, entope canais de navegação e irrigação e causa avarias nas hidroeléctricas.

O crescimento super-rápido dificulta o seu controlo, que pode ser mecânico, químico ou biológico. Além da ornamentação, o jacinto-de-água é usado em forragem para animais, estrume e biocombustíveis.

A crise ecológica representou uma oportunidade para Mariama Mamane (na foto). A engenheira ambiental, de 29 anos, do Burquina Faso, ganhou o prémio Jovens Campeões da Terra 2017 da UNEP, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O seu projecto Jacigreen propunha transformar os jacintos em fonte sustentável de energia e de adubos orgânicos e lançar as bases para uma economia verde que combata as alterações climáticas e garanta a segurança alimentar.

Com os 15 mil dólares do prémio, comprou materiais para montar uma unidade-protótipo e testar as suas ideias. Agora produz fertilizantes e biogás com as plantas que sufocam cursos de água em mais de 40 países da África e noutros continentes. O processo é simples: as plantas são cortadas, fermentadas e transformadas em composto para a agricultura. O gás metano libertado no processo é armazenado e usado na produção de energia eléctrica.

«O nosso objectivo é fornecer soluções para famílias que não têm acesso à electricidade e usam madeira. O biogás pode reduzir a deflorestação e a invasão do deserto nas comunidades. O nosso objectivo também é chegar ao número máximo de agricultores para reduzir o uso de fertilizantes químicos, construindo um ecossistema flexível e produtos mais saudáveis para os consumidores», explicou Mariama numa entrevista recente à UNEP.

E tem um sonho: produzir em 2021 biogás suficiente para fornecer electricidade a 500 habitações e fertilizante biológico a mais de 1000 agricultores.

A jovem engenheira explicou que para pôr em prática o projecto teve de importar tecnologia da China e da Alemanha e fazer de pedreiro a picheleiro para desenvolver a unidade-protótipo. As dificuldades, contudo, não a desencorajaram, antes lhe deram mais energia para crescer na carreira profissional.

Para Mariama, que quer inspirar outras jovens a lutar por um futuro melhor, o jacinto-de-água transformou-se de praga ecológica grave em oportunidade para o desenvolvimento sustentável e amigo do ambiente num país com problemas de segurança alimentar e energia. 

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Julho 2020 - nº 704
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