Opinião
28 julho 2020

Máquinas de corrida

Tempo de leitura: 4 min
Atletas da África Oriental dominam meio-fundo e fundo há décadas.
José Vieira
Missionário Comboniano
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O etíope Abebe Bikile ganhou, descalço, a maratona olímpica de Roma em 1960 e inaugurou o domínio dos fundistas da África Oriental. Voltou a ganhar a prova-rainha do atletismo em Tóquio, quatro anos depois. Em 1968, no México, lesionado, cedeu o lugar no pódio ao compatriota Mamo Welde.

Hoje, os dez mais rápidos corredores da maratona são do Quénia (quatro) e da Etiópia (seis). Entre as atletas, cinco são quenianas, três etíopes, uma é inglesa (com o segundo melhor tempo) e uma israelita. Nas provas específicas, nos 10 quilómetros e na maratona, as mais rápidas são sete do Quénia e três da Etiópia; nos homens, cinco são do Quénia e três da Etiópia.

O queniano Eliud Kipchoge (na foto) foi o primeiro a correr a maratona em menos de duas horas em Viena com o tempo-canhão de uma hora, 59 minutos e 40 segundos. O recorde, contudo, não foi homologado, porque a prova não seguira as regras de andamento e da toma de fluidos. Mas é o maratonista mais rápido: ganhou a maratona de Berlim em 2018 com o tempo de duas horas, um minuto e 39 segundos. Kipchoge venceu 12 das 13 maratonas em que participou.

Qual é o segredo do domínio absoluto dos atletas da África Oriental sobretudo na maratona, a prova dos 42,195 quilómetros, e a capacidade para bater recorde atrás de recorde?

As respostas são variadas. Os atletas dos dois países treinam em áreas altas do vale de Rift, onde o ar tem menos oxigénio, o que lhes dá mais resistência. Depois, os estudantes fazem muitos quilómetros a pé para ir à escola. Há ainda a questão da alimentação rica em verduras e amido e com pouca carne.

No caso do Quénia, há um dado transversal: os melhores atletas pertencem à tribo dos Kalenjins, um povo nilótico que vive no vale de Rift e tem algumas características físicas especiais: são altos e magros, com a barriga das pernas e tornozelos finos, aspectos morfológicos que favorecem a corrida.

Além disso, os ritos de iniciação, tanto dos rapazes como das meninas, fazem com que tenham uma capacidade enorme de sofrimento para aguentar a dor, um dos predicados para correr provas de longa duração, que exigem grande esforço físico e psicológico. Kipchoge Keino bateu o recorde dos 1500 metros nas olimpíadas do México em 1968 com uma infecção dolorosa na vesícula. Os médicos aconselharam-no a não competir, mas ele foi mais forte que a dor: venceu com um recorde olímpico.

Na Etiópia, os atletas campeões são de tribos diferentes, mas muitos vêm do vale de Rift, oromos da zona de Arsi. Treinam juntos com programas muito exigentes, são disciplinados e beneficiam da boa organização do sector. Quando vivia na Etiópia e, de madrugada, viajava da capital para Sul, encontrava as estradas à volta de Adis-Abeba cheias de gente a correr antes que o ar ficasse inquinado pelos gases dos velhos veículos. A cidade fica a quase 2500 metros de altitude e a madrugada é geralmente muito fria.

Uma nota relevante: o missionário irlandês Colm O’Connell foi para a Escola Secundária de São Patrício em Iten (no vale de Rift queniano) para leccionar Geografia por três meses, em 1976. Fundou uma equipa de atletismo (que produziu alguns dos melhores fundistas) e por lá ficou até hoje. É conhecido como o padrinho dos corredores quenianos e o melhor treinador do mundo. 

 

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Dezembro 2020 - nº 708
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