Opinião
01 julho 2020

Salvar a Casa Comum

Tempo de leitura: 4 min
Este Ano Laudato Si’ apresenta-se como um kairós, um tempo oportuno / tempo de Deus, que nos pode orientar na rota da ecologia integral.
Bernardino Frutuoso
Director
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Cumpriram-se, no passado mês de Maio, cinco anos da publicação da encíclica ecológica e social Laudato Si’, um dos textos excepcionais do início do século xxi. No documento, o Papa Francisco traça uma crítica global ao modelo tecnocrático dominante e propõe que a ecologia integral se torne um novo paradigma da justiça, em que o cuidado da Natureza e a preocupação para com os mais frágeis e descartáveis da sociedade sejam inseparáveis. Como tudo está interligado, o cuidado dos ecossistemas é fundamental para promover a dignidade de cada pessoa e o bem comum, e só há progresso autêntico com a garantia de uma inter-relação entre o campo social e o ambiental.

Para realçar a relevância desta profética encíclica – que nos fornece a bússola para construir um futuro mais justo, fraterno e sustentável –, o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral da Santa Sé convocou o Ano Laudato Si’, um tempo especial para reflectir/actuar com base no texto do pontífice e «chamar a atenção para o grito da Terra e dos pobres», como referiu o Papa Francisco. O objectivo é apresentar no final deste período – no dia 24 de Maio de 2021 – um compromisso público comum com vista a uma «sustentabilidade total», a ser alcançada no prazo de sete anos.

A iniciativa desenvolve-se nesta nova época, desafiante e complexa, da (pós-)pandemia e converte-se, lembra o Dicastério do Vaticano, numa «oportunidade única para transformar a destruição que nos rodeia numa nova forma de viver juntos, unidos no amor, na compaixão e na solidariedade, e numa relação mais harmoniosa com a Natureza, a nossa casa comum».

Na mesma linha, o cardeal José Tolentino Mendonça referiu no discurso que pronunciou nas celebrações do 10 de Junho: «A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão.»

Nessa perspectiva, sublinha o comunicado do Dicastério, «para começar a pensar no mundo que virá despois da covid-19, necessitamos de um enfoque integral, pois tudo está intimamente relacionado, e os problemas actuais requerem um olhar que tenha em conta todos os factores da crise mundial». E o texto acrescenta que «a urgência da situação climática requer respostas imediatas, holísticas e unificadas em todos os âmbitos: local, regional, nacional e internacional». 

Construir uma nova civilização e conseguir uma transformação socioecológica são grandes desafios para os discípulos missionários de Jesus e para toda a Humanidade. Este Ano Laudato Si’ apresenta-se como um kairós, um tempo oportuno / tempo de Deus, que nos pode orientar na rota da ecologia integral. É uma ocasião favorável para um processo de conversão ecológica – que restabelece laços de comunhão com todos os seres vivos e exige a multiplicação de pequenos gestos ecológicos na vida quotidiana – e para elaborar um novo pacto ambiental, que salve a casa comum e, portanto, a vida.

 

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Editorial
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EDIÇÃO
Julho 2020 - nº 704
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