Opinião
01 janeiro 2021

Construir a cultura do cuidado e a paz

Tempo de leitura: 3 min
A construção da cultura do cuidado, caminho para a paz, é uma tarefa que nos deve comprometer a todos.
Bernardino Frutuoso
Director
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Começamos o ano com a celebração do Dia Mundial da Paz. Na sua mensagem para a efeméride, o Papa Francisco refere que «o ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanitária da covid-19, que se transformou num fenómeno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos».

Francisco sublinha que a pandemia evidenciou a importância da cultura do encontro, a necessidade de cuidar «uns dos outros e da criação» e de edificar «uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade». No entanto, o texto também sublinha que este fenómeno global, paradoxalmente, fez com que as nações se voltassem para dentro, fazendo prevalecer a cultura da indiferença, do descarte e do conflito e agravando as desigualdades dentro das nações e entre elas. «É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição», afirma o Santo Padre.

Neste contexto, ao reflectir sobre a era pós-pandémica e as respostas que a Humanidade deve dar, o papa propõe a construção da cultura do cuidado, que é o caminho para a paz. Recorrendo à analogia da barca que sulca a tempestade, afirma que a Humanidade «avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno» e que, nesta conjuntura adversa, o «leme da dignidade da pessoa humana» e «a bússola dos princípios sociais fundamentais» podem ajudar-nos a «navegar com um rumo seguro e comum». E o Santo Padre lembra que o pensamento social da Igreja é uma «bússola» que pode orientar as pessoas de boa vontade a percorrer esses novos caminhos, pois constitui um património de princípios, critérios e indicações donde se pode haurir a «gramática» do cuidado: a promoção da dignidade e dos direitos da pessoa, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação.

A cultura «é um conjunto articulado de maneiras de pensar, de sentir e de agir» (Guy Rocher, 1989) produzidas, apreendidas e partilhadas socialmente. Recebe-se do passado e transmite-se para o futuro. Nesse sentido, Francisco sublinha que a promoção da cultura do cuidado requer um processo educativo, que começa na família, «onde se aprende a viver em relação e no respeito mútuo». E recorda também o papel insubstituível das religiões «na transmissão dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis».

A construção da cultura do cuidado, caminho para a paz, é uma tarefa que nos deve comprometer a todos, especialmente os discípulos missionários de Jesus. Só assim, diz o papa, podemos avançar rumo a um «novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco», (con)formando uma comunidade de irmãos e irmãs que «se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros».

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Tags
Editorial
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EDIÇÃO
Setembro 2021 - nº 716
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