Opinião
09 dezembro 2020

O outro pulmão

Tempo de leitura: 4 min
A floresta da bacia do Congo pede atenção urgente.
José Vieira
Missionário Comboniano
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A comunidade internacional segue, com alarme, os grandes incêndios que, anualmente, reduzem a cinzas grandes extensões da Amazónia. Um dos pulmões do planeta tem vindo a sofrer perdas irremediáveis de floresta e de biodiversidade por causa das queimadas e do abate ilegal de árvores. Contudo, o outro pulmão da Terra está a sofrer a mesma pressão ambiental: a floresta tropical da bacia do Congo, no coração da África, que ocupa quase dois milhões de quilómetros quadrados da costa atlântica às montanhas do Rift, onde o rio nasce.

A floresta tropical e equatorial da bacia do Congo, um ecossistema formado por rios, florestas, savanas e pantanais, estende-se por seis países: Camarões, República Centro-Africana, República Democrática do Congo (que detém a maior parte da selva), República do Congo, Guiné Equatorial e Gabão. A floresta dá sustento, água e protecção a 80 milhões de pessoas, de 150 grupos étnicos diferentes, incluindo pigmeus, um grupo de caçadores-colectores de baixa estatura que têm um estilo de vida profundamente ligado à mata.

A floresta congolesa é um repositório valioso de cerca de 20 por cento das espécies do planeta: inclui 10 mil espécies de plantas tropicais, 1300 espécies de aves, 900 de borboletas, 700 de peixes, 400 de mamíferos, 400 de répteis e 336 de anfíbios. Além disso, a floresta é rica em madeiras, petróleo, diamantes, ouro e tântalo (um metal raro fundamental para a indústria dos telemóveis).

A pressão sobre este grande depósito de biodiversidade é enorme e passa pela deflorestação para a produção de carvão (a fonte de energia mais comum), agricultura industrial (produção de óleo de palma e borracha), extracção de minerais (ilegal, na maioria, controlada por grupos armados à margem do Estado) e caça.

Entre 1990 e 2000, a floresta congolesa perdeu mais de 90 mil quilómetros quadrados, o equivalente à área de Portugal. Especialistas projectam que a este ritmo entre 2010 e 2030 outros 250 mil quilómetros quadrados venham a desaparecer, o equivalente a 10 por cento de toda a área. No limite, em 2100 não haverá mais floresta tropical na bacia do Congo, como alertou o presidente Félix Tshisekedi, se os índices de crescimento da população e de procura de energia se mantiverem.

A biodiversidade animal também se encontra em risco devido à caça furtiva e ao tráfico de marfim. Os povos da floresta têm o hábito de consumir caça brava, incluindo macacos e antílopes. Só a República Democrática do Congo consome mais de um milhão de toneladas de animais selvagens por ano. Nos Camarões, o comércio de carne selvagem chega a render 122 milhões de euros por ano. O consumo de caça também está na origem de alguns surtos de ébola.

A floresta tropical da bacia do Congo precisa de uma gestão sustentada para continuar a dar o sustento aos seus habitantes e manter o seu papel activo no controlo das mudanças climáticas e no armazenamento de dióxido de carbono, contribuindo para um planeta mais saudável. A Parceria da Floresta da Bacia do Congo é uma iniciativa que desde 2002 visa promover a conservação e a gestão responsável das suas florestas. 

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Janeiro 2021 - nº 709
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