Opinião
16 junho 2021

Vede como eles reagem

Tempo de leitura: 6 min
Cada cristão deve ver em cada pessoa, visível à nossa frente, ou invisível à frente do nosso ecrã, um outro Jesus a quem amar e reagir de acordo com isso.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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«Vede como eles se amam.»escreveu Tertuliano sobre os cristãos do seu tempo. Mas no nosso tempo, o amor visível aos olhos dos outros não se restringe aos gestos testemunhados presencialmente, mas, também, aos gestos digitais realizados virtualmente. Quando reagimos, ou comentamos, o modo como o fazemos será, para o cristão, expressão do modo como ama. Na Era Digital, o mundo dirá dos cristãos «vede como eles reagem.»

Jaron Lanier é um filósofo conhecido em Silicon Valley e um dos pais da realidade virtual. Lanier considera-se um crítico da tecnologia, distinguindo ser-crítico de ser-contra. E quando as redes sociais começaram a dar os primeiros passos, entrar em diálogo com as pessoas através dos comentários era um dos valores da internet na geração de comunidades virtuais. Porém, ao fim de algum tempo, Lanier começou a notar uma diferença no seu estado de espírito gerado pelos comentários: estava a tornar-se numa pessoa negativa. Em vez de estimular o diálogo e confronto de ideias, os comentários estavam a transformar as pessoas, tornando-as mais reactivas e agressivas. É inegável que este efeito se sinta também nas comunidades virtuais de origem espiritual.

Uma das personalidades da Igreja Católica mais activas no mundo digital tem sido o bispo americano Robert Barron com a sua iniciativa Word on Fire. Depois de um artigo que escreveu, muitos dos comentários que recebeu de católicos entraram na categoria da calúnia. Num video que publicou sobre as redes sociais onde conta esta experiência de calúnia, em vez de contra-argumentação, diz o bispo Barron:

«Amigos, os Católicos têm de parar de desfazerem-se uns aos outros online. Deveríamos estar indignados por aqueles que enviam comentários virulentos uns aos outros, impendindo uma real e frutífera conversação evangélica. A calúnia, isto é, a acusação mal-intencionada de outra pessoa, é uma violação da caridade e da justiça. Quem poderia culpar o não-crente por pensar, “eu não quero fazer parte daquele grupo” se virem como os Católicos interagem uns com os outros nas redes sociais?»

Sem amar até ao fim é impossível evangelizar.

O ser humano evoluiu no planeta graças à sua capacidade de comunicar e construir comunidade a partir dos relacionamentos que estabelecemos uns com os outros. As redes sociais e a ausência de fricção ou edição presente nos comentários favorece a reactividade sem ponderação que está na origem do aumento de ansiedade e depressão das pessoas que têm mais dificuldade em desligar-se da rede. É um resultado da ânsia de ter uma voz neste mundo ruidoso, mas sem ponderação, contribuímos mais para o ruído do que na criação de um fio de ouro que liga as histórias na construção de um mundo de paz.

Antes da internet, quando alguém queria comentar o que lia, sentava-se, escrevia uma carta ao editor, revia o que escrevia e assinava com o seu nome. Na era digital, basta usar um teclado, escrever o que nos vier à cabeça, carregar em “enviar” e fazê-lo no anonimato. Sem qualquer revisão ou edição da nossa opinião, mais sério do que o efeito dessa reacção em nós, como explícito na experiência do bispo Barron, é o efeito que essa gera nos outros. Digitalmente, assistimos a verdadeiros grupos de linchamento que servem de juiz e júri, sem qualquer empatia pela pessoa a quem dirigem a sua revolta (seguramente interior). Algo que no âmbito da espiritualidade exige uma conversão profunda.

A conversão para construir comunidades virtuais saudáveis, sem excluir a contra-argumentação que nos motiva a aprofundar as nossas experiências, poderá estar numa simples e eficaz pergunta: ”as minhas palavras são um acto de amor?” O amor quer sempre o bem do outro ao modo que o outro quer, não ao meu. Por vezes temos de ser claros (e duros) nas nossas palavras, mas se as escrevermos colocando-nos na pele do outro, podemos, inclusivé, descobrir que não conhecemos o suficiente sobre a sua personalidade para sabermos como as dizer e construir relacionamentos construtivos. Nesses casos é melhor falar no silêncio e procurar conhecer melhor o outro.

As reacções que temos no mundo digital são fáceis e parecem-nos inconsequentes. No anonimato tudo parece válido e sentimo-nos livres para sermos nós próprios e dizer aquilo que realmente pensamos. Creio que isto deveria servir-nos de sinal de alerta, ou barómetro do estado de espírito das pessoas na nossa sociedade para percebermos como amar melhor.

«Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). Todo o caminho espiritual na construção de comunidades virtuais em torno da busca pelo aprofundamento da dimensão espiritual da vida humana pode beber (e muito) desta máxima da experiência cristã. Cada cristão deve ver em cada pessoa, visível à nossa frente, ou invisível à frente do nosso ecrã, um outro Jesus a quem amar e reagir de acordo com isso. Parece um passo pequeno, mas será o suficiente para dizer, actualizando Santo Agostinho: ama e comenta o que quiseres.

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Julho 2021 - nº 715
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