Opinião
08 novembro 2020

Lágrimas de Deus

Tempo de leitura: 3 min
Os cristãos são a comunidade religiosa mais perseguida. Uma realidade que, no entanto, o mundo parece querer ignorar.
Paulo Aido
Fundação AIS
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Cecília, Leah, Luigi, Paolo, Huma, Maira, Agostino… Provavelmente, nunca ouviu falar deles, ou então apenas terá lido algumas linhas sobre estes homens e mulheres. São apenas exemplo de cristãos sequestrados por causa da sua fé nos dias de hoje. São padres, irmãs, leigos. Têm nome. As suas histórias são comoventes. São o retrato da tragédia que se tem vindo a abater sobre os cristãos em vários continentes, em inúmeros países.

Todos os relatórios produzidos pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) são um alerta para essa realidade dramática: os cristãos são a comunidade religiosa mais perseguida. Uma realidade que, no entanto, o mundo parece querer ignorar. Cecília é uma irmã franciscana. Estava no seu convento, no dia 7 de Fevereiro de 2017, em Karangasso, no Mali, quando foi levada por homens armados. Gloria Cecília Narváez Argoti, 56 anos, é colombiana. Dedicava os dias a auxiliar crianças órfãs e a dar apoio e formação às mulheres das aldeias da região. Foi levada à força por homens armados de metralhadoras e catanas.

Leah Sharibu é uma jovem. Foi raptada na sua escola em Fevereiro de 2018, juntamente com mais 110 colegas. Foi a única que ficou em cativeiro, às mãos do temível grupo jiadista Boko Haram, porque recusou renunciar à sua fé. Tinha então 14 anos. As últimas notícias referem que poderá, entretanto, ter engravidado em cativeiro. Tal como Leah Sharibu, também Huma Younus e Maira Shabhaz, ambas do Paquistão, ambas cristãs, foram raptadas, violadas e forçadas a casar com os sequestradores, muçulmanos. Todas são ainda adolescentes. Huma e Maira tinham também 14 anos quando foram retiradas à força de casa dos seus pais.

O padre Paolo D’Oglio foi raptado por jiadistas do Daesh a 29 de Julho de 2013 na cidade síria de Raqqa quando estava envolvido numa tentativa de libertação de um grupo de prisioneiros. Não se sabe o que lhe aconteceu. O padre Pier Luigi Maccali (na foto) foi sequestrado em Setembro de 2018 em Bamoanga, no Níger. É um missionário italiano de 59 anos de idade, bem conhecido em África, onde passou mais de uma década ao serviço da Igreja e dos mais pobres. Foi libertado no Mali no passado 8 de Outubro. Antonino Cui Tai, de 70 anos, é bispo auxiliar da Diocese de Xuanhua, na China. Pertence à chamada Igreja Clandestina e foi este ano novamente preso. Calcula-se que tenha passado grande parte dos últimos treze anos privado de liberdade por querer manter-se fiel ao Vaticano e ao papa.

A Fundação AIS assinalou, no dia 13 de Outubro, vinte e cinco anos de presença em Portugal. Esta fundação pontifícia tem como missão ajudar as comunidades cristãs perseguidas por causa da fé, mobilizando para isso recursos e procurando alertar o mundo para esta realidade tantas vezes ignorada. Ajudar esta Igreja que sofre e cujos lamentos, lágrimas e sangue raramente chegam a ser notícia no nosso país deve ser um imperativo de consciência.

 (Publicação conjunta da MissãoPress)

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Dezembro 2020 - nº 708
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