Opinião
01 julho 2021

Sem idosos não há futuro

Tempo de leitura: 4 min
Nesta nova era, os idosos são necessários para se construir, na fraternidade e na amizade social, o mundo de amanhã.
Bernardino Frutuoso
Director
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(© 123RF)

Nesta metacrise global originada pela pandemia de covid-19, os idosos foram – e são – das pessoas que mais sofreram com a doença, o isolamento e a solidão, o distanciamento físico. O dramático número de falecidos, nomeadamente nos lares, fez-nos estremecer. Em alguns países, perante a necessidade de atenção sanitária, chegou-se mesmo a sacrificar umas vidas em benefício de outras, considerando residual a vida das pessoas mais velhas. A maior vulnerabilidade, as patologias e a idade avançada foram os factores que justificaram essa “eleição” em favor dos mais jovens. Uma opção que viola os direitos da pessoa e é humana, ética e juridicamente inaceitável.

Nessa linha, os bispos portugueses assinalavam em 2020 na reflexão Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal: «A questão dos idosos e a ideia de que são descartáveis é um escândalo que se revelou em toda a sua brutalidade. Devemos isolar de nós o vírus e não o idoso, tornando-o desumanamente solitário.»

O Papa Francisco também sublinhou em Janeiro passado, numa intervenção que encerrou o I Congresso Internacional da Pastoral dos Idosos, no Vaticano, que «a desorientação social e, em muitos aspectos, a indiferença e a rejeição que as nossas sociedades manifestam em relação aos idosos chamam não apenas a Igreja, mas todos, a uma reflexão séria para aprender a compreender e apreciar o valor da velhice».

O papa afirmou que as pessoas mais velhas são uma dádiva para a sociedade e convidou a superar uma visão economicista, assumindo o património de «valores e significados» da «terceira e quarta idade». Salientou que «a velhice não é uma doença, é um privilégio! A solidão pode ser uma doença, mas com caridade, proximidade e conforto espiritual, podemos curá-la».

O Santo Padre afirmou, ainda, que «os idosos também são o presente e o futuro da Igreja», «o Senhor pode e quer escrever com eles também novas páginas, páginas de santidade, de serviço, de oração». Nesse sentido, «consciente do papel insubstituível do idoso, a Igreja torna-se um lugar onde gerações são chamadas a partilhar o plano de amor de Deus, num relacionamento de troca mútua dos dons do Espírito Santo. Essa partilha intergeracional obriga-nos a mudar o olhar sobre os idosos, a aprender a olhar para o futuro juntamente com eles».

É com esta perspectiva de valorização dos idosos nas sociedades e na Igreja que o Papa Francisco decidiu instituir o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos. Vai-se assinalar, este ano, no dia 25 de Julho. A mensagem pontifícia para esta jornada – que destacamos nas páginas 26-29 – sustenta que os idosos são discípulos missionários activos e criativos, pois «não existe uma idade para reformar-se da tarefa de anunciar o Evangelho, da tarefa de transmitir as tradições aos netos». Os mais velhos têm a vocação de «salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos.» O papa realça que, nesta nova era, os idosos são necessários para se construir, na fraternidade e na amizade social, o mundo de amanhã. E aponta três pilares em que os mais velhos têm um papel fundamental para esta reconstrução: os sonhos, a memória e a oração. 

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Editorial
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Julho 2021 - nº 715
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