Opinião
16 maio 2019

A Páscoa veio tarde?

Tempo de leitura: 4 min
Com a morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus beneficia toda a humanidade.
Fernando Domingues
Missionário Comboniano
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Este ano a Páscoa caiu tarde! Era assim que costumávamos dizer quando calhava, como este ano, quase nos finais de Abril. E a propósito da Páscoa tarde ou cedo, estive numa discussão, há pouco, em que alguém tinha dificuldade em compreender como Deus tinha esperado tanto tempo antes de enviar Jesus Cristo ao mundo para nos salvar. Até há pouco tempo pensava-se que os primeiros seres humanos tinham vivido há cinco ou talvez sete mil anos, e alguém fazia contas para ver quantos milhões de pessoas viveram antes que a salvação de Cristo chegasse a este mundo. Outros argumentavam que mesmo se eram muitos, os membros da humanidade que vão viver depois da morte e ressurreição de Cristo serão muitíssimos mais.

É fácil ver que uma discussão destas não tem solução possível. A verdadeira pergunta é: Jesus morreu e ressuscitou para salvar só uma parte da humanidade, ou para dar a toda a família humana, de todos os tempos e lugares, a possibilidade de entrar em comunhão com Deus? Porque o que chamamos “salvação” é isso mesmo: a possibilidade de entrar em comunhão com Deus de maneira tal que todos, gente de sucesso e também os falhados da vida, possamos chegar à plenitude da vida.

Jesus disse-o um dia de maneira muito bonita: «Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude.»

Com a sua morte e ressurreição, Jesus introduziu a vida de Deus – que ele tinha em si (Col 1,19) – em todas as situações humanas, mesmo as do mais desgraçado e triste sofrimento, como a cruz que ele mesmo sofreu.

Essa presença de Deus que dá vida beneficia só quem vive depois de Cristo? Parece que Deus estaria a cometer uma injustiça para com a parte excluída da humanidade! Beneficia só quem acredita nele? Outra injustiça: quanta gente que não acredita em Cristo e não tem culpa nenhuma disso!

A verdade é que Jesus morreu e ressuscitou por todos, seja os que vivem depois da sua vinda, seja os que viveram antes.

Quando era pequeno, gostava de subir a uma lomba de areia, muito alta, que ficava perto de casa. Lá de cima conseguia alcançar com a vista uma grande distância, olhasse para norte ou para sul, para o lado do mar ou em direcção à serra... A morte e ressurreição de Cristo é para Ele como aquela lomba alta, é um acontecimento que tem lugar na nossa História há pouco mais de dois mil anos, mas é um acontecimento que se coloca também “acima da História” porque é uma acção de Deus. E para Deus toda a História da humanidade é presente; Deus não tem passado nem futuro, Deus vive num eterno presente. Quando ressuscita Cristo, Deus “alcança com o seu olhar” todo o nosso passado e todo o nosso futuro. É por isso que podemos dizer que com a morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus beneficia toda a humanidade, quem viveu antes de Cristo, como quem vai viver muitos séculos mais tarde. O Calvário é como aquela lomba alta, no meio da nossa História.

É claro que ainda fica a outra pergunta: se Cristo ressuscitou por todos, que diferença há entre os que acreditam nele e os que não acreditam porque seguem outra religião ou porque não seguem nenhuma?

Já lá havemos de chegar. Por agora ficamos com a certeza de que Cristo veio na hora certa, nem cedo nem tarde. Era simplesmente aquela que Jesus gostava de chamar «a minha hora» (Jo 2,4), a hora que o Pai do Céu tinha estabelecido (Jo 17,1). E veio para todos! 

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EDIÇÃO
Junho 2019 - nº 692
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