Opinião
18 setembro 2021

É preciso mudar (o) “mesmo”

Tempo de leitura: 6 min
Uma escolha espiritualmente ecológica pode ser a variação suficiente que altera o rumo da história na nossa casa comum.
Miguel Oliveira Panão
Professor universitário
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«A mudança está próxima. Ou vem da mudança da nossa sociedade, ou vem da mudança dos céus e do solo.» – Assim termina um artigo recente da New Scientist sobre o sonho de uma visão global para um mundo de emissões zero, isto é, neutras do ponto de vista do CO2. As alterações climáticas estão à nossa porta e são a reacção à nossa acção. Afectam-nos a todos, mas são os mais pobres e com menos recursos que sofrerão mais e daí a eco-injustiça gerada em muitos pelo consumismo e despreocupação de poucos. Não é possível alterar o curso do antropoceno, ou seja, da mão humana que altera, literalmente, a face do planeta, sem alterarmos os nossos comportamentos. Porém, se essas alterações não vierem a partir do nosso interior, corremos o risco de se viver mais uma sensação momentânea. Aliás, já se questionaram porque razão todos os COPs (conferência das nações sobre as alterações climáticas) desde Paris, dizem sempre o mesmo – «temos de mudar» – mas pouco se muda?

Em 1992, na primeira grande conferência climática, muitos cientistas afirmaram – «somos nós a razão da alteração climática» – mas nem todos acreditaram. Por isso, em 1995 em Berlim na Alemanha, começaram as famosas conferências COP (Conference Of Parties) e aí os intervenientes acrescentaram a palavra mesmo, isto é, – «somos mesmo nós a razão da alteração climática», mas parece que não chega. E cada COP é como se acrescentasse mais do mesmo. A situação é semelhante ao sapo que dentro de uma panela com água posta ao lume, não nota que a água aquece e quando dá por si, já cozeu. O sapo somos nós. E o ser humano consegue ser tão resiliente quanto casmurro. É necessário dar um passo concreto em vida e profundidade.

Em nossa casa, por duas vezes, recebemos um vendedor de um sistema de purificação da água da rede e, da última vez, apresentou, também, um sistema de hidrogenação da água. De facto, o sistema seria excelente, deixaríamos de comprar garrafões de água diminuindo o plástico e a água filtrada (e hidrogenada) seria melhor para a nossa saúde. Tudo isto por 3000-4000 euros. Não dá. Porém, ao perceber que o ponto fundamental da filtragem estava no carbono activado, após uma pesquisa na net vimos que um pedaço desse material que dura por muito tempo custa apenas sete euros. Há mais de um ano que temos água filtrada com carvão activado. Basta deixar actuar por oito horas e bebemos saúde.

Experiências como a nossa e tantas outras poderiam ser partilhadas para ajudar outras famílias a fazer este caminho. Neste tempo e até 4 de Outubro, as Igrejas Cristãs convidam as suas comunidades a viverem em oração pelo tempo da criação. Vale a pena repensar os nossos estilos de vida e encontrar o modo de fazer um caminho de conversão ecológica, partilhando-o com os outros. Aliás, é com esse propósito que o Dicastério para o Desenvolvimento Humano integral propôs a Plataforma de Acção Laudato Si’, PALS (https://plataformadeacaolaudatosi.org), que se espera lançar em Novembro deste ano.

A ideia da PALS é a de oferecer pistas para um percurso que pode durar até sete anos, explorando os temas do grito da terra e dos pobres, o desenvolvimento de uma economia mais ecológica e estilos de vida mais sustentáveis, melhorar o modo como educamos para a sensibilidade às questões ambientes que afectam o nosso quotidiano, crescendo na nossa participação e acção activa no seio das comunidades onde vivemos. Por fim, um dos temas que me parece particularmente relevante é o da Espiritualidade Ecológica. No final deste percurso, cada pessoa, família, comunidade, grupo ou entidade, receberia um certificado que simboliza muito mais do que um selo de caminho cumprido. O certificado é o sinal de uma cultura gerada por uma conversão ecológica inspirada na Encíclica do Papa.

A Espiritualidade Ecológica pode ser o passo deste caminho que realiza as transformações dos comportamentos que podem fazer uma diferença positiva na era do antropoceno, partindo das bases, isto é, das decisões de uma imensidão de pessoas.

Não é fácil acolher a ideia de que as pequenas escolhas que fazemos na nossa família possam ter um impacte global, mas a ciência do caos (apesar do nome) é isso que afirma. James Gleick, no seu livro “Caos”, escreve que «em ciência como na vida, é bem sabido que uma cadeia de eventos pode ter um ponto de crise que amplifica pequenas mudanças. Mas o caos significa que esses pontos estão em todo o lado.» Por isso, não fiquemos à espera que os políticos decidam o que devemos fazer. Uma escolha espiritualmente ecológica pode ser a variação suficiente que altera o rumo da história na nossa casa comum.

 

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Outubro 2021 - nº 716
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