Opinião
17 junho 2020

Cabo sofrido

Tempo de leitura: 4 min
O bispo de Cabo Delgado pede fim da guerra odiosa.
José Vieira
Missionário Comboniano
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Dom Luiz Fernando Lisboa, bispo de Pemba, lançou um dilacerante grito de socorro perante a situação de terror que a província moçambicana de Cabo Delgado vive desde 4 de Outubro de 2017, quando rebeldes muçulmanos fizeram o primeiro ataque na área.

O bispo faz com «profunda indignação» o historial da violência dos insurgentes, que começaram por alvejar as forças de segurança, mas agora atacam «as populações indefesas com requintes de crueldade» sobretudo desde o final do ano passado. Em Março, mataram 52 pessoas em Xitaxi, jovens na maioria, que recusaram integrar as suas fileiras. As forças de segurança não são eficazes, denuncia.

Os ataques, que passaram das aldeias remotas às cidades litorais «em grande estilo, por terra e por mar», já fizeram, nas contas do prelado brasileiro, mais de duzentos mil deslocados e entre quinhentos e mil mortos. As populações e as autoridades fogem para as cidades. Com a agricultura parada há dois anos, «a fome é outra realidade gritante». As crianças e os jovens não vão à escola.

Cabo Delgado, que é o epicentro da covid-19, está mergulhado na pobreza, no desemprego e no analfabetismo desde a era colonial, apesar da riqueza imensa do território, incluindo enormes jazidas de gás natural, petróleo, rubis e outras pedras preciosas. A província funciona também como entreposto no tráfico de heroína.

Os primeiros ataques foram obra de um grupo de jovens muçulmanos doutrinados por clérigos quenianos que pregam o salafismo, a versão radical do Islão patrocinada pela Arábia Saudita. Eram financiados por comerciantes tanzanianos. Autodenominavam-se Al Shabab («Jovens», em árabe), mas não tinham ligações com os congéneres somalis. Financiavam-se com o contrabando de madeira e usavam armas tiradas aos soldados.

A situação mudou em meados de 2019, quando aparentemente o autoproclamado Estado Islâmico da Província da África Central mudou a base da República Democrática do Congo para o Norte de Moçambique. Os combatentes usam a bandeira negra do Estado Islâmico e os seus ataques aumentaram em número e violência. Em 2020, fizeram mais de cem incursões.

O Governo do Maputo levou algum tempo a reagir à violência na província. Usou sobretudo a polícia de choque e mercenários russos, que, apesar de bem apetrechados, sofreram algumas baixas e regressaram à base em Nacala.

No final de Abril, Maputo anunciou ter matado 129 rebeldes e recuperado o domínio de algumas localidades. Contribuíram para o êxito helicópteros do Zimbabué e da África do Sul, mercenários sul-africanos e drones, aeronaves controladas à distância, que seguem dos céus os movimentos dos insurgentes.

A guerra em Cabo Delgado, contudo, não tem solução militar. O Governo precisa de promover o desenvolvimento local, investindo parte da riqueza gerada pelas indústrias extractivas na província onde nasceu o presidente Filipe Nyusi. A produção de gás, prevista para 2022, precisa de segurança.

Dom Luiz, por seu turno, propõe a formação de uma comissão suprapartidária «com membros da Assembleia da República, do Judiciário, da sociedade civil para ajudar o Governo no enfrentamento desta odiosa guerra» e pede ajuda concreta das Nações Unidas, União Africana e União Europeia.

 

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Julho 2020 - nº 704
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