Opinião
17 abril 2021

Cuidas da natureza se a deixares em paz

Tempo de leitura: 5 min
A criatividade na natureza pode deslumbrar-nos mais do que imaginamos. Basta que lhe demos essa oportunidade, deixando a natureza em paz.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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Foto: Marta Panão

Os cientistas que estudam os ecossistemas têm a clara noção da importância de minimizar a sua intervenção para compreender as relações tróficas entre espécies, ou o modo como os fungos comunicam com as árvores, entre tantas outras curiosidades do mundo natural. Mas a insistência na expressão “cuidado da criação” faz-me pensar que muitos temos a ideia de que nós, humanos, é que sabemos como a natureza deve ser. Daí o recurso à palavra “administrador” quando nos referimos ao nosso papel em relação à criação. Penso que estejamos a interpretar mal o que Deus quer de nós.

Há algum tempo fiquei maravilhado com o jardim de uma casa durante uma das minhas caminhadas. A razão é diferente da que o leitor possa pensar. É que o jardim estava tudo menos bem arranjado. Ou seja, o jardineiro era a própria natureza. O jornalista George Monbiot no seu livro “Feral” diz que – «aquilo que chamamos de conservação da natureza em algumas partes do mundo é, de facto, um esforço para preservar os sistemas agrícolas dos séculos passados. A paisagem idealizada por muitos grupos dedicados à vida selvagem é a que prevaleceu há centenas de anos, independentemente do ponto em que começaram a contar. É isto que tentam preservar ou re-criar: defender a terra das incursões da natureza.» E esta?

A perspectiva de que o “desarranjo” é, na realidade, o arranjo próprio do mundo natural parece-me relevante para entender como a expressão “cuidado da criação” possa ser mais entendida nesta versão antropocêntrica do que na versão que procura um novo sentido de responsabilidade pelos nossos estilos de vida. Daí que, em diversos escritos passados, tenha referido que, talvez o mais importante seja: “cuidar do relacionamento com a criação”. E sob esta nova perspectiva, também o modo como a natureza procede, entra nesse relacionamento. Pois, não passa pela cabeça de ninguém, hoje, dizer ao outro como ele deve ser – quase como se dissessemos – à imagem e semelhança do modo como fazemos nós.

Aceitar o curso que a natureza quer dar à paisagem, aos ecossistemas, etc., significa reconhecer que essa, a natureza, não consiste numa colectânea de espécies animais e vegetais, mas que os relacionamentos entre essas, e dessas com o meio ambiente perfaz um todo maior do que a soma das partes. Cuidar do relacionamento com a natureza implica resistir ao impulso de querer controlar a natureza. Antes, significa deixar a natureza em paz e a seguir o curso que segue há bem mais tempo do que nós neste planeta. E quando deixamos a natureza em paz, encontramos, também nós, uma nova paz e oportunidade de nos relacionarmos e deliciarmos com o mundo natural.

Quando nos relacionamos com alguém, à partida, não estabelecemos objectivos. Isto é, podemos desejar que o relacionamento vá até certo ponto (um matrimónio, um projecto conjunto, etc.), mas isso não é o mais importante. Pois, os relacionamentos humanos de proximidade não são questões de gestão de recursos humanos, mas de processos naturais provenientes dos momentos de empatia que vivemos uns com os outros. Com a natureza pode ser, também, assim. Quando deixamos de controlar os espaços naturais, deixamos que a natureza re-crie esses espaços, encontrando o seu próprio caminho.

Para o crente que é criadorista (não criacionista), logo, acredita num Deus criador de tudo o que existe, da natureza e de nós como parte dessa, quando a natureza realiza o seu percurso, na prática, realiza o desígnio de Deus para essa. Eu temo que pensar o contrário seja viver em contradição com a experiência de relacionamento com o Deus-criador.

Há quem pense que o problema da natureza somos nós. E quando damos espaço à natureza para que seja por si mesma, parece que estamos a ir contra o “mandato” de Deus para cuidar da criação. Para mim, estes raciocínios circulares geram muita confusão e divisão de papéis que não se vê no seio das famílias.

Na família da criação, como na família humana, cada um tem o seu lugar. E o cuidado maior que podemos ter uns com os outros acontece através dos relacionamentos. O que um pai mais deseja para o seu filho é estar presente e acompanhá-lo no seu caminho. Se fizéssemos o mesmo com a natureza, antes de podar uma árvore, ou cortar o matagal do quintal, procuraríamos conhecer a vida que existe nesses ecossistemas. Pois, a criatividade na natureza pode deslumbrar-nos mais do que imaginamos. Basta que lhe demos essa oportunidade, deixando a natureza em paz.

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Setembro 2021 - nº 716
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