Opinião
28 outubro 2021

Além de Emaús

Tempo de leitura: 4 min
A viagem, depois de Emaús, é muitas vezes feita «de noite», um caminho à procura das vias que nos possam levar ao encontro dos outros para partilharmos a nossa descoberta de Cristo.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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A história dos dois discípulos de Emaús (Evangelho de Lucas, 24) é um caminho com duas metades desiguais. Narra com riqueza de pormenores, gestos e sentimentos a viagem de ida, saindo de Jerusalém, caminhando um dia inteiro, a chegada do terceiro peregrino e o longo diálogo com Ele, a chegada a Emaús, já ao cair da noite, o terceiro caminhante que finge querer continuar só para que os dois discípulos o convidem a ficar com eles. No momento conclusivo desta viagem de ida, encontramos os três sentados à mesa, e Jesus que se dá a conhecer com as palavras e gesto do partir do pão, o mesmo que tinha feito com eles e com os outros alguns dias antes, na quinta-feira da primeira eucaristia, em Jerusalém.

Logo ali, decidem regressar para contar aquele encontro extraordinário aos amigos que tinham ficado em Jerusalém. A distância que tiveram de caminhar no regresso foi a mesma, ou maior, que de noite não se corta caminho por atalhos: terá levado tempo e esforço a cobrir aquela distância, mas o Evangelho de Lucas não conta nada dessa nova caminhada. Diz apenas: «Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram a Jerusalém.» O objectivo deles é bem claro: querem ir anunciar o que viram e ouviram, o encontro que tiveram com Jesus.

Gosto de pensar nessa caminhada, agora já não para ir embora, mas sim para ir ao encontro e anunciar; é como a «viagem» de Pedro e João, que dirão: «Não podemos calar o que vimos e ouvimos» (Actos 4,20). Palavras de outros discípulos, mas a experiência é a mesma.  Como acontece em outros momentos do evangelho, o autor deixa um espaço da narrativa vazio, para que o leitor possa preenchê-lo com a sua própria história. Trata-se da caminhada que fazemos, para ir ao encontro dos outros, depois que, também nós, nos sentámos à mesa com Ele e reconhecemos Jesus ao «partir do pão».

Esta viagem, depois de Emaús, é muitas vezes feita «de noite», um caminho à procura das vias que nos possam levar ao encontro dos outros para partilharmos a nossa descoberta de Cristo; caminho sempre feito «dois a dois», dando testemunho da fraternidade; será um caminho longo onde o elemento «distância» é fundamental.

O poeta Rainer M. Rilke gostava de dizer que «há uma grande distância entre duas pessoas que se querem bem, e uma grande comunhão se souberem amar essa distância...». Partilhar a fé exige «amar a distância» não só em quilómetros, mas também em mentalidades e culturas, e percorrê-la com amor. É preciso amar a distância que é o caminho de quem recebe o anúncio do Evangelho, e o ritmo com que o vai vivendo; e há também «distância» nas novas maneiras de viver o Evangelho que vão nascendo à medida que o Evangelho vai passando de uma cultura para outra.

Não amar essa distância seria querer fazer dos outros uma fotocópia de nós mesmos e Deus prefere criar sempre novos originais, numa fraternidade «plural e poliédrica» como o Papa Francisco gosta de lhe chamar. É fascinante a riqueza desse caminho. É o caminho de cada um de nós que, depois de encontrar a Jesus, «não podemos calar o que vimos e ouvimos», como diz o tema do Dia Mundial das Missões deste ano!  

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EDIÇÃO
Novembro 2021 - nº 717
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