Opinião
18 setembro 2020

O optimismo como ingrediente das boas decisões

Tempo de leitura: 5 min
Procurar equilibrar o optimismo com o realismo ajuda a trazer alguma precisão às nossas decisões.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Começamos a assistir à escalada no número de novos casos de infectados com a Covid-19 em Portugal. Talvez seja o resultado dos múltiplos contactos havidos durante as férias. Mas com o regresso em massa (não faseado) às aulas, a intuição diz que a segunda onda está para breve. Fala-se também nas concentrações previstas para os eventos religiosos como o 13 de Outubro em Fátima. Quanto maior a subida, maior será a queda, mas não podemos esmorecer e perder o optimismo. Aí poderá estar a fonte das boas decisões.

O optimismo afecta emocionalmente as nossas decisões porque acreditamos, como o P. Teilhard de Chardin S.J., que ”o futuro é melhor do que qualquer passado.” E a evolução dos acontecimentos na história demonstra isso mesmo. Esta não é a primeira pandemia da humanidade. Houveram outras e bem mais graves. Por isso, é natural e humano ser optimista em relação ao futuro próximo. Por outro lado, é importante ser realista.

O optimismo pode afectar o modo como percepcionamos a realidade. Quando acreditamos muito numa coisa é como se fosse para nós real, sem o ser. Assim, procurar equilibrar o optimismo com o realismo ajuda a trazer alguma precisão às nossas decisões. Posso acreditar que tudo irá correr bem, logo, não preciso de usar muito a máscara, mas a realidade é bem diferente. A máscara é o modo mais eficiente de nos protegermos neste período que se avizinha. E não confundir eficiência com eficácia. Eficácia significa: ou protege; ou não protege. Ora, quando usada correctamente – evitar nariz de fora, e deslocada para o queixo e pescoço –, a máscara protege, mas não a 100% porque depende de muitos factores comportamentais nossos, dos outros, e do ambiente que nos rodeia (bem ventilado ou não). Mas tudo depende da boa decisão de a usar bem.

A importância de procurarmos tomar boas decisões com um equilíbrio apurado entre optimismo e realismo, está na recuperação mais rápida. Se o regresso às aulas tivesse sido melhor planeado e faseado, os modelos estudados por uma equipa de investigadores franceses apontavam para a mitigação de uma segunda onda da pandemia. Tal não aconteceu em França, e o resultado foi um aumento significativo dos casos novos, e o fecho das escolas. É estranho que esse estudo tenha existido e não tenha sido aplicado.

O contacto actual só gera pânico se abolirmos do nosso horizonte o optimismo. Pois, o optimismo implica: 1) reconhecer a oportunidade; 2) estar sempre disposto a aprender; 3) ser adaptável; 4) e fortalecer as conexões.

Se tivermos de sair do nosso modus operandi normal, basta aumentarmos a capacidade de estar atentos para adquirirmos maior sensibilidades às oportunidades que se apresentam. Por exemplo, o tempo de confinamento levou a minha filha mais velha a desenvolver um hábito de leitura que não tinha.

No seu tempo, quando Newton voltou forçado para casa por causa da pandemia em Londres, procurou aprender coisas novas. Curioso sobre os rasgos de luz que atravessavam os cortinados, começou a desenvolver os princípios de óptica que vieram a revolucionar esta tecnologia. E, também, olhando da janela para uma árvore no quintal, viu cair uma maçã…

Quando Tommy Caldwell avançava a passos largos para se tornar um dos maiores alpinistas do mundo, sofreu um acidente numa serra que lhe cortou metade dedo indicador da mão esquerda. Teve de se adaptar à nova condição, não esmoreceu, continuou a treinar, e acabou por se tornar num dos maiores alpinistas de escalada livre do mundo.

Quantas distâncias físicas nos separavam antes da pandemia, mas com o confinamento, muitas pessoas voltaram a ver-se e contactar-se. O mundo já estava conectado, mas as conexões visuais, em vez de meras mensagens, permitiram ultrapassar muitas solidões.

Há muitos que vêem no regresso às escolas e locais de trabalho uma necessidade para relançar a economia, pelo que o excesso de alarmismo é o motivo de acusação dirigido a todos os que aconselham prudência. Mas a prudência faz parte do optimismo que está disposto a sacrificar as necessidades imediatas de hoje, para assegurar a longevidade das boas decisões que nos projectam para um amanhã seguro e melhor.

Como muito do que se passa actualmente não está a produzir os resultados que desejamos, e o número de novos casos de infectados com o coronavirus continua a aumentar, acredito que, apesar de tudo, será o optimismo que nos conduzirá na segunda onda, aproveitando cada oportunidade para a mitigar, aprendendo com os nossos erros, adaptando às novas situações e nunca perdendo as conexões que dão sentido e significado à nossa vida.

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EDIÇÃO
Outubro 2020 - nº 706
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