Opinião
17 fevereiro 2021

Há lugar para o discurso teológico perante tanto discurso virológico?

Tempo de leitura: 6 min
A única coisa que gostaria de ver presente num discurso teológico, vai para além da compreensão de Deus, mas, com um tom de divulgação teológica (à semelhança da científica), através de imagens e testemunhos, inspirar a vida quotidiana a fazer de cada momento, um momento de Deus.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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(© Unsplash/Aaron Burden)

Qual o contributo do discurso teológico para a compreensão do momento de pandemia que vivemos? Nem sempre é fácil ler um discurso teológico por conter traços filosóficos. E a beleza da liguagem da filosofia está em alguma da sua complexidade. Talvez por isso, sintamos que o discurso teológico elaborado filosoficamente pretende ajudar-nos a pensar estes difíceis tempos, mas não consegue. E daí a dúvida: haverá lugar para o discurso teológico num mundo profundamente afectado por um evento biológico?

Ao ler o excelente artigo de João Paulo Costa, presbítero da Arquidiocese de Braga, fiquei intrigado com uma passagem que faz do filósofo germano-coreano Byung-Chul Han no seu livro “A Sociedade Paliativa”, por espelhar o modo como vi alguns amigos cristãos a enfrentar esta pandemia. Isto é, com um olhar mais reducionista que se recusa a aceitar o facto de não vivermos mais no mundo antes da Covid-19, e de que, talvez, isso não seja mau de todo.

Byung-Chul Han começa por dizer na passagem que me intrigou que «Em face da pandemia, a sociedade da sobrevivência proíbe serviços religiosos mesmo na Páscoa. Os padres também praticam o “distanciamento social” e usam máscaras. Sacrificam totalmente a crença à sobrevivência sanitária. Paradoxalmente, o amor do próximo manifesta-se como distanciamento. O próximo é um portador de vírus potencial. A virologia desautoriza a teologia. Todos estão atentos ao que dizem os virologistas, que alcançam uma supremacia de exegese absoluta. A narrativa da ressurreição cede por completo o passo à ideologia da saúde e da sobrevivência.»

A crença sacrificada, e a desautorização da teologia, causadas por um acontecimento virológico, são uma visão reduzida do interlaçar entre a física e a metafísica que fazem parte do viver humano. Reconhecendo os efeitos que a pandemia teve sobre os ritmos da nossa vida espiritual, poderia, antes, dizer, que a sobrevivência sanitária desafiou a superficialidade da nossa crença, e que a virologia desafia a complexidade frequente do discurso teológico. Não estou tão certo que o discurso dos virologistas seja acolhido por nós como uma verdade absoluta que nos impeça de viver a narrativa da ressurreição. Muito pelo contrário, nunca como antes essa narrativa foi tão importante para aproximar o infinito do finito, o incompreensível do vivível, ajudando a procurar sentido naquilo que parece não ter. A narrativa da ressurreição é uma narrativa de esperança, e não é a esperança uma fonte de vida?

Na verdade, o discurso teológico é semelhante ao discurso científico. Por exemplo, se o leitor começar a ler um artigo sobre os conjuntos de sondas primárias acessíveis para detectar potenciais variantes do coronavírus SARS-CoV-2 ficará tão desinteressado como se lesse um artigo teológico sobre a ontologia cristã da dimensão do humanum perante a visão teodiceica desta pandemia, certo? Porém, os divulgadores de ciência procuram explicar conceitos científicos complexos com metáforas, ou seja, imagens de proximidade à experiência de vida quotidiana que uma pessoa sem formação científica possa entender. Logo, os teólogos e filósofos poderiam/deveriam fazer o mesmo.

Byung-Chul Han diz ainda que «Perante o vírus, a fé degenera e transforma-se numa farsa. Ela é substituída por unidades de cuidados intensivos e por ventiladores. Contam-se os mortos diariamente. A morte domina por completo a vida e esvazia-se em nome da sobrevivência. A histeria da sobrevivência torna a vida radicalmente transitória. Ela é reduzida a um processo biológico, que precisa de ser optimizado. Perde toda a dimensão meta-física […]. A vida é despojada de qualquer narrativa com sentido. Ela deixa de ser narrável e passa a ser mensurável e contável.»

E, por este motivo, proliferam no mundo cristão as ideias de que não há pandemia, de reserva em relação à vacina, e que as máscaras não protegem, logo, por que razão as devemos usar ou prescindir das celebrações? A fé só degenera se estiver assente em solo infértil e equivocado. Não me parece que os cuidados intensivos, e os ventiladores, sejam imagem do domínio da morte, mas, pelo contrário, do domínio da vida por representarem o esforço de salvar as pessoas dos efeitos sérios e graves desta pandemia. A vida é, realmente, transitória, mas não se reduz a essa condição. A vida, em todas as suas fases, está orientada para a ressurreição. E a ligação entre a vida da materialidade e da eternidade faz-se na profundidade.

Medir e contar é, para um cientista, a base para a compreensão dos fenómenos físicos, mas não é o fim último da sua investigação. Por isso, a contagem dos infectados e dos que morrem pode, também, servir de base para a procura de uma vida mais profunda e enraizada num Ideal que não passa: Deus.

A única coisa que gostaria de ver presente num discurso teológico, vai para além da compreensão de Deus, mas, com um tom de divulgação teológica (à semelhança da científica), através de imagens e testemunhos, inspirar a vida quotidiana a fazer de cada momento, um momento de Deus.

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