Opinião
29 setembro 2020

Chegar ao povoado

Tempo de leitura: 4 min
Quem caminha com Jesus há-de chegar, mais tarde ou mais cedo, “à aldeia”, à comunidade humana. Caminha-se com Jesus para aprender dele a entrar na comunidade humana e, aí, viver com Ele.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Aqueles dois que conhecemos como os discípulos de Emaús tinham decidido pôr-se a caminho, de Jerusalém para uma aldeia chamada Emaús. Diz-nos São Lucas que ficava a cerca de onze quilómetros. Onde fica hoje? Não sabemos. Lançam-se hipóteses, mas a verdade é que não sabemos. E ainda bem, porque assim essa aldeia de que só conhecemos o nome pode representar muito mais do que um ponto geográfico num mapa.

Quem caminha com Jesus dirige-se a uma aldeia, um lugar onde mora gente, onde há possibilidades de se ser acolhido e de viver.

Ficar com Jesus não é estar parado, é caminhar, porque Ele está sempre em movimento. Alguém dizia, não sei se a sério ou só para um sorriso: Jesus nunca disse «eu sou a meta», o que ele disse foi «eu sou o caminho». Quem quiser ser dos seus, partilhar a sua vida, tem de aceitar fazer da própria vida uma caminhada. É preciso aprender a viver em movimento!

Um candidato a discípulo veio até Jesus dizendo-lhe que guardava os mandamentos! Jesus responde-lhe: «Não estás longe do Reino de Deus, mas se queres ser perfeito, vai, vende, distribui, vem e segue-me» (cf. Lc 18,18ss.). Não basta guardar, observar, conservar, mesmo quando o que se guarda são mandamentos divinos, é preciso sair de onde se está e caminhar por onde Jesus caminha.

Caminhar com Jesus não é ser vagabundo, andar sem destino. Quem caminha com Jesus há-de chegar, mais tarde ou mais cedo, “à aldeia”, à comunidade humana. Caminha-se com Jesus para aprender dele a entrar na comunidade humana e, aí, viver com Ele.

São Lucas diz claramente que «Jesus fez de conta que ia mais adiante» (Lc 24,28): era para ver se eles tinham compreendido, e tinham. Convidaram-no a entrar na povoação com eles. Só lá dentro é que teria sentido pleno a «mesa do seu cálice e do seu pão repartido».

Emaús, a povoação, é a comunidade humana em que nos inserimos com Jesus à nossa mesa. Jesus acaba sempre por nos levar a partilhar a vida de uma comunidade humana concreta. Depois, há-de sempre haver discípulos que se fixam numa comunidade e aí vivem e dão testemunho. São os membros estáveis da comunidade local de discípulos; outros ficam lá “como se fossem da família”, mas só o tempo necessário para realizarem a missão que lhes foi confiada, e depois partem de novo, em companhia de Jesus, para nova missão, rumo a outra “aldeia de Emaús”: é a experiência que fazemos nós, os missionários e missionárias.

Chegamos, caminhando com Jesus, porque enviados por uma comunidade. Permanecemos «comendo do que nos dão», e lá pertencemos como se da nossa família se tratasse – quantas experiências surpreendentes de profunda amizade e fraternidade! E que alegria poder pôr tudo o que somos e aprendemos ao serviço do caminho que aquelas pessoas estão a fazer. E chegará o dia da nova partida. Esse Jesus que procurámos anunciar, e que com “a gente daquela povoação” aprendemos a conhecer muito mais, vai continuar a caminhar connosco, porque o importante nisto de sermos missionários será sempre segui-lo para onde Ele nos conduz, na certeza que uma nova Emaús, uma nova família, nos espera.  

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Outubro 2020 - nº 706
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